Rotting Christ - Entrevista exclusiva com vocalista/guitarrista da banda.

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O Rotting Christ definitivamente é um marco na história do metal grego. Com quase 10 anos de estrada (seu primeiro full-lenght data de 93), o grupo segue firme e forte, sempre à frente com sua música de qualidade. Agora, com seu novo CD intitulado "Krhonos", o conjunto derruba novas barreiras, abrindo o caminho para novas bandas gregas, assim como o Angra fez com o Brasil. Amigo de longa data, Sakis, vocal e guitarra do RC, excelente pessoa, concedeu, com prazer, essa entrevista a Whiplash!, onde falou, bem-humorado, de seu novo disco, turnês, política e mais.

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Entrevista concedida a Haggen Kennedy

Tradução: Haggen Kennedy

Whiplash! / Sakis, afinal de contas por que o disco demorou tanto a ser lançado?

Sakis / Bem, nós estivemos bastante ocupados com nossa última turnê. Ficamos cerca de um ano em volta do globo tocando, nos apresentando em vários países, na verdade em 4 continentes, de modo que ficamos meio sem tempo para escrever novas músicas. Eu tenho a enorme sensação de que você vai perguntar por quê não passamos por aí [risos], então eu vou lhe dizer que, devido a pressões da gravadora, tivemos que parar as turnês e fazer o disco. Eles não aceitariam se ficássemos mais de um ano e meio sem apresentar material.

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Whiplash! / É, o disco estava previsto para ser lançado em Fevereiro ou Março... mas, se não me engano, vocês tocaram também na Colômbia, que é bastante perto do Brasil... por que não passaram por aqui?

Sakis / Ah, sim, é verdade. Nós fizemos quatro shows lá, mas lá pela metade tiveram que ser adiados porque dois managers de lá levaram o dinheiro dos produtores e nos deixaram no meio de lugar nenhum. Foi uma situação embaraçosa [risos]. Mas prometo que, na próxima, faremos uma tour completa e passaremos pela América do Sul, pois sei que temos fãs de peso por aí.

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Whiplash! / E quando isso acontecerá?

Sakis / Bem, na verdade eu não sei, porque isso depende dos produtores e organizadores de eventos de cada país ou cidade. Não fica exatamente ao nosso encargo, então fica difícil lhe dizer. Mas eu espero realmente passar por aí ainda este ano.

Whiplash! / Isso é bom. Mas e sobre o disco? "Khronos", não é isso? Como ele soa?

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Sakis / Oh, sim, "Khronos". Bem, ele soa mais agressivo que nunca. [N do E: eu dou uma risada e ele fica meio que desconfiado] Não, mas é sério, mesmo! Pode acreditar! É uma mistura de tudo o que fizemos todos esses anos. Nós fomos para o Abyss Studios [N do E: de Peter Tägtgren, do grupo Hypocrisy, na Suécia] e ficamos impressionados porque realmente foi o estúdio em que conseguimos ser mais agressivos, compor e gravar o som mais agressivo até o momento. Na verdade, é o estúdio mais "agressivo", por assim dizer, que deve existir naquele país. Então, o novo disco é realmente um misto de tudo o que fizemos no passar dos anos. Ele contém elementos dos nossos early days, assim como de nossos dias atuais. Acho que é o melhor disco que fizemos até agora.

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Whiplash! / Ah, mas é normal quando você lança um disco...

Sakis / [interrompendo e completando] ...considerá-lo o melhor de todos? Ah, sim, com certeza, eu concordo. Mas... bem, não sei. Talvez eu mude de idéia no próximo ano, mas, por agora, é essa minha opinião. Espero que seja a dos fãs também. [risos]

Whiplash! / Você acha que tem como superar o "A Dead Poem"? Pergunto porque, na minha opinião, foi a maior obra de arte que vocês já fizeram.

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Sakis / Oh, obrigado. Eu também gosto bastante dele. Bem, em minha opinião, [o novo disco] é o melhor. Mas isso é uma questão de ponto de vista. Talvez "Khronos" não seja melhor na sua opinião. É um pouco complicado. Nosso novo álbum é totalmente diferente...

Whiplash! / Totalmente diferente?!?

Sakis / Oops. Não, não! É diferente. Diferente, apenas diferente [risos]. Você pode perceber facilmente que é o Rotting Christ, apenas é um pouco diferente.

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Whiplash! / Mas é mais para um "Thy Mighty Contract" ou para um "The Sleep of the Angels"?

Sakis / Ah, é um misto, mesmo. Ele tem alguns elementos do "A Dead Poem", mas alguns elementos de "Thy Mighty Contract" também. É tudo baseado, digamos... num "som do ano 2000".

Whiplash! / Certo. Mas na música "Aeternatus" eu pude perceber um toque de elementos industriais em algumas passagens...

Sakis / Sim, é verdade...

Whiplash! / Mas como você classificaria o tipo de som que o Rotting Christ faz hoje em dia?

Sakis / [dá uma respirada profunda] Puxa, eu... nossa, é um meio complicado rotular as coisas. Eu prefiro classificá-lo apenas como "metal", novamente. Sei lá, você pode chamar como quiser. Dark Metal, Death Metal, Black Metal... Gothic às vezes... mas é metal, de qualquer modo!

Whiplash! / Eu pergunto isso porque o Death e/ou o Black Metal são tipos de música bem "seletivas". Digo, geralmente não se encontram "elementos industriais" nesse gênero musical, apesar de que algumas bandas assim o tem feito ultimamente. Mas, exatamente por isso, você não acha que é um tanto perigoso? Talvez os fãs do Rotting Christ virem-se contra vocês ou algo do tipo, como parar de gostar da banda...

Sakis / Na verdade, eu vejo isso de uma forma exatamente oposta. Acho que os fãs adorarão o disco, não acho de forma alguma que deixarão de gostar da banda, porque o novo álbum é puta agressivo, bem black, death, ou como você quiser chamar. Os fãs gostarão dele, tenho certeza.

Whiplash! / É um álbum conceitual?

Sakis / [pensando] Não sei se você pode chamar de "disco conceitual", porque... bem, há um tipo de conceito, claro, uma linha de pensamento que discorre em todo o seu processo, mas [pensa] não posso dizer exatamente que é conceitual. Se bem que, como disse há pouco, há um fundo disso nele, pois as letras externalizam o lado negro de nossas vidas. As letras estão mais obscuras que nunca, estão doentias! Elas expõem, durante todo o disco, sentimentos e sensações enegrecidas, pensamentos obscuros sobre a vida; uma constante externalização do lado negro da vida, como eu disse, mas não posso dizer que é um disco conceitual, a não ser pela idéia que dele se extrai, como o descrevi.

Whiplash! / "Khronos" significa "tempo" em grego, não?

Sakis / Sim, exatamente. Mas se você olhar atentamente para a capa, verá três palavras arcaicas gregas, que significam "seis, seis, seis", só que fugimos um pouco disso, dessa vez, porque já é tão batido esse lance de "meia meia meia". Então, na verdade, o disco tem esse nome secreto, "Khronos 666" [N do E: Tempo 666], que significaria os tempos negros, a era de trevas que nós, seres humanos, passamos.

Whiplash! / Ah, então essa é a relação entre o título do disco e suas letras: esse lance de obscuridade, algo sombrio e melancolicamente malévolo que assola toda a história contada.

Sakis / Nossa, você falou tão bonito, eu deveria colocar isso no nosso próximo disco [risos]. Bem, mas é realmente algo negro e obscuro. Nesse aspecto, a vivência nos Abyss Studios foi muito boa porque estávamos todos lá, no meio da floresta, aquele clima épico que você pode ver em bandas escandinavas. Uma melancolia sombria, como você mesmo disse, que nos influenciou bastante, de forma que pudemos passar isso para o disco. Mas realmente o que fizemos foi pegar aquele lado triste, deprimido de nossas vidas e os expor, porque é isso que somos, é isso que é o Rotting Christ.

Whiplash! / Certo. Falando nos Abyss Studios, eu soube que Peter [Tägtgren} mixou o disco, não?

Sakis / Sim, exatamente. Ele mixou e eu produzi o disco sozinho.

Whiplash! / Mas e quanto ao Lars Szoke? Soube que ele tinha participado no processo também...

Sakis / Ah, ele foi o engenheiro de som, ou seja, só gravou o que tocamos, nada mais...

Whiplash! / Você poderia falar um pouco sobre o processo de produção e/ou gravação do álbum?

Sakis / Na verdade, foi uma experiência grande e nova para nós gravar na Suécia porque o local em que o estúdio se encontra é fantástico, realmente incrível. É como eu te falei, é no meio do nada, rodeado de árvores, numa floresta logo atrás dos Lagos Gelados, e o tempo é bastante duro, não é como na parte de cima do Brasil, por exemplo. Então, é o tipo da coisa que lhe influencia, você se concentra no que está fazendo, no que está compondo, na sua música. E o Peter era o cara certo para essa experiência, para esse tipo de música. Ele está no ramo há tantos anos e é um profissional de altíssima qualidade.

Whiplash! / É, e aposto que ele lhe ajudou um bocado na hora de adicionar os tais "elementos industriais", não?

Sakis / Não, não, não! Ele não tomou parte nisso. Isso, na verdade, veio a partir do tecladista [George]. Ele está tão envolvido com música industrial, então ele influenciou, em certo grau, no som do Rotting Christ, mesmo que ainda sejamos a mesma banda.

Whiplash! / Falando nisso, você trocou o batera da banda, não?

Sakis / Não, não, o batera ainda é o mesmo [Thamis]. O que aconteceu é que no disco as partes baterísticas foram tocadas por um outro cara, pois o nosso [batera] sofreu um acidente algumas semanas antes das gravações. Então, eu falei com ele [com Thamis], que disse ser impossível sair da Grécia para ir até a Suécia. Por outro lado, não podíamos remarcar nossas datas porque o Abyss Studios já está com vagas reservadas para os próximo dois anos!, o que nos fez prosseguir. Daí, liguei para nosso selo [Century Media] e pedi para que achassem um batera rápido, que morasse na Escandinávia. Acharam esse cara, e gravamos com ele.

Whiplash! / E sobre as tours que vocês fizeram? Tocaram com o Cradle of Filth, Usurper, Sinister, Immolation...

Sakis / Isso, tocamos com o Immolation e o Sinister em Chicago; com o Cradle nos Estados Unidos, também, e no Canadá.

Whiplash! / Mas como está a cena metal lá? Vocês tiveram casas lotadas?

Sakis / Olha, na verdade, não tivemos tanta gente. É muito difícil entrar no marcado dos EUA porque eles estão acostumados a um outro tipo de música, estão ouvindo suas próprias bandas. Então, é difícil tocar lá porque não há tantos fãs. Mas é uma experiência muito boa porque tocar nos Estados Unidos é totalmente diferente de tocar na Europa, você encara um cultura diferente... mas acho que aquele país está prestes a presenciar um boom da cena.

Whiplash! / Por quê?!

Sakis / Bem, porque é um país muito grande e, assim, há mais possibilidades da música penetrar lá. Acho provável que o metal volte a viver por lá.

Whiplash! / Certo. Falando nos EUA, ouvi dizer que vocês, recentemente, tiveram alguns problemas com um certo político de nome Gary Bauer, que clamava que vocês eram homossexuais... [N do E: veja nota inteira aqui]

Sakis / É, nós recebemos, há pouco tempo, uma fita com o [discurso do] cara. Ele categorizava-nos como homossexuais e anti-católicos. Ok, somos uma banda anti-católica, somos uma banda anti-cristã, mas não somos homossexuais! Lógico que não temos problema com homossexuais, é só que não somos homossexuais, pô! [risos]

Whiplash! / Inclusive, você foi contatado por um jornalista do Washington Blade Newspaper chamado Bill Roundy, não?

Sakis / Sim, isso mesmo! Porra, como diabos você sabia disso? [risos]

Whiplash! / Eu tento me manter informado. Mas o que ele perguntou/pediu a vocês?

Sakis / Bem, ele apenas pediu que nós déssemos nosso relato oficial, digo, uma resposta oficial à acusação do tal político.

Whiplash! / Você, de alguma forma, se relaciona com política? Digo, você se interessa pelo assunto?

Sakis / Bem, eu me interesso em política, sim, mas é bastante difícil manter-se sempre informado quanto ao que acontece em volta de todo o globo, particularmente quando você está em turnê – é bem difícil acompanhar tudo. Mas, definitivamente, acho que deve-se estar informado do que acontece porque, hoje em dia, se você não está informado, você está morto perante a sociedade. Acho que é bastante necessário procurar sempre se atualizar e manter-se informado.

Whiplash! / É, perguntei porque todos sabem que a Grécia é o berço da Democracia, então eu sempre tenho a impressão de que todos tem um certo envolvimento com o assunto, de uma forma ou de outra. De qualquer modo, minhas perguntas se acabaram. Algum comentário final?

Sakis / Gostaria de terminar a entrevista dizendo que, por favor, keep the metal alive!! E espero poder tocar no Brasil tão logo possível porque já estive aí e sei como o público é fantástico. Eu adoro o Brasil, adorei ficar aí e gostei bastante das pessoas, do povo brasileiro. E não são simplesmente elogios vazios, você sabe disso, você me conhece. Até acredito sinceramente que o povo brasileiro se pareça bastante com o grego, pelo menos nessa questão de ser uma raça quente, que transparece o calor humano [N do E: e é verdade, esses gregos não ficam para trás. Ô povinho festeiro]. No mais, muito obrigado pela entrevista e obrigado a todos os fãs que sempre deram apoio ao Rotting Christ. Vemos vocês em breve, mantenham a chama do metal acesa para sempre.

Curiosidade

Em novembro de 1999, o Rotting Christ tornou-se um assunto político nos Estados Unidos: o candidato a presidente Gary Bauer referiu-se à banda, num discurso, proferindo essas palavras: "...eu poderia continuar com tais exemplos, muitos deles ainda mais repulsivos, desde a notória peça "Corpus Christi", que descreve Jesus como um homossexual mantendo relações com seus Apóstolos, a uma pintura na Penn State University mostrando um soldado nazista e um padre católico, lado a lado, ao topo de uma vítima judia do Holocausto. Deixarei às suas mentes o lixo anti-católico promovido por astros do entretenimento da mesma laia, tais como Sinead O’Connor, Madonna e o grupo homossexual Rotting Christ."

Um artigo foi escrito sobre o caso no Washington Blade Newspaper, jornal local da cidade de Washington, nos EUA, onde o vocalista do Rotting Christ, Sakis Tolis, foi contatado pelo repórter Bill Roundy, que informou o grupo a respeito do acontecido. Suas palavras: "Senhor Tolis, saudações. Sou repórter do Washington Blade, de Washington, D.C., e esperava que o senhor pudesse responder a alguns comentários feitos recentemente pelo candidato a presidente conservadorista Gary Bauer. Num discurso hoje, Bauer acusou o Rotting Christ de ser um "grupo musical homossexual anti-catolico". Só para constar, você ou qualquer membro da banda é/são gay(s)? E como vocês respondem às acusações de que sua música é Anti-Católica? Obrigado pela ajuda. Sinceramente, Bill Roundy, repórter do The Washington Blade."

Sakis e o resto do grupo (todos heterossexuais, é claro) prepararam o relato oficial da banda, que assim segue:

PALAVRA OFICIAL DA BANDA ROTTING CHRIST

"Falando por toda a banda, estamos surpresos em saber da posição do público político Gary Bauer sobre o Rotting Christ.

"É estranho ver o que certos políticos fazem para aumentar sua publicidade. Apontam alguém que é heterossexual como sendo homossexual em função de expressar sua homofobia frente a alguém que é "chocante" na aparência – ou seria porque nossa aparência não é "tão macho" como a deles!? De qualquer modo, qual é a aparência masculina necessária para ser um "homem de verdade"?

"No que diz respeito à nossa atitude anti-Católica, que é bastante óbvia com um nome como Rotting Christ, o que já classifica nossa posição em assuntos religiosos. Mas isso não diz respeito apenas ao Catolicismo, mas a todo outro tipo de religião também. Vivendo em (tão faladas) sociedades democráticas, acho que todos deveriam ter o direito de chamar as religiões do que ele(a) quiser. Nós, de fato, simplesmente acreditamos que elas [as religiões] estão "apodrecidas" ["rotting"]! Não somos o tipo de banda "guerreiro satânico", mas sim, uma das muitas bandas que representam o lado negro da música Metal dos dias de hoje. Sakis Tolis - Rotting Christ."

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