Sepultura: a história por trás do álbum "Beneath The Remains"

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Por Marcelo Araújo, Fonte: Ogro do Metal
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"Beneath The Remains" é o terceiro álbum de estúdio da banda Sepultura, lançado em 1989 via Roadrunner Records, com um orçamento final de 14 mil dólares. Após o lançamento, o disco acabou sendo comparado com "Reign in Blood" do Slayer, e "Kill´Em All" do Metallica, fazendo com que a banda saísse pela primeira vez em uma turnê internacional, tocando junto dos alemães do Sodom.

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No livro "My Bloody Roots: Toda a Verdade Sobre a Maior Lenda do Heavy Metal Brasileiro", Max Cavalera fala sobre o álbum e a referida turnê. Confira.

"Gravamos as demos de "Beneath The Remains" e "Inner Self" em fita cassete: a gravação foi feita ao vivo com um só microfone, então o som ficou uma merda. A Roadrunner estava assumindo um grande risco com a gente sem ter ouvido nem mesmo uma nota além do LP Schizophrenia. Simplesmente torciam para que pudéssemos fazer um bom álbum."

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"Só podíamos gravar durante a noite: o estúdio estava disponível de meia-noite às sete da manhã. O álbum inteiro foi gravado à noite, o que era uma maneira estranha de se trabalhar: dormíamos durante o dia e nos levantávamos e nos preparávamos às onze, prontos para uma madrugada inteira de metal. Adoramos a experiência. Scott (Scott Burns – técnico de estúdio) estava se divertindo pra valer. Mas uma coisa o fez enlouquecer: na parede havia uma fotografia de dois astros pop brasileiros, Gilberto Gil e Caetano Veloso, se beijando nos lábios. Scott disse: "Não posso trabalhar com isso aqui. Mandem tirar!" Respondemos: "Relaxa, cara. É só uma foto!", mas ele mandou o engenheiro de som tirá-la. O engenheiro ficou puto da vida, dizendo: "Esses artistas são celebridades aqui no Brasil. Quem esse cara pensa que é?" Argumentamos: "Sentimos muito, mas não dá pra você tirar a porra do quadro pra gente poder gravar o álbum?"

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"Nesse meio-tempo, eu vinha lendo alguns livros e descobri Michael Whelan, um artista que fazia capas. Tinha visto um desenho dele (Bloodcurdling Tales of Horror and the Macabre) que adorei. Acabou virando a capa de Cause of Death, do Obituary, mas originalmente deveria ter sido usada para Beneath The Remains. O que aconteceu foi que a Roadrunner entrou em contato com Whelan e ele lhes enviou dez pinturas diferentes, entre elas uma com a caveira preta e vermelha (Nightmare in Red) que acabou sendo utilizada no nosso álbum. Monte (Monte Conner – produtor executivo) preferia a pintura da caveira à que foi usada em Cause of Death e a sugeriu pra mim. Era fantástica e eu achava mesmo que tinha um design melhor. A imagem era bastante poderosa, exótica e maneira. O animal dentro da caveira é um morcego, um lobo ou algo assim. Michael sempre acrescenta esses detalhes, é um gênio. Conheci Michael muito tempo depois, quando fiz o álbum Dark Ages, do Soulfly, e ele é um cara legal de verdade."

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"A primeira coisa que fizemos depois do lançamento de Beneath The Remains foi uma turnê europeia, abrindo para o Sodom. Para nós, foi ótimo: tocamos no Marquee, em Londres, e em muitos outros lugares fantásticos. O primeiro show internacional que fizemos foi em Viena, na Áustria, e foi espetacular. Não sabíamos o que esperar. O Sodom era uma banda muito popular e os ingressos para a maioria dos shows estavam esgotados. Fiquei surpreso ao ver a quantidade de fãs do Sepultura. Não sabíamos que havia tantos até chegarmos à Europa e vermos centenas de pessoas vestindo camisas da banda. Pensávamos: "Meu Deus, está acontecendo de verdade." Foi uma turnê perfeita."

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"Conheci Lemmy quando estivemos em Londres. Fui a um bar e ele estava lá, jogando fliperama sozinho. Eu disse ao Iggor: "Olha ali, cara, é o Lemmy! Vou lá falar com ele!" E Iggor respondeu: "Não pode!" E eu disse: "Foda-se, cara, preciso cumprimentá-lo, é o Lemmy!" Assim, fui até ele e comecei: "Como vai, Lemmy?" E ele respondeu: "Numa boa!", e continuou jogando. Eu estava meio bêbado, então continuei falando: "O meu nome é Max, sou do Brasil e tenho uma banda chamada Sepultura. Somos grandes fãs de vocês, cara! Adoramos Motörhead. Do nada, Lemmy pegou o seu copo e derramou uísque na minha cabeça. Não sei se ele queria que eu fosse embora, tipo "Dê o fora daqui", mas ainda assim foi demais. Voltei pra mesa e disse a todo mundo que tinha acabado de ser batizado por Lemmy! Era um batismo heavy metal, e eu estava nas alturas. Não tomei banho nem lavei o cabelo por alguns dias depois desse episódio. Nunca contei isso a Lemmy quando o encontrei mais tarde."

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"O único problema naquela turnê foi o empresário do Sodom, que não foi com a nossa cara desde o início. Na minha opinião, ele pensava que éramos muito bons e que o Sodom encontraria dificuldades para nos superar. Eles tinham dificuldade para despertar na plateia a mesma reação que nós e acho que aquilo o irritava. Ele cortava a nossa luz pela metade e diminuía o volume do nosso som. Chegava até mesmo a ficar parado diante de nós quando tocávamos, o que era bem estranho. Certa vez, nos disse: "Se continuarem a tocar bem, vou tirar as luzes de vocês até ficarem no escuro." Pensamos: "Que babaca." Percebi que esse cara era super limpo: era o sr. Limpeza, tomava três banhos por dia e vestia sempre camisas impecavelmente brancas. Estávamos todos no mesmo ônibus, então pensei em sacaneá-lo e não tomar banho por toda a turnê. Falei pros caras da banda aguentarem as pontas, porque queria perturbar o sr. Limpeza o máximo que pudesse. Depois da primeira semana, eu estava fedendo. Quando eu passava, o meu fedor era perceptível e o ar ficava impregnado. Aquilo deixou o cara puto da vida, até que um dia ele estourou: "É melhor vocês fazerem ele tomar banho ou não vai mais viajar no mesmo ônibus que a gente! Tá fedendo que nem a porra de um macaco!" Eu estava adorando. Pensava: "Vai se foder! Mexeu com a gente, aqui está o troco." Mantive a promessa: não tomei banho até o fim da turnê. Saía do palco com as roupas suadas, ia dormir sem me trocar e as vestia de novo no dia seguinte — todo dia. Era um inferno para mim: o meu cabelo estava uma bagunça, imundo de suor, mas queria encher o saco daquele cara, então aguentei firme."

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Monte Conner: "Pouco depois de partir do Rio e retornar ao Morrisound, em Tampa, Scott Burns me enviou a mixagem bruta de Beneath The Remains em fita cassete. Quem conhece o funcionamento dos cassetes sabe que eles não reproduzem os agudos com precisão se o alinhamento do cabeçote de gravação estiver incorreto ou se o cabeçote da mesa de reprodução estiver alinhado diferentemente. Não sabia daquilo na época, devido à minha falta de experiência no que dizia respeito aos processos de gravação e mixagem. Assim, quando recebi a fita e não consegui ouvir os pratos da bateria, disse a Scott que queria que ele colocasse muito mais pratos nas canções. Não me dei conta que não podia ter confiado na precisão de uma fita cassete. Scott — ainda novo naquela função e disposto a agradar — voltou com uma mixagem em que os pratos estão extremamente altos. Por isso, se você escutar Beneath The Remains, vai perceber um chiado constante de pratos. É um álbum bastante barulhento. Tentei diminuí-los um pouco quando o remasterizamos em 1997, mas era algo difícil de ser corrigido, já que, uma vez incluídas frequências altas na masterização, os outros instrumentos também são afetados. É desnecessário dizer que ninguém se importou ou reclamou, embora eu tenha recebido uma carta de um fã certa vez."




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Sobre Marcelo Araújo

Carioca da gema e fanático por música de qualidade, aprendeu a gostar de Rock aos 10 anos de idade por causa de bandas como Scorpions, Led Zeppelin e Guns N' Roses. A maior decepção foi ver uma de suas bandas preferidas, o Bon Jovi, mudar completamente de estilo e se tornar uma coisa bem chatinha de uns tempos pra cá, algo classificado como uma mistura de Sertanejo Universitário com Pop. Das bandas mais recentes, curte bastante Alter Bridge e Unisonic. Adora tudo relacionado com as curiosidades por trás das canções, álbuns e bandas, sempre escrevendo matérias a respeito desses fatos no blog Ogro do Metal.

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