George Harrison: em 1970, o maior sucesso da carreira solo

Resenha - All Things Must Pass - George Harrison

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Por Maurício Rigotto
Enviar correções  |  Comentários  | 

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Em 1981 eu tinha 10 anos. De uma hora para outra, as coisas que eu mais gostava, que era puxar um caminhãozinho de plástico amarrado em um barbante, ou brincar com playmobil, perderam a graça, e novas descobertas surgiram deslumbrantes em minha vida. Ainda segui jogando bola por um tempo, andando de bicicleta e comprando gibis, mas repentinamente comecei a prestar atenção em música e adquiri uma paixão fulminante e eterna pelo Rock. Ao invés de novos carrinhos e brinquedos, passei a pedir discos de presente aos meus pais. Aos poucos, ganhei LPs do Led Zeppelin, Pink Floyd, Clash, Santana, Queen, Simon & Garfunkel e Bob Dylan. No recreio do colégio, ficava sem comer e guardava o dinheiro do lanche para comprar compactos em uma lojinha de discos que havia perto dos correios.
2382 acessosVinil: os dez discos mais vendidos nos EUA em 20175000 acessosCorey Taylor: Verdades sobre Joey Jordison e Jim Root

Nesta mesma época, o recente assassinato de John Lennon chocou e comoveu o mundo de tal forma que acredito que nenhum assassinato ocorrido nos trinta anos que se sucederam tenha desencadeado uma comoção mundial na mesma proporção. Consequentemente, as músicas dos Beatles e da carreira solo de Lennon passaram a tocar dia e noite em rádios e televisões, e acho que nunca se vendeu tanto disco dos Fab Four desde a explosão da beatlemania.

Lembro perfeitamente qual foi a primeira música dos Beatles que ouvi. Entrei na loja de discos e ouvi um compacto com a canção She’s a Woman. Sai de lá com uma coletânea do quarteto, meu primeiro álbum dos Beatles. Comprei (ou melhor, ganhei de minha mãe) também a coletânea Shaved Fish de John Lennon e o seu novo disco, Double Fantasy. As faixas Imagine e Woman tocavam exaustivamente nas rádios, quando numa tarde ouvi outra música que eu até então não conhecia e que me chamou a atenção por parecer muito com Beatles. Esperei o locutor anunciar o nome da canção. Tratava-se de My Sweet Lord de George Harrison.


Reuni alguns trocados que eu tinha e corri para a loja de discos. Pedi pelo disco de George Harrison que contivesse My Sweet Lord, e o vendedor me mostrou um belo disco triplo que vinha embalado em uma caixa. Era o álbum All Things Must Pass, mas para minha decepção, custava uma fortuna, o equivalente a três LPs, e eu mal tinha grana para um disco simples. Vendo que o garoto não iria ter dinheiro para levar o disco, o balconista me mostrou dois compactos que reuniam quatro faixas do álbum. Em um compacto tinha justamente My Sweet Lord e Isn’t It a Pity no outro lado. O outro disquinho trazia What Is Life no lado A e Apple Scruffs no lado B. Comprei os dois. Ouvi a exaustão e passei a ir à loja para ouvir o álbum nos headphones, enquanto guardava cada centavo, cada troco da padaria, para comprar o tão sonhado disco. Após muitos dias de economia, arrecadei o dinheiro necessário e o comprei. Eu tinha agora o meu próprio All Things Must Pass, o disco mais caro da minha coleção de pouco mais de uma dúzia de vinis.

Fui incumbido de escrever um texto sobre esse disco de George Harrison para um grande especial sobre o fim dos Beatles e o primeiro disco solo de cada um dos integrantes após a separação, para o site Os Armênios. Cada colunista recebeu a tarefa de esmiuçar um álbum. Por razões sentimentais, eu escolhi escrever sobre o All Things Must Pass. Peço desculpas ao leitor por ficar divagando sobre o final da minha infância e meus primeiros discos, ao invés de já iniciar dissecando o álbum, mas é impossível para mim escrever sobre esse álbum sem despertar reminiscências emotivas. Obrigado pela sua paciência. Agora vamos ao disco.

George abriu o All Things Must Pass com I’d Have You Anytime, uma faixa que compôs em parceria com Bob Dylan. Entre os integrantes dos Beatles, George sempre foi o maior fã de Bob Dylan, tanto que, quando Dylan lançava um novo trabalho, era George quem o mostrava aos companheiros de banda. Enquanto Dylan se recuperava de um acidente de motocicleta, gravando com o The Band em uma fazenda em Woodstock, George apareceu para visitá-lo, e desde então se tornaram amigos muito próximos. Chegaram a passar um final de semana gravando músicas juntos em 1969, e desse encontro surgiu I’d Have You Anytime.

A faixa 2 é My Sweet Lord, o maior sucesso do disco e de toda a carreira solo de George Harrison. Um ode a Hindu God Krishna, um mantra em louvor a Deus, My Sweet Lord estourou nas paradas do mundo todo. Pouco tempo depois, George foi acionado pela justiça como réu em uma acusação de plágio, pois My Sweet Lord era incrivelmente semelhantes a He’s So Fine, sucesso do The Chiffons em 1963. Harrison argumentou no tribunal que teve a centelha para My Sweet Lord após ouvir a famosa canção Oh Happy Day nas vozes do The Edwin Hawkins Singers, mas foi condenado pelo plágio a ceder parte dos royalties das vendas de All Things Must Pass aos Chiffons. Alguns anos mais tarde, George compôs This Song, uma música que debochava do julgamento, com um videoclipe que simulava um tribunal. Vale lembrar que, aproveitando a publicidade do caso, os Chiffons também gravaram My Sweet Lord.


Na seqüência tem Wah Wah, outra grande faixa do disco, e Isn’t It a Pity, composta por George em 1968 durantes as sessões de gravação do White Album dos Beatles. Rejeitada por John e Paul, acabou sendo o lado B do compacto My Sweet Lord.

O lado 2 inicia com What is Life, outro clássico que se tornou o segundo single do álbum. Na faixa, George é acompanhado por Eric Clapton e seu grupo na época, o Derek and The Dominos, além de Peter Ham e Tom Evans, da banda Badfinger. A próxima canção é If Not For You, de Bob Dylan. Dylan acabara de lançar a música no álbum New Morning e, ao mostra-la a George, este também quis grava-la. A faixa acabou fazendo sucesso em 1970 tanto com Dylan como com Harrison, e no ano seguinte voltou as paradas na voz de Olívia Newton John. Nos créditos do disco não consta quem gravou a harmônica na música, mas o baterista Alan White declarou em entrevistas que quem tocou foi John Lennon, que estava no estúdio ao lado gravando o disco Plastic Ono Band. O segundo lado tem prosseguimento com Behind That Locked Door, composta em homenagem ao amigo Bob Dylan, Let It Down, outra faixa rejeitada pelos Beatles, e Run of the Mill.

O lado 3 trás mais cinco faixas, começando pela linda Beware of Darkness, seguida de Apple Scruffs, nome que os Beatles davam aos seus admiradores mais fanáticos e groupies que faziam vigília em frente a Apple Records e Abbey Road Studios, Ballad of Sir Frankie Crisp (Let It Roll), inspirada no proprietário original da mansão de George, Awaiting on You All e a faixa título. All Things Must Pass chegou a ser gravada pelos Beatles durante as Get Back Sessions, mas acabou preterida, somente vindo a tona no álbum Anthology vol. 3.

O quarto lado do disco trás as faixas I Dig Love, Art of Dying, recusada por John e Paul em 1966, Isn’t It a Pity (Version 2) e Hear Me Lord, que encerraria oficialmente o disco, se for levar em conta que os lados 5 e 6 são compostos por jam sessions instrumentais gravadas durante as sessões do álbum em si.

O terceiro vinil, chamado de Apple Jam, abre com Out of The Blue, com os Derek and The Dominos, George, Jim Price, Bobby Keys, Gary Wright e Al Aronowitz fazendo uma jam com mais de onze minutos de duração. Segue It’s Johnny Birthday, com menos de um minuto de duração, feita por George, Ringo e Mal Evans para presentear John Lennon em seu aniversário. O lado 5 encerra com Plug Me In, com George, Clapton, Derek and The Dominos e Dave Mason (guitarrista do Traffic).

O sexto e último lado do disco traz I Remember Jeep, com George, Clapton, Ginger Baker (Cream) e Klaus Voorman, e Thanks for The Pepperoni, interpretada pela mesma formação de Plug Me In.


O disco contou com George, Clapton e Dave Mason nas guitarras (Peter Frampton também, embora não creditado); Ringo Starr, Jim Gordon (Derek and The Dominos) e Alan White nas baterias; Klaus Voorman e Carl Radle (Derek and The Dominos) nos baixos; Gary Wright, Bobby Whitlock (Derek and The Dominos), Billy Preston e Gary Brooker (Procol Harum) nos teclados; Pete Drake no pedal steel guitar, Jim Price no trompete e Bobby Keys no saxofone, além do grupo Badfinger e do jovem percussionista Phil Collins, que tocou na faixa Art of Dying.

Klaus Voorman, Ringo Starr e Alan White (futuro baterista do Yes) se revezavam gravando o disco de George e o disco de John Lennon no estúdio ao lado. White afirma que é John Lennon quem toca gaita de boca em If Not For You e Apple Scruffs.


Em 2001 foi lançada uma nova edição em CD duplo, com cinco faixas bônus. São elas: I Live For You, uma faixa que sobrou das sessões e que foi regravada em 2000; Beware of Darkness em versão acústica; Let It Down em versão acústica e com acréscimos de efeitos de teclados feitos em 2000; What Is Life, com a primeira mixagem e acréscimos de trompete e oboé; e My Sweet Lord em uma regravação feita em 2000.

All Things Must Pass continua sendo um dos meus discos preferidos de toda a história da fonografia.

Data de Lançamento:
27 de novembro de 1970

Lado A
1 – I’d Have You Anytime (2:56)
2 – My Sweet Lord (4:38)
3 – Wah-Wah (5:35)
4 – Isn’t It a Pity [versão 1] (7:08)

Lado B
5 – What Is Life (4:22)
6 – If Not for You (3:29)
7 – Behind That Locked Door (3:05)
8 – Let It Down (4:57)
9 – Run of the Mill (2:49)

Lado C
10 – Beware of Darkness (3:48)
11 – Apple Scruffs (3:04)
12 – Ballad of Sir Frankie Crisp (Let It Roll) (3:46)
13 – Awaiting on You All (2:45)
14 – All Things Must Pass (3:44)

Lado D
15 – I Dig Love (4:55)
16 – Art of Dying (3:37)
17 – Isn’t It a Pity [versão 2] (4:45)
18 – Hear Me Lord (5:46)

Lado E
19 – Out of the Blue (11:14)
20 – It’s Johnny’s Birthday (0:49)
21 – Plug Me In (3:18)

Lado F
22 – I Remember Jeep (8:07)
23 – Thanks for the Pepperoni (5:31)

Créditos
George Harrison: vocais, guitarra, harmonica, produção
Baixo: Carl Radle, Klaus Voormann
Guitarra: Dave Mason, Eric Clapton, John Lennon, Peter Frampton
Bateria e percussão: Alan White, Ginger Baker Jim Gordon, Phil Collins e Ringo Starr
Teclados: Billy Preston, Bobby Whitlock, Gary Wright, Gary Brooker
Pedal Steel Guitar: Pete Drake
Saxofone: Bobby Keys
Trompete: Jim Price
Harmonica: John Lennon
Arranjos orquestrais: John Barham
Engenheiro: Ken Scott e Phil McDonald
Produção: Phil Spector

Faixas 1 e 6 compostas com Bob Dylan

Posição nas paradas
EUA: 1º lugar (Billboard), tendo permanecido por 38 semanas no Top 200.
RU: 1º lugar (UK Albums Chart), tendo permanecido 24 semanas do Top 200.

Texto publicado originalmente no site de (anti)jornalismo (contra)cultural Os Armênios.

http://www.osarmenios.com.br

GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato.

Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Trolls e chatos que quebram estas regras podem ser banidos. Denuncie e ajude a manter este espaço limpo.

VinilVinil
Os dez discos mais vendidos nos EUA em 2017

379 acessosRingo Starr: novo álbum sai em setembro, e traz Paul McCartney1323 acessosBeatles: Paul McCartney fecha acordo sobre direitos autorais303 acessosSgt. Pepper's: entrevista exclusiva com o Sargento Pimenta159 acessosAlta Fidelidade: "Flowers in the dirt", um clássico do McCartney0 acessosTodas as matérias e notícias sobre "Beatles"

Mais capasMais capas
A história do rock no Google Street View

Metal HammerMetal Hammer
Os maiores hits do rock eleitos em votação

Por um trizPor um triz
Quando por pouco a história do Rock não foi a mesma

0 acessosTodas as matérias da seção Resenhas de CDs e DVDs0 acessosTodas as matérias sobre "George Harrison"0 acessosTodas as matérias sobre "Beatles"

Corey TaylorCorey Taylor
Verdades sobre Joey Jordison e Jim Root

CoversCovers
Quando bandas de Heavy e Power Metal prestam tributo

VocalistasVocalistas
As vozes mais agudas do Metal segundo o Noisecreep

5000 acessosRacismo: Metalheads saem na porrada contra white-powers na Califórnia5000 acessosHeavy Metal: os dez melhores álbuns lançados em 19865000 acessosRockstars: Os 50 mais ricos do planeta4745 acessosRonnie James Dio: "não sou satanista", disse em entrevista a Sam Dunn5000 acessosGuns N' Roses: o sucesso que a mídia forjou e destruiu - Parte 15000 acessosZombie: "gravadoras, dinossauros aguardando a morte"

Sobre Maurício Rigotto

Autor sem foto e/ou descrição cadastrados. Caso seja o autor e tenha dez ou mais matérias publicadas no Whiplash.Net, entre em contato enviando sua descrição e link de uma foto.

Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria, e não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será removido. Conheça a nossa Política de Privacidade.

Em fevereiro: 1.218.643 visitantes, 2.740.135 visitas, 6.216.850 pageviews.

Usuários online