Militão Ricardo - Fundador e baterista da Banda 69

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Por Angela Joenck Pinto e André Pase
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A Brasília dos anos 80 ficou para a história como uma cidade musicalmente punk. Nesta entrevista tivemos a oportunidade de descobrir que a capital do nosso país sempre foi bem mais do que isso. Como um legítimo centro cultural, Brasília abriga muitos estilos e tribos. Neste ambiente de efervescência cultural nasceram muitos conjuntos, entre eles a Banda 69. Hoje morando em Porto Alegre, Militão Ricardo, fundador e baterista do grupo, nos conta mais sobre a história de Brasília, das bandas e especialmente da Banda 69, que ficou como um expoente para o rock da cidade na década de 80.

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Whiplash! / Brasília, início da década de 80. Todo mundo voltava os olhos para Rio e São Paulo. Como foi ver que o Brasil tinha música de qualidade em outros lugares?

Militão / Vou contar a minha história, a minha visão da coisa. Até porque eu não era da turma da Colina (a Colina é a moradia dos professores da UNB). O Plano Piloto e o Lago Sul e Norte tinham 400 mil habitantes, então era uma cidadezinha de interior. Todo mundo se cruzava. Era muito fácil as pessoas se conhecerem. Eram poucas escolas, poucos bares, poucas lanchonetes, cinemas, então todo mundo se conhecia. Brasília é um apêndice do eixo Rio-São Paulo. Por força do governo federal lá, tu tinhas uma universidade grande, uma universidade de primeira categoria. Umas das boas universidades brasileiras, a UNB.

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Whiplash! / Será que esse ambiente teve alguma contribuição?

Militão / Eu acho que tem uma contribuição dela porque a UNB foi criada pelo Darcy Ribeiro, que era um cara que tinha uma cabeça muito aberta, muito diferente. Ele era muito inovador. E em 1960, naquele clima do Juscelino, de Brasília... "vamos fazer um novo Brasil, vamos inventar um novo Brasil"... naquele pique daqueles anos JK, que foram anos em que houve uma efervescência cultural muito grande no Brasil. Foi o início da Bossa Nova, da arquitetura. E o Darcy foi pra lá e fundou a UNB com uma proposta nova, uma proposta de estruturação curricular. Tu entravas para o teu curso, tu tinhas o básico de humanas e o básico de exatas. Havia uma estrutura de pré-requisitos. Mas eu que escolhia. Se por um lado tu não fazia uma turma, por outro lado tu conhecia um trilhão de pessoas diferentes. E os departamentos sempre ofereciam disciplinas pra alunos de outra faculdades como opcionais. Eu fiz matéria na Antropologia, na Economia, na Filosofia. Comecei na Geografia, fiz matéria na Arquitetura, nas Artes Plásticas, iniciação ao teatro, fui parar na música, troquei pra música, fui fazer matéria introdutória da comunicação, acabei na comunicação, quer dizer...eu montei um background muito diversificado. E no meu primeiro semestre, isso foi em 1981, eu tô sentado do lado de um alemaozão alto, lá, vindo de Curitiba, um tal de André Müller (futuro baixista da Plebe Rude). E aí a gente começou a conversar.

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Whiplash! / Muitos músicos passaram por lá?

Militão / Na área da música já tinha Damiano Cosella, gente que estudou com Stockhausen, tava lá pela UNB também. Era o Governo Federal, tinha o Ministério da Educação. Os diplomatas, que são um pessoal muito ligado em arte e cultura, essas coisas todas. Por força disso as embaixadas todas estavam em Brasília e traziam grupos estrangeiros, ballets e orquestras. Eles acabavam indo para Rio, São Paulo e Brasília porque tinha todo aquele público institucional. Essa era a mistura. E também juntou gente de todo o Brasil. Com uma predominância de nordestinos e mineiros. Uma referência forte de uma vida carioca. Sabe que brasiliense usa clube como carioca usa praia...Então é isso. Gente de todo Brasil, informação de todo o lugar. E uma cidade que pela configuração , ela é muito propícia pra você pensar, pra você estudar, pra você se dedicar a ter um hobby, alguma coisa. Porque tem em torno dela 500 km de nada. É preciso de 3 horas para chegar em Goiânia. Brasília olha pro Rio e Goiânia olha para São Paulo culturalmente. Então tu ficavas muito em cima do mesmo circuito. É uma cidade pequena, não tinha muita opção. Daí vem aquela história que o Renato (Russo) falava: "O tédio da cidade". Daí o Dinho (Ouro Preto - irmão de Ico, ambos ex-Aborto Elétrico) vai contar isso, o Fê (Lemos) vai contar isso. "...Porque era o tédio, a vida é um tédio, era um saco..." Como se qualquer adolescente não achasse a vida um saco, um tédio. Porque nada acompanha a velocidade dos hormônios de um adolescente.

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Whiplash! / E o tempo livre que Brasília proporcionava dava espaço para as pessoas formarem bandas?

Militão / Diziam que Brasília tinha um número muito grande de divórcios e separações. As pessoas vinham de uma cidade de onde tinham um pique de vida em que não paravam muito tempo juntas. Começavam a conviver e BOOM! Explodia a coisa. Você precisa arranjar alguma coisa para fazer com o seu tempo. A grande opção era a música.

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Whiplash! / Em plena ditadura militar...

Militão / Eu acho que a gente estava vivendo uma fase alienada. Cheguei lá em 1975 ainda abaixo da ditadura militar, então tinha aquela dificuldade e tal. A gente estava no covil do lobo. E eu levava uma vida muito engraçada. Eu velejava e passava a 100 metros do Palácio da Alvorada e pra gente que estava completamente desligado da situação toda, mas...e aí arranjamos o tempo para aprender estas coisas. Eu comecei a tocar violão e bateria com 14 anos.

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Whiplash! / Como vocês tinham acesso à música em Brasília?

Militão / A gente já era a geração da cultura de massa. Ouvindo rádio, uma rádio diferente, que já tocava mais de tudo. Eu ouvia rock, Beatles. O Renato também ouvia Beatles. Todo o mundo ouviu Beatles, só que aqueles caras não admitiam porque chique era gostar do The Cure. Gostar do U2 quando era a coisa mais underground do mundo, chique era falar do Stone Marble Giants. Nós, adolescentes e crianças dos anos 70, ouvíamos Fleetwood Mac, Pink Floyd, a gente ouvia Led Zepellin. Beatles em doses cavalares. Depois, quando começaram a ficar rebeldes, negaram o que aconteceu.

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Whiplash! / A mania era posar de rebelde e dispensar os sons nacionais, né?

Militão / A minha banda era fã de 14 Bis. E todos os outros negavam. Eu não sei se eles não iam, mas enchia. E para mim, quando o 14 Bis começou a tocar, eu pensei que estava começando a ter rock brasileiro na mídia. A Rita Lee esteve lá com o Tuti Fruti em 76 e o meu pai disse que eu não podia ir. Depois, no outro ano, eles fizeram um show que era "Rita Lee e O Terço" junto com o Bicho da Seda, tocando Beatles. E era uma coisa difícil porque Brasília tinha essa repressão. Tu não conseguia tocar em qualquer lugar. E realmente, a geração dos anos 70 era foda. Sofreu poucas e boas. Tinha repressão, aquela coisa política toda que entrou para a repressão de costumes depois que a direita tomou conta e impôs também um controle de costumes. Aí em 80, 8l, veio a anistia e ainda tinha a censura, mas a coisa começou a respirar. E também, todo mundo era filho de diplomata...

Whiplash! / E a tal da Turma da Colina?

Militão / Era um vilarejo. Estava todo o mundo ali. Aí vem a história. Existia este grupo de amigos que eram os filhos dos diplomatas e filhos dos professores universitários, que era o Fê e o Flávio Lemos (o pai deles era professor) o Lorinho e o Gerusa, eles moravam ali pertinho na quadra da Asa Norte. Perto da Colina.Então os caras se conheceram. Aí o Fê conheceu o Renato não sei onde . Eu, a primeira vez que vi o Fê foi em 78...no Festival de jazz na casa Thomas Jefferson. Eu estou lá assistindo e apareceu um grupo que ia tocar blues. Me chamou a atenção o baterista. Aí, um tempo depois, eu encontro um cara daquela banda e pergunto: E aquele baterista? Ele disse: "Pois é. Ele saiu da banda". Ele disse que o Fê tinha saído e ia fazer uma banda de punk rock com uns caras. "Vão juntar uma banda de punk rock chamada Aborto Elétrico".

Whiplash! / Assim nasceu o Aborto Elétrico?

Militão / Um dia eu estou caminhando, acho que estava indo para o meu colégio, junto da 303 Sul , tinha uma coisa pichada: AE. Depois eu fui saber; foi o Renato que pichou aquele troço. Aí em 80 eu fui lá no Gilberto Salomão, um Centro Comercial que é o 'playbódromo' de Brasília. E eu tô lá no Só Cana (bar da cidade), lá no fundo, e vi que estava tendo um show de rock na calçada com o baterista, aquele. E chamou a atenção um loiro que tocava guitarra, com quase 2 metros de altura, cara de americano. Ele cortou a mão no show, sangrava e não parava de tocar. E me dei conta que tinha um baixista que era um cara que quicava, pulava e tocava. Não sabia quem era esse cara. Daí me falaram que era um professor da Cultura Inglesa. Depois eu fui ver: era a primeira apresentação do Aborto Elétrico.

Whiplash! / E a sua banda?

Militão / Eu conheci um cara da minha turma que tocava piano. Depois conheci 2 caras de outra turma que tocavam violão e descobri que os caras gostavam de Beatles. Voltamos das férias e fomos tocar. Os ensaios foram indo e um dia eu arranjei uma apresentação na UNB. Na mesma semana nós nos apresentamos na tal Feira de Música. A minha banda começou a tocar ali, a Banda 69. Só que a gente fazia rock americano. Rock inglês para gente era Beatles e Rolling Stones. Eu era doido pelo Paul McCartney. Continuo sendo. Nunca neguei Beatles, nem eu nem a minha banda.

Whiplash! / O que era exatamente a Feira de Música?

Militão / Era um troço que um cara inventou num centro cultural e agora foi batizado como Centro Cultural Renato Russo. E tinha um teatro chamado Teatro Galpão. Era de um grupo de sambistas. Os caras faziam toda segunda-feira de noite um show aberto para um público que gostava de ouvir um samba. Eles começaram a abrir para todos os estilos de música. Quando o pessoal do rock descobriu que ali tinha um Pazinho, uma mesinha de som, uma bateria e um público... Cara, começou a ir todo o mundo.

Whiplash! / E Brasília tinha eventos culturais que incentivavam as bandas, não?

Militão / Tinha a Feira de Música! Começaram a despontar três bandas. A nossa (Banda 69), o Nossa Amizade (não sei se de lá surgiu o Pôr Do Sol, que tinha um som estilo Roupa Nova, aquela coisa romântica... Mas cara, tinha um público muito grande). E tem mais. Coisa que aqueles punks nunca vão falar. A primeira banda que foi um fenômeno de público no início dos anos 80, tenho a impressão que foi em 81 ou 82, era uma banda chamada Mel da Terra. Que era uma mistura desse rock bem lálálá, mas era um pessoal que tocava muito bem. Gente muito boa. O Beto (baterista do Mel da Terra) é gaúcho. E eles pegavam uma produtora da cidade que trazia shows de fora, pegou os caras, produziu o show, trabalhou mídia, fez fita Demo e colocou na rádio. E entupiu!!! Eles começaram a fazer shows no concerto Cabeças, outra coisa muito importante de Brasília, que era uma galeria de arte que começou a fazer shows na parte dos fundos, no gramado da Super Quadra. Começou a encher de gente nas tardes de sábado e de domingo para assistir música de todos os estilos e isso era uma grande característica de Brasília: a mistura.

Whiplash! / A diversidade sempre foi grande...

Militão / Uma coisa que eu quero deixar dita, que acho fundamental, é que Brasília era muito mais do que a turma da Colina. Brasília era muito mais. Nós da Banda 69 não fazíamos punk rock inglês, ou pós punk, como eles chamavam. Rock inglês pra nós era Beatles e Rolling Stones. A gente tava muito mais ligado em Dire Straits, que estourou ali em 79 e foi uma coisa super importante. Ali em 80 a gente estava ouvindo The Wall. Toda a gurizada estava ouvindo The Wall. A gente estava ouvindo 14 Bis e não negava. Tipo, o Marcelo Murilo adorava A Cor do Som e era legal. As letrinhas eram bobinhas mas o som era bom.

Whiplash! / E os estilos sempre conviveram numa boa?

Militão / Tinha uns caras bem bicho grilo, com violãozinho e flautinha ,depois um cara tocava erudito, depois tocava jazz. Primeiro com os rockeiros tinha o preconceito, mas depois nós entramos. E eram vários estilos de rock. Tinha progressivo. Teve algumas bandas de rock underground progressivo. O Tellah eu tenho discos. Hoje em dia é raridade e eles vendem na França, naqueles selos segmentados.

Whiplash! / Voltando a Feira de Música ...

Militão / Rolava a Feira de Música, rolava o Cabeças, que foram os primeiros espaços para gente assim, que não tinha nem experiência, nem know-how, nem público. Como a gente faz para conseguir um teatro para tocar? Nem isso a gente tinha idéia! Então a gente ia nesses lugares e tocava. Aí os punks viram a gente na Feira de Música e o Aborto Elétrico foi lá e tocou também. Então várias vezes a gente tocou na mesma noite. Eu tenho gravações nossas, da Banda 69 na Feira de Música.

Whiplash! / E a coisa foi crescendo?

Militão / Aí a gurizada começou a falar, foi de boca em boca, começou a falar na faculdade. Começaram a ir assistir. Ali que o Bi Ribeiro (baixista dos Paralamas) assistia a Banda 69. O Herbert (Vianna) agora foi me dizer que ali que ele nos assistiu uma vez. Só que a gente tocava Twist and Shout, que era o ritmo básico de Beatles 63, 64. Quando a gente ouviu os punks e aquele ritmo, notamos aquela energia. Aquela energia crua de rock. E a gente farejava tudo. A gente tinha aquela coisa de Beatles: "Vamos fazer que nem quem fazia assim?" " Vamos!" Daí fazia uma música no estilo. Então a minha banda tinha um estilo muito variado. E Twist and Shout era uma das nossas peças de resistência. A gente fazia com os vocais e tudo e a galera vinha abaixo. Todo mundo ouvia, conhecia. Quando entrava o Aborto Elétrico tocando, neguinho vinha abaixo porque já era muito bom, já era Que País é Este? Já era o Renato com aquele vocal, com aquele carisma, tocando guitarra. Ele tocava baixo. Daí o Sul Africano (André Pretorius) foi embora e chamaram o Flávio (Lemos) para o baixo e o Renato foi para a guitarra. Tem uma música deles que até hoje não saiu que é "Sou Verde-Amarelo". O repertório da Legião veio do repertório do Aborto. Aí o Capital tocava Fátima, tocava Música Urbana, tanto que Música Urbana 2 é da fase acústica do Renato. Então esse era o ambiente que eu via.

Whiplash! / A música começou a virar o forte da cidade?

Militão / Isso é uma coisa que em 83 a gente já começou a se dar conta. Começou a ganhar volume na cidade. O retorno de público da Legião foi um impacto muito grande. Aí o Renato começou a tocar solo e um pessoal gostava. Nessa época a Banda 69 estava crescendo, todas aquelas bandas tipo Plebe Rude estavam crescendo. Os primeiros shows em 81 na UNB, era Aborto Elétrico, SLU (que depois virou Metralhas) e o Blitz de Brasília. Que depois se recombinaram e viraram Legião, Capital e Plebe Rude, que depois virou XXX e depois Escola de Escândalo.

Whiplash! / Ninguém se isolava então?

Militão / Os punks eram muito amigos do pessoal de uma banda de jazz. Eles usavam a mesma sala de ensaio. Eles viviam na sala do Toninho Maia, que era um cara que trabalhava no Banco do Brasil ,mas era maluco por jazz. Ele tinha um grupo de jazz chamado Chakras. Eu me lembro quando eu comecei a ver shows em Brasília e comecei a ver no jornal os shows da cidade, eu ia muito ver os Chakras e comecei a conhecer os caras. Eles eram amigos do Toninho. Os Chakras tocavam num bar chamado Cafofo, lá na Asa Norte. E os punks começaram a ir no Cafofo tocar.

Whiplash! / Tem fotos do aborto elétrico tocando no Cafofo. Vocês tocaram lá?

Militão / Essa fase do Cafofo eu não acompanhei muito. Era quando eu estava nos EUA. Essa eu acho que é a grande diferença até para Porto Alegre. Todo mundo se conhecia, todo mundo se dava bem. O jazzista com rockeiro, com o flautista de música erudita. Não tinha essa coisa aqui de Porto Alegre, que os caras não se falam. Na época já era bem assim. E o que está ficando para a história oficial é que Brasília era os punks, e não era. Era muito mais coisa.

Whiplash! / O que ficou para a mídia é que Brasília se resumia ao punk na época.

Militão / Essa é a minha visão. Vocês vão ouvir que os caras só falam da turma da Colina... "Porque o André Müller foi para Londres....ou "O Fê e o Flávio foram para Londres com o pai deles e trouxeram a informaçao punk em 78"... Eu me lembro, antes de eu ir para os EUA, o Ezequiel Neves falava de punk na revista Pop. Todo o mundo comprava a revista Pop. Tinha um jornalzinho onde escreviam Ana Maria Baiana, Ezequiel Neves (que usava o pseudônimo Zeca Jagger, depois virou Zeca Rotten), falando de Sex Pistols, The Clash... Então a gente tinha esta referência. Só que as coisas eram longínquas, distantes. Tu tinha as lojas, saia até os discos. O Renato nunca morou na Inglaterra e descobriu o punk rock lendo Melody Maker. Ele dava aula na Cultura Inglesa, os caras tinham Melody Maker e ele começou a ler. Aquela época não se compara com a quantidade de informação que se tem hoje. Você se liga na internet e consegue trezentos mil sites de tudo que se quer. Você vai na livraria e se tem os livros estrangeiros traduzidos. Tu importas o disco que tu quiseres pela loja, pela internet, por não sei onde. Passa na TV, tem a TV a cabo, tem MTV. Na época não tinha nada, só tinha a revista Pop.

Whiplash! / Quais eram os outros bares onde o pessoal se apresentava?

Militão / Tinha o Beirute, onde passava o Liga Tripa. Atrás do Liga Tripa só não vai quem já morreu. Era um grupo de caras. Eles entravam no Beirute e começavam com "...Nô Nô Nô Nô Nô..." (Nota: Trecho da música Travessia do Eixão, que pode ser encontrada no disco Uma Outra Estação, da Legião Urbana). Tinha pessoal hippie e uns tempos depois achava os caras todos vestidos de preto. Viravam punks. Era muito engraçado.

Whiplash! / E não era só música, né?

Militão / Litogravura, arte do nordeste, coisas muito legais. Tinha uns caras que eram meio hippies mas tinham uma cabeça muito boa. Sérgio Duboc, os caras do Liga Tripa... E sempre tocaram por prazer. Raras as vezes que eles tocavam em teatro. Era curtir. Era a música como celebração. Aí de repente o dono do Beirute chamava a polícia e colocava eles pra fora. E quantas vezes a gente tava no Beirute e passava o Renato. Eu tenho aqui umas fitas de entrevista do Renato e do Fê para aqueles trabalhos de Faculdade: "O que é punk?" O Renato fazia muita coisa com xerox. Eu assistia os ensaios. Tenho aqui uns slides do Renato e das gurias da época.

Whiplash! / Como vocês faziam para divulgar as coisas?

Militão / Boca a boca e xerox. A geração mimiógrafo foi a do Nicholas Behr. O Nicholas Foi um dos compositores do Travessia do Eixão. A gente já tinha Xerox. Daí o Dinho Ouro Preto começou a fazer um fanzine, falando das bandas. Começaram aquele ambiente de fazer o fanzine da banda, começaram a distribuir, mas todo mundo se encontrava no mesmo barzinho, então era muito boca a boca. Aí surgiram as festas da UNB em 81, as festas da arquitetura. Foram 3 ou 4 festas e vinham as bandas tocar. Foi onde eu comecei a atuar junto deles. Eu estava lá na UNB, eu também conhecia eles, era colega do André Müller. A gente chegava ali na UNB e todo mundo se encontrava. O Loro (Jones) e o Gerusa, que não estudavam na UNB, desciam pra lá e se encontravam com a gente. Muito aconteceu de ter show na Entrada Norte. O pessoal ia lá e fazia shows.

Whiplash! / Bem espontâneo ...

Militão / A gente arranjava o equipamento emprestado da Unb e fazia show. Em 83, depois da temporada de rock, o Rodrigo, tecladista, saiu da Banda 69. Nós estreamos em um show junto do vestibular, que o Capital Inicial produziu. Então Capital e Banda 69 tocavam. A gente começava a tocar e vinha o Fê Lemos e o pessoal do Capital vendendo cerveja. Então a gente conviveu muito junto. Só que nós tocávamos junto, todo mundo gostava, todo mundo dançava, só que não rezava pela cartilha punk. Todo mundo gostava e respeitava a gente. Era bem bom.

Whiplash! / E a Roconha?

Militão / Existiu mesmo ,só que eu não fui.

Whiplash! / Sobre o pessoal da Legião. Diziam que o Dado não sabia tocar...

Militão / Ele pegou o pouco que ele sabia na época e tirou muito. Ele estudou pra caramba depois.

Whiplash! / Todas as bandas tinham os seus contatos?

Militão / Da nossa banda, eu sempre fui a pessoa que tinha mais contato com eles. É que a gente se encontrava na faculdade e esse negócio de produzir show era eu quem cuidava mais. E me dava muito com todo mundo em Brasília, tanto que depois eu virei jornalista (risos). Só pela agenda que eu tinha, me diziam: Vem trabalhar com a gente e traz a tua agenda. Tinham outros grupos, tinham outras fontes. Tinha o Mel da Terra que lançou um LP depois por uma gravadorazinha e se deram muito mal. Foram morar no meio de uma cidadezinha na beira da Rio-São Paulo para poder tocar nas duas cidades. Estourou Blitz, Barão, o "Som de Brasília", punk sei-lá-o-que... Mas eles tinham um som legal. E os punks adoravam falar mal do Mel da Terra. Eu também tive minha fase de dar discurso contra hippie, andar de calça rasgada. Mas depois de uns meses eu caí na real. E depois, nos anos 80 teve uma coisa que hoje em dia todo mundo esquece, cara. Quando se fala em anos 80 se fala muito de U2 e Cure, mas todo mundo esquece que houve uma coisa chamada The Police.

Whiplash! / O que chamava a atenção de vocês no Police?

Militão / The Police foi um troço acachapante, muito mais que o U2. O U2 foi adquirir a magnitude deles no final da década de 80, depois do Rattle and Hum, do filme, da turnê. Eles estouraram com aquele Pride (In The name of Love) e estouraram nos EUA, depois fizeram aquele outro LP, Joshua Tree, outra turnê, daí eles viraram fenômeno mundial. Mas o fenômeno dos anos 80 era o Police. Estourou! Todo mundo ouvia, tocava na FM, era muito legal. E aquela guitarra do Andy Summers, de ficar botando flanger, ficar botando os acordes e deixar soar, aquela bateria do Stuart Copland... todo mundo tocava feito Stuart Copland. E os carinhas dessas bandas punks também tinham os seus flangerzinhos. Todo mundo adorava The Police. Mas tinha que ser meio bom para tocar a música dos caras. Quem tocava The Police era o Paralamas. Eles tocavam The Police de cabo a rabo no ensaio. Porra, o primeiro LP do Herbert é cheio de flanger.

Whiplash! / Só a partir do segundo disco eles começaram a ter uma sonoridade própria?

Militão / Os Paralamas passaram a ter umas personalidade definida a partir do Selvagem, o que é super normal em uma banda que vai aprendendo a usar o estúdio, que começa a ter tempo para se dedicar só àquilo, grana para comprar 500 coisas diferentes e ouvir. Aquela coisa toda de Reggae branco, SKA. Isso era muito legal também na turma da Colina. Eles depois trouxeram o SKA. O irmão do André Müller, o Bernardo, que hoje é um vetuisto professor de economia da UNB, um cara com doutorado, ouvia muito SKA. Então eles tinham essa banda chamada XXX.

Whiplash! / Você assitiu ao show da Legião em Patos de Minas?

Militão / Não. Eles me falaram que iam tocar em Patos de Minas e eu achei muito longe e tal. Depois veio o André (Müller) dizendo "Nos prenderam!". Fiquei sabendo na segunda, terça-feira, na UNB. A gente se encontrava todo o dia na UNB.

Whiplash! / Os shows da ABO ficaram famosos ?

Militão / Eu toquei na ABO uma semana antes da Legião. A gente percebeu que aquela energia dos punks tinha alguma coisa de especial. A coisa tinha tomado um volume na cidade. Mas só tomou um volume grande depois que eles entraram pela mídia de massa, que eles gravaram pela EMI. Aí a EMI acionou todos os seus divulgadores, entrou nas rádios e automaticamente aqueles programadores que recusavam as fitas demos que a gente gravava ali na Asa Norte (que diziam que era ruim, a qualidade era péssima, que era tudo uma porcaria, "isso é muito pesado, isso é uma droga!"), automaticamente receberam e botaram no ar. O último show pequeno, de teatro, da Legião foi no Teatro da Escola Parque, no lançamento do primeiro disco. Eu até fiquei em cima do palco, vendo e tal. Ali se encerrou a fase romântica. Depois daquilo ali foi um show monstruoso no Ginásio de Esportes de Brasília, para 25 mil pessoas, entupido. E depois três dias na Sala Villa Lobos, com um ingresso caríssimo, mas daí porque eles queriam fazer um show legal em Brasília, no melhor teatro, para dizer. Os roqueiros chegaram por cima no teatro em que roqueiro não entrava. Aí já era uma coisa grande, já tinha segurança, já tinha que ter credencial. Já tinha virado Business. Lógico, já não era mais aquela coisa que tu chegavas, ia lá com os caras e entrava no palco, saia junto para bater um papo no barzinho depois.

Whiplash! / E nunca mais as coisas foram as mesmas...

Militão / Se tinha uma sensação que a gente tinha uma coisa forte ali. Eu conversava muito com o Renato e incentivava muito. O Renato era um cara muito inteligente, inteligentíssimo. O pessoal das bandas só botaram eles. Tudo bem, eles eram amigos. Os Paralamas abriram uma brecha para a Legião, que abriu uma brecha para o Plebe Rude. O Capital fez o espaço deles lá em São Paulo e tal, mas mais ninguém. Era a famosa turma da Colina. Depois foi juntando gente. Tinha gente que nem fazia nada, umas gurias que nem faziam nada, mas se pintavam de punk: "Oh, você já escutou não-sei-o-quê?"; "Ah, eu recebi o disco de sei-lá-eu-quem!". Eu não gostava daquela coisa. Tem umas figuras que estão sempre no que está na moda, digo, aquelas que estavam vestidas de hippie e um ano depois estavam todas de preto, com cabelo tingido e eu dizia: "Mas que interessante..." Eu e minha banda sempre ficamos na nossa. Na época a gente até que meio que reagiu: "Ah, eles têm o bar deles então nós temos o nosso bar". E era só a gente e mais uns amigos (risos)

No momento, Militão Ricardo tem planos de fazer uma página sobre sua outra banda, Os Rochas. Os ex-integrantes da Banda 69 estão considerando a hipótese de um CDROM com músicas e faixas para computador.

O que vem impedindo os planos é a falta de tempo que todos enfrentam. Trabalhando em outras áreas e dedicando boa parte da rotina diária à família, quem sabe um dia esse material venha parar nas mão do público.

É só aguardar.

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