Metallica: A passagem bíblica que inspirou "Creeping Death"
Por Paulo Severo da Costa
Postado em 09 de setembro de 2016
"E aconteceu que à meia-noite o Senhor feriu todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito do Faraó, que se assentava em seu trono, até o primogênito do cativo que estava no cárcere, e todos os primogênitos dos animais. E o Faraó levantou-se de noite, ele e todos os seus servos, e todos os egípcios; e fez-se grande clamor no Egito, porque não havia casa em que não houvesse um morto". (Livro do Exodo 12:29-30)
Recheada de sangue, guerra, traição, genocídio, pragas, a Bíblia Sagrada é, controvérsias ideológicas a parte, um retrato de um mundo que insiste em reciclar a história. Sobretudo nas passagens do chamado Velho Testamento, a ideia de uma entidade que tem o castigo e o exílio banhado em fogo eterno como contra resposta aos atos mundanos, forneceu ao rock n´roll um formato, uma insígnia que começa em ARTHUR BROWN e em "Sympathy for The Devil" e desembocou, com maior ou menor grau, em todas as variantes do gênero. Contrariamente à contestação sócio política das ruas do punk, o metal, sobretudo o thrash, converteu os noticiários da CNN em metáforas matadoras quando alinhadas à literatura sagrada.
Nascida como "Dying By his hand" nos tempos do EXODUS, a base de "Creeping Death" foi trazida ao METALLICA pelas mãos de KIRK HAMMET. Segundo MICK WALL, GARY HOLT ficou possesso quando ouviu a gravação pela primeira vez: "Não apenas o riff de uma das primeiras músicas do EXODUS, (Impaler) se tornara um dos melhores riffs de Ride The Lightining (...) como também o famoso verso que começa com 'Die By My hand' fora tirado de 'Dying by his hand'. Lembro de ter ligado para o KIRK e reclamado muito e ele respondeu 'Ah, pensei que tinha pedido sua permissão' (...) Muita gente me falou: 'Cara, você devia ter aberto um processo'". A exemplo de milhões de composições ao longo da história da música, a discussão pairou no ar e acabou não atingindo maiores consequências. Entretanto, o que se sabe é que o fio condutor do registro veio de um modo mais indireto - e prosaico - do que a passagem bíblica ou riffs surrupiados.
A inspiração para esta canção foi o filme "Os Dez Mandamentos" de CECIL B. DE MILLE, de 1956 - estrelado por CHARLTON HESTON como Moisés. A pretexto de sinopse, a película trata das dez pragas lançadas por Deus segundo o sobrecitado livro. De acordo com o Texto Sagrado, as dez pragas do Egito, foram motes de vingança divina infligidas ao Egito para convencer o Faraó a libertar os escravos hebreus. Conforme o historiador bíblico PIERRE BORDREUIL, a síntese dos fatos pode assim ser descrita:
"As dez pragas do Egito, também conhecido como as Dez Pragas, são descritas em Êxodo 7-12. As pragas foram dez desastres enviados sobre o Egito por Deus para convencer o Faraó a libertar os escravos israelitas da escravidão e opressão que tinha sofrido no Egito por 400 anos. Quando Deus enviou Moisés para libertar os filhos de Israel da escravidão no Egito, Ele prometeu mostrar suas maravilhas como a confirmação da autoridade de Moisés (Êxodo 3:20). Esta confirmação foi para servir pelo menos duas finalidades: para mostrar aos israelitas que o Deus de seus pais estava vivo e merecedor de sua adoração e para mostrar os egípcios que seus deuses não eram nada.
Os israelitas foram escravizados no Egito por cerca de 400 anos e nesse tempo tinha perdido a fé no Deus de seus pais. Eles acreditavam que Ele existiu e adorou, mas duvidou que ele pudesse ou devesse, quebrar o jugo da escravidão. Os egípcios, como muitas culturas pagãs, adoravam uma grande variedade de natureza- deuses e atribuídas aos seus poderes os fenômenos naturais que viam no mundo em torno deles. Houve um Deus do sol, do rio, do parto, de culturas, etc. Eventos como a inundação anual do Nilo, que fertilizado suas terras agrícolas, eram evidências de poderes de seus deuses e sua boa vontade. Quando Moisés aproximou-se Faraó, exigindo que ele libertasse o povo, o Faraó respondeu dizendo: "Quem é o Senhor, para que eu ouça a sua voz para deixar ir Israel? Eu não conhecia o Senhor, nem tampouco deixarei ir Israel " (Êxodo 5: 2). Assim começou o desafio de mostrar qual Deus era mais poderoso."
No filme, o Anjo da Morte (bíblico - não há aqui nenhuma relação com "Angel of Death" do SLAYER , que trata do médico nazista JOSEF MENGELE) é representada por uma nuvem verde. Ainda segundo MICK WALL, CLIFF BURTON, "numa nuvem de maconha, exclamou: 'Uau, que morte arrepiante' (creeping death). Os outros riram tanto que decidiram compor a música com esse título". Na letra, HETFIELD demonstrava que havia vida pós- MUSTAINE: versos como "Escravos/Hebreus nascidos para servir ao Faraó/Cuidado com cada palavra sua, viver com medo/Fé/No Desconhecido, o Libertador/Esperar/Algo deve ser feito, quatrocentos anos/Então assim deve ser escrito/Então assim deve ser feito/Eu fui enviado aqui pelo escolhido/Então que isso seja escrito/Então que isso seja feito/Matar o primeiro filho do faraó/Eu sou a morte arrepiante" denotavam uma maturação forçosa- mas rápida, de um compositor que contava com apenas 21 anos de idade. Após 32 anos, "Creeping" continua sendo uma narrativa atual- dessa vez atada a atos mais calamitosos e lesivos ao mundo: nossas próprias nuvens de gafanhotos, piolhos e moscas.
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