Sepultura se despede entre nuvens e ruínas
Por Michel Sales
Postado em 27 de abril de 2026
Formado em 1984, em Belo Horizonte, o Sepultura se despede deixando um legado incontornável na música extrema. Reconhecida como a maior banda de Heavy Metal do Brasil e uma das mais relevantes do mundo, a trajetória do grupo atravessa mais de quatro décadas de reinvenção, peso e impacto global.
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São cerca de 42 anos de história, marcados por diferentes fases - do death/thrash metal visceral dos anos 80 às experimentações mais modernas conduzidas por Derrick Green. Poucas bandas brasileiras alcançaram tamanha longevidade mantendo relevância artística e presença internacional.
Neste mês de abril, já em clima de despedida, o Sepultura lançou The Cloud of Unknowing, EP com quatro faixas inéditas que simboliza o último registro de estúdio da carreira. O trabalho surge durante a turnê final Celebrating Life Through Death, funcionando como um encerramento simbólico e artístico.
O EP reúne as faixas "All Souls Rising", "Beyond the Dream", "Sacred Books" e "The Place", combinando o peso característico da banda com atmosferas mais densas e melancólicas. Há também espaço para vocais limpos de Derrick Green - um elemento pouco explorado na discografia do grupo - que amplia ainda mais a paleta sonora deste capítulo final.
Segundo o guitarrista Andreas Kisser, o título The Cloud of Unknowing parte de um conceito espiritual antigo reinterpretado sob uma ótica contemporânea. A proposta aborda temas como alienação, tecnologia e distanciamento humano, questionando a chamada "realidade artificial" da vida moderna. O resultado é um trabalho mais introspectivo e reflexivo do que diretamente político, evidenciando a maturidade artística da banda.
O EP também marca a estreia - e despedida - do baterista Greyson Nekrutman em estúdio com o grupo. Gravado em Miami de forma rápida e orgânica, o material carrega uma sonoridade crua e espontânea. Mesmo com curta duração, o lançamento não soa como um apanhado de sobras, mas como um último e consistente statement criativo.
O LEGADO DE DERRICK GREEN
O fim do Sepultura também consolida o legado de Derrick Green, figura essencial na fase mais recente da banda. Sua entrada, em 1997, ocorreu em um momento delicado, logo após a saída de Max Cavalera, até então peça central do grupo. Em vez de tentar ocupar esse espaço de forma mimética, Derrick construiu uma identidade própria, tanto vocal quanto de presença de palco.
Álbuns como Roorback (2003), Kairos (2011), The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart (2013) e Quadra (2020), além do EP Revolusongs (2002), demonstram uma fase ousada, conceitual e aberta a novas influências. Elementos de hardcore, industrial, groove e até referências à música brasileira continuaram presentes, mas sob uma nova abordagem.
Mais do que manter a banda ativa no cenário global, Derrick Green ajudou a consolidar uma nova identidade para o Sepultura, sustentada por turnês constantes e uma base fiel de fãs ao redor do mundo. Sua parceria com Andreas Kisser foi fundamental para a estabilidade interna e para a continuidade criativa do grupo.
Assim, Derrick não substituiu Max Cavalera - ele foi peça-chave na transformação do Sepultura. Seu legado é o da evolução: garantir que a banda não se tornasse apenas uma lembrança dos anos 90, mas permanecesse viva, relevante e em constante movimento até seu último acorde.
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