Mavis Staples: dama do R'n'B dueta com Jeff Tweedy, do Wilco
Resenha - If All I Was Was Black - Mavis Staples
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 15 de maio de 2018
Nascida em 1939, a vida e a carreira de Mavis Staples misturam-se com a ascensão do rhythm and blues e do gospel como influenciadores e geradores de música pop, bem como com o movimento pelos direitos civis, do qual a amiga pessoal de Martin Luther King foi trilha-sonora.
Staples jamais conheceu outra vida senão a de cantora, senão a da estrada. Já aos 11 anos, cantava com a família em igrejas da região de Chicago, onde também participavam dum programa semanal de rádio. The Staple Singers tiveram certo sucesso radiofônico e viraram superestrelas no circuito gospel, excursionando por toda parte durante anos. Quando o maridão lhe deu a escolha de seguir a carreira ou ficar em casa cuidando de família, em 1964, Mavis respondeu com bom pontapé na bunda e desde então não quis mais casamento. Nem com Bob Dylan, que lhe pediu a mão. Os dois permanecem amigos, inclusive, excursionado juntos ano passado.
Como artista-solo, seu primeiro trabalho saiu em 1969 e desde então tem colaborado com gente do calibre de Prince; cantado com roqueiros, tipo Arcade Fire e sido sampleada por meio mundo. Há alguns anos, iniciou parceria com o branquelo Jeff Tweedy, líder do Wilco.
Bem avançada na septuagenaridade, Mavis não dá sinais de querer parar e dia 17 de novembro saiu seu décimo-sexto álbum solo, If All I Was Was Black, produzido por Tweedy, que compôs quase todas as 10 canções e ainda dueta em Ain't No Doubt About It.
As raízes de Tweedy justificam o country/blues/folk rock da faixa-título e de números como Who Told You So, o dueto e Try Harder. Staples optou por produção onde menos é mais. Isso funciona em quase todo o álbum, exceto em No Time For Crying, que poderia ter mais peso funk pra combinar melhor com a mensagem ativista da letra. Do jeito que está, a canção fica parecendo mais longa do que realmente é, porque meio monótona.
Desencantada com a vitória do racista Trump, a profusão de fake news (não só na internet) e a escalada da violência contra afrodescendentes, não dá pra esquecer o conteúdo político das letras, ainda que bem genéricas. Sonicamente essa tensão relatada em palavras não encontra melhor transliteração do que na abertura, Little Bit, onde guitarras duelam em cada lado de seu ouvido. Mas, os instrumentos não estão em chave rock metal, mais pra blues.
Staples não vem irada; tá nervosa e desencantada, mas letras como as de We Go High (Michele Obama, hello!), Build a Bridge e da gospel Peaceful Dream, tem um quê super Kumbaya anos 60. Será mesmo que quem espalha notícias falsas não sabe o que faz, como afirma We Go High? Esperemos que tendo vivido e militado em dias bem piores pros afrodescendentes, Mavis saiba o que diz.
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