Kiss: Carnival Of Souls The Final Sessions é um filho bastardo
Resenha - Carnival Of Souls; The Final Sessions - Kiss
Por Marcio Machado
Postado em 11 de setembro de 2018
Nota: 8 ![]()
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Que os anos 90 tiveram uma aura um tanto tenebrosa ninguém nega, isso fica em clara evidência na música, principalmente dentro do rock, com bandas de sonoridade mais densa e letras abordando a melancolia, raiva e solidão. Confesso que não sou o ouvinte mais ardoroso do Kiss, mas numa noite de conversa com o um amigo fã da banda, surge uma faixa que soou um tanto diferente vindo desses mesmos caras que outrora criaram "Lick It Up" ou a festiva "Rock N' Roll All Night". Uma sonoridade mais crua, pesada e direta. Foi a porta de entrada para "Carnival of Souls: The Final Sessions", o filho bastardo do Kiss. Num resumo rápido, esse disco acabou renegado pela banda quando o que importava naquela época era a volta de Ace Frehley e Peter Criss, o retorno com as maquiagens e o vindouro lançamento de "Psycho Circus".
Porém, mesmo renegado temos um belo trabalho aqui, diferente pra quem segue a discografia longa da banda, mas ainda assim, um disco muito bom que explora outro lado do Kiss e causa impacto na audição.
A cargo do produtor Toby Wright, responsável pelo "Follow the Leader" do Korn, e por "Alice in Chains" (homônimo da banda de 95) e o "Unplugged", além do primeiro disco solo de Jerry Cantrell, a sonoridade e temática dessas bandas aparecem por aqui e transformam o Kiss numa enxurrada de riffs pesados e arrastados, dobras de vocais e cadências.
Os primeiros acordes de "Hate" já mostram que as coisas serão um pouco diferentes por aqui. Gene Simmons chega fazendo jus ao nome da faixa, cantando de forma agressiva e gritada. Eric Singer desce a mão na bateria, e como Kulick sabe soa pesado e melódico ao mesmo tempo. O solo é bastante sujo, acompanhado de uma base nos mesmos padrões. Bela introdução.
A bateria chama a introdução novamente bastante pesada de "Rain", faixa que segue cadenciada e dessa vez com a voz de Paul Stanley a frente. O Starman solta o gogó e casa perfeitamente com o tom denso da canção. A ponte pro refrão é um tanto alta e o rapaz o faz com maestria, e que refrão temos aqui, um tanto grudento e melódico. Temos outro solo bastante sujo, porém, mais sucinto que o anterior. É uma das melhores faixas do disco todo, uma delícia só de se ouvir. Há um belo trampo de Singer aqui, pesado e preciso, a marcação na condução entre os refrões é certeira.
Vindo mais rápida em sua introdução, "Master & Slave" segue levada por um baixo metálico de novo pela voz de Paul, que nas pontes e refrão é acompanhado pela banda toda. A mudança para um tom mais arrastado na segunda metade é característica do grunge e deixa a canção ainda mais pesada, que logo dá espaço à um solo muito bem executado. Oi Paul Stanley, tu sabe gritar hein moço?! Também ocupa lugar de melhores por aqui.
"Childhood's End" é mais lenta, cantada por Gene e que bela canção temos aqui. Composta em conjunto com Tommy Thayer, que na época era ligado ao Black N'Blue, e que viria em breve ser o substituto de Ace na pós reunião, mais uma vez temos um refrão que gruda fácil, entoado em crescendo cada vez que se repete, acompanhado por um coro de crianças. Dosa peso e melodia na medida certa e tem um solo muito bonito, mesmo que um tanto curto, mas direto. Dá pra se prender na audição desta por umas boas vezes antes de se seguir a diante.
Como não poderia deixar de ser, temos agora uma balada. Lógico que em outros momentos o Kiss já criou coisas do estilo mais fortes (Forever), mas isso não diminui a beleza de "I Will Be There", colocando Paul no que ele faz de melhor, cantando com seus mais sinceros sentimentos. Muito me agrada a levada na segunda metade e o solo de violão. O que o vocalista faz aqui no encerramento é divino.
Com levada de baixo e bateria, "Jungle" da as caras sendo o único single do disco, e mesmo não ganhando um vídeo, conseguiu ficar no Top 10 da Billboard por quatro semanas. E realmente é uma ótima faixa, o ritmo com uma pegada suja, porém mais cadenciada e o refrão pegajoso, lembra algo de longe do Soundgarden. A faixa acaba se estendendo além do que devia, mas nada muito grave que torne a audição chata.
"In My Head" é a faixa mais direta do disco todo. É pesada, arrastada, tem um baixo que soa como um coice e a divisão das duas guitarras é precisa e serve pra dar mais peso em tudo. Gene quem é a voz principal da vez e faz par ao instrumental pesado, hora ajudado pelo demais companheiros. Ótima.
Aqui, parece termos uma faixa do Alice in Chains dada para Paul Stanley cantar. "It Never Goes Away" é cadenciada, densa e um tanto grunge, com um refrão cantado à plenos pulmões pelo frontman. A dobra dos vocais no final soa muito boa e faz desta canção uma das preferidas por aqui também.
"Seduction of the Innocent" é uma faixa que acaba por ficar no meio do caminho, hora tenta soar como as demais do disco, hora como o Kiss mais tradicional, apesar de boa, acaba meio morna e perdida por aqui, apesar de ter um ótimo solo que compensa os demais momentos.
"I Confess" apesar de um bom refrão, acaba seguindo um pouco da anterior e fica num chove não molha, provavelmente a mais fraca do álbum todo.
"In the Mirror" tenta melhorar um pouco as coisas, não indo muito longe, mas ainda tendo bons trabalhos de guitarra e voz, fora as belas notas que Singer desfila com suas baquetas durante o solo.
Fechando o disco, Paul e Gene dão vez a Bruce Kulick para este ser a voz de encerramento em "I Walk Alone", com clima de despedida, este o faz muito bem e segura as pontas. A voz do guitarrista pode não ter a mesma carisma dos dois vocalistas principais, mas quem se importa, ele deixa o registro numa faixa que soa entre uma mescla de prog e heavy metal e é um ótimo final para se encerrar essa fase do Kiss.
O filho bastardo do Kiss pode não listar entre os melhores trabalhos da banda para fãs mais ardorosos, mas trata-se sim de um disco muito bom e com vários momentos muito inspirados mesmo com uma banda nadando fora de sua praia, e parafraseando o menino Leonardo Klink, o amigo que me apresentou o disco, "é pesado, é dark, é foda!"
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