A canção para a qual o Kiss torceu o nariz e que virou seu maior sucesso nos EUA
Por Bruce William
Postado em 23 de abril de 2026
O Kiss construiu sua imagem nos anos 70 em cima de maquiagem, personagens, guitarras altas, fogo, explosões e uma ideia quase circense de rock and roll. Depois do sucesso de "Alive!", lançado em 1975, a banda passou a representar um tipo de espetáculo que ia muito além das músicas. Por isso, a ideia de uma balada conduzida por piano e orquestra parecia quase uma heresia dentro daquele universo.
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"Beth", lançada em "Destroyer", de 1976, nasceu com Peter Criss, conta a Far Out. A música originalmente se chamava "Beck" e tinha uma pegada mais folk, com a história de um sujeito que precisa voltar para a estrada e deixar a mulher em casa. O problema é que uma canção desse tipo não parecia combinar com o Kiss que Paul Stanley e Gene Simmons queriam vender ao público.
Quando a banda começou a trabalhar com Bob Ezrin em "Destroyer", o produtor ouviu algo diferente naquela composição. Ezrin já tinha trabalhado com Alice Cooper e depois participaria de projetos como "The Wall", do Pink Floyd. Ao ouvir a música de Criss, ele percebeu que havia ali uma balada possível, mais lenta, mais dramática e bem distante do andamento original.
Peter Criss contou ao Metal Evolution que Ezrin teve essa percepção logo de cara. "Quando toquei para Bobby, ele disse: 'Ah, eu ouço isso muito mais lento'", lembrou o baterista. A partir dali, o produtor começou a imaginar "Beth" com piano, arranjo mais sofisticado e uma carga emocional que a deixaria bem diferente do resto do repertório do Kiss.
Ezrin sabia, porém, que convencer a banda não seria simples. "Eu ouvi uma balada exuberante. Agora eu tinha que vender ao Kiss, com toda aquela pose de machos e mestres do universo, a ideia de fazer uma música com piano e orquestra", disse o produtor. Sem contar que a gravação também não foi das mais tranquilas. Segundo Criss, Gene Simmons e Paul Stanley ficavam provocando o baterista enquanto ele tentava gravar o vocal, até que Ezrin acabou colocando os dois para fora do estúdio.
Mesmo depois do resultado pronto, o Kiss não parecia confiar muito na música. "Beth" foi parar como lado B de "Detroit Rock City", faixa que a banda via como a aposta principal. O público, porém, escolheu o outro lado do compacto. "Beth" começou a chamar atenção nas rádios e acabou se tornando um enorme sucesso, chegando ao 7º lugar da parada da Billboard. A música também rendeu ao Kiss um prêmio no People's Choice Awards e virou seu maior hit nas paradas americanas, justamente por mostrar uma face que muita gente não esperava encontrar na banda.
O sucesso da faixa mudou até parte do público nos shows, atraindo mais mulheres para uma plateia que até então era muito marcada por adolescentes fãs do lado barulhento e visual do Kiss. Também abriu um caminho que a banda tentaria revisitar depois, com outras baladas e músicas mais voltadas ao rádio. Peter Criss, por sua vez, acabou associado a esse lado mais sentimental, incluindo "Hard Luck Woman", lançada pouco depois.
"Beth" talvez tenha funcionado justamente porque não parecia fabricada para repetir uma fórmula. Era uma música deslocada, quase rejeitada, que entrou pela porta dos fundos do single e acabou superando a faixa escolhida para brilhar. Para uma banda que vivia de máscaras, personagens e exagero, o maior sucesso comercial veio quando Peter Criss sentou no meio da pirotecnia e cantou uma história simples de saudade.
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