George Harrison: Ouvir sua obra nos leva a pensar na paz
Resenha - All Things Must Pass - George Harrison
Por José Luis Moreira
Postado em 10 de agosto de 2020
Após Paul McCartney ter anunciado o fim dos Beatles em abril de 1970, apenas uma semana depois lançou seu álbum de estreia, McCartney. Ringo Já havia lançado no mês de março seu primeiro álbum solo, Sentimental Journey, trabalho nostálgico repleto de standards americanos. Já Lennon lançaria em dezembro o seu primeiro álbum de estúdio, John Lennon/Plastic Ono Band.
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Passados sete meses do fim dos Beatles, George Harrison, considerado um grande guitarrista – 11º no ranking da revista Rolling Stone – e autor dos clássicos "Here Comes The Sun" e "Something" – segunda música mais regravada dos Beatles, atrás apenas de "Yesterday – lança All Things Must Pass, originalmente editado como álbum triplo no formato LP. Com arranjos grandiosos, impecáveis e produzido a quatro mãos pelo próprio Harrison e Phil Spector, que contribui com a exuberante produção orquestral, este álbum reúne algumas de suas mais belas canções, que, por mais incrível que possa parecer, não foram aproveitadas nos álbuns dos Beatles, diante da disputa acirrada existente entre Lennon e McCartney. O próprio produtor George Martin, conhecido também como "o quinto beatle", chegou a pedir desculpas por ter subestimado suas canções após ouvir "Something".
Neste magnífico trabalho, Harrison abre mão de seus experimentos místicos de influência indiana, observados nos álbuns dos Beatles no período de 1965 a 1967, e reúne seus amigos e colaboradores estelares como Eric Clapton e Dave Mason nas guitarras, Carl Radle e Klaus Voorman, baixista alemão e criador da capa de Revolver (1966), Gary Wright, Bobby Whitlock, Billy Preston e Gary Brooker (do Procol Harum), nos teclados. Ringo Starr, Jim Gordon e Alan White (do Yes) na bateria, Bobby Keys (saxofonista dos Rolling Stones) e o grupo "Badfinger" nas guitarras rítmicas e percussão também fizeram parte do projeto.
"I’d Have You Anytime", que abre o álbum, "Isn’t it a Pity" (em suas duas versões), "Behind That Locked Door, "Beware of Darkness", "Run of The Mill", mais a belíssima versão de "If Not For You", de seu fiel amigo e colaborador Bob Dylan, além da faixa-título, são, indiscutivelmente, as canções em que Harrison se entrega de corpo e alma, com interpretações repletas de emoção, espiritualidade e sentimentos.
"My Sweet Lord" foi o carro-chefe do álbum e esteve, por várias semanas consecutivas, nas principais paradas em todos os continentes, seguidas de "What Is Life" e "Wah-Wah", canções que também fizeram muito sucesso nas rádios de todo o mundo.
No disco 3, os lados A e B são dominados pelas jam sessions, que ocorreram durante os intervalos das gravações dos dois primeiros discos.
Em 2001, o álbum foi lançado no formato CD pela segunda vez, totalmente remasterizado e com uma versão inédita de "My Sweet Lord".
George nos deixou precocemente em novembro de 2001 aos 58 anos vítima de câncer. Sua morte, serena, tranquila, cercada da amada família em sua casa, nos diz muito sobre o que ele foi em vida. George foi o beatle mais sensível e tímido de todos. Ao contrário de Lennon, seu explosivo e inquieto amigo que tinha um inconformismo evidente em relação ao mundo, a busca de George era pela paz, fosse ela interior, fosse mundial. Ouvir sua obra nos leva a pensar nessa paz.
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