Genesis: o mais "feinho" de seus discos pop

Resenha - Abacab - Genesis

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Por Ricardo Pagliaro Thomaz
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Eu sou um cara que nasceu e viveu nos anos 80. Eu não vi aquela transformação toda do Rock acontecer nos anos 70, apenas pude conhecê-la através de documentos, não vivi aqueles momentos de perto, muito embora eu hoje seja um dos maiores entusiastas do Rock setentista, entusiasmo ganho através do que eu pude conhecer nos anos 80 e que me levou a cavar mais fundo para descobrir os gloriosos anos 70 e assim por diante.

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Ou seja, o que eu presenciei ao vivo e a cores do Genesis, a priori, foi a sua sonoridade pop, composta de sintetizadores, drum machines, melodias pegajosas e coisas assim. Eu não fazia a menor ideia de que o Genesis tinha sido uma banda de Rock Progressivo nos anos 70, quando eu escutei a banda pela primeira vez na minha vida, em 1990, quando a rádio Difusora FM da minha cidade fez um especial de uma hora deles que eu registrei em fita cassete. Eu lembro o momento vivo na minha cabeça: a Difusora anunciou que iria passar um "show" de músicas de um grupo chamado Genesis. Não dei muita atenção, porque na época, meus conhecimentos de Rock se resumiam a Guns N' Roses, Van Halen, AC/DC, RPM e Metallica, só.

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Imagine você a minha cabeça imatura e inocente nesta época! O cara falava sobre o Genesis lá na rádio e eu só boiando, sem ter a mínima ideia do que se tratava. Mas com o gravadorzinho do tape pronto para quando o "show" começasse. Não era realmente um show de verdade que eles faziam, era mais um apanhado de músicas que eles deixavam lá tocando em sequência, só isso; tinha vários grupos e estilos, desde Kiss, Tears for Fears, Genesis, até mesmo Snap!, que era um grupo de hip-hop. Eu gostava de ouvir esses shows, sempre dava pra conhecer algo novo, e eu gravava muitos deles em fita pra depois ficar ouvindo. E foi assim que eu conheci o Genesis.

Imaginem vocês o meu choque lá pelo finalzinho dos anos 90, já com a internet, quando eu descobri a faceta progressiva do grupo! Eu não estava conseguindo acreditar ou absorver aquilo! O Genesis? A banda do Phil Collins, fazendo progressivo igual o Pink Floyd e o Dream Theater?? Como? Sim! Esse foi o tamanho do meu choque! E até aquele momento, era só a banda do Phil Collins pra mim, eu nem conhecia os outros integrantes, e fazia muito menos ideia de que o Collins era originalmente um baterista, pra mim, nessa época, ele sempre tinha sido um cantor pop. De forma análoga, eu fico aqui a imaginar o tamanho do choque do pessoal dos anos 70, quando ouviu pela primeira vez o Genesis fazendo música pop.

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Pois é esse choque que eu creio que as pessoas sentiram na época que saiu Abacab. Eu tinha apenas 1 ano de idade, era um bebê, mal sabia que estava no mundo, então não acompanhei; porém, como sou fruto da década de 80, pra mim era a coisa mais normal do mundo ouvir o Genesis pop nos anos 90. Hoje, mais amadurecido e conhecedor profundo de toda discografia da banda, considero mesmo uma guinada estranha para esse tipo de banda, mesmo ainda achando normal. O que o Genesis fez aqui foi basicamente trocar de pele. Parece uma banda totalmente diferente! Segundo o próprio Phil Collins, a banda estava descobrindo que era legal crescer, e dizer "eu te amo" nas músicas. Com certeza também estavam descobrindo o prazer e satisfação de lotar estádios cada vez mais. $$$ Faz sentido! $$$, vide o Phil Collins e sua nova achada carreira solo.

Os anos 80 despontam, "Follow You Follow Me" é um sucesso nas paradas, meninas e meninos da época, jovens, adolescentes descolados ouvem, acham legal, logicamente não conhecem o passado progressivo da banda, mas acham o sucesso das paradas legal. "Turn it on Again" também é um baita hit que agita as festas da época, então os caras arrumam a barba e o cabelão, adotam um visual mais clean, mais amigável, com aquela jaquetinha e o mullet, e tentam se enturmar com essa galera toda.

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Deu certo! Mas mesmo assim, Abacab peca em algumas coisas. É um disco cool, bacana, gostoso de se ouvir, mas tem alguns tropeços.

Os destaques ficam por conta da faixa título, por exemplo. É uma faixa com levada bem pop, mas que tem a duração de uma música progressiva, em torno de 7 minutos. Pode ser encarada meio como um lance New Wave que o Genesis estava tentando adotar, seguindo o modelo de gente como o Duran Duran, ou o A-ha. Ficou legal no som, aliás, o Genesis também acabou fazendo escola na música pop, assim como fez escola no Progressivo. A única coisa meio incômoda é a exagerada duração, eles arrastam um pouco demais a melodia, mas a jam session intermediária com as variações é até bacana, não muito aquelas variações do progressivão, mas bacana.

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Uma curiosidade interessante, é que tem gente que pensa que "abacab" significa alguma coisa. Não! É a coisa mais boba que você pode pensar! Simplesmente os caras estavam trabalhando na composição e notaram que ela era dividida em 3 sessões, ou seja, partes, então a sequência das estrofes era a-b-a-c-a-b, e assim, resolveram dar esse nome pra música.

Outras também de aspecto mais experimental como "Me And Sarah Jane" e "Dodo/Lurker" se destacam por conterem aspectos mais clássicos da banda, que remetem ao som deles mais progressivo. Eu nunca achei que essas músicas tivessem um pingo de semelhança com o que eles faziam antigamente, a não ser pela longa duração, mas são boas experimentações e também são uma boa maneira que o grupo achou de não perder de vista a sua base de fãs antiga, muito embora eles se sentissem passados para trás da mesma maneira. Isso até levou a um episódio engraçado em uma dessas turnês entre o Duke e o Abacab, quando em um dos shows, Phil Collins mostrou o dedo para uma audiência que os estava vaiando por tocarem suas músicas pop.

E falando nelas, e aí? São boas? Sim, muitas são... não todas, pelo menos neste disco. "No Reply At All" por exemplo, é uma excelente faixa pop, com recheio de bom instrumental da banda com calda de sopros feitos pela banda do Earth, Wind and Fire, os Phenix Horns. Apenas escute e sinta aquela atmosfera camp dos anos 80 sendo soprada em você! Toda vez que eu escuto isso, me dá aquela sensação nostálgica de uma época muito boa da música a qual eu gostaria de voltar mas não posso, porque as pessoas perderam totalmente o senso do que é bom e ruim no mundo de hoje.

Finalizando os destaques, temos a boa "Man on the Corner", que Phil canta do alto de seus pulmões, uma pop com aparência bem soul, e uma bela interpretação. Logo após tem uma que eu curto bastante, "Like it or Not", que eu pessoalmente acho uma das músicas pop mais subestimadas do grupo, porque tem um refrãozinho bem pegajoso, e é uma faixa que remete muito ao som do Duke, mas não é muito falada por aí.

E, por fim, tem aquilo que a banda fez que eu achei ou um passo em falso, ou algo irrelevante, ou bom, mas nada especial. "Keep it Dark" para mim é meio irrelevante, considerando toda produção do Genesis, mesmo na era pop. "Who Dunnit?" então, é o passo em falso; eu acho esse momento meio vergonha alheia, pra ser honesto! Quiseram fazer um lance meio pop, meio bizarro, fora dos padrões, meio gozadinho, mas olha... ficou uma bela maçaroca no final. Pulo essa faixa fácil, no meu play. Por fim, "Another Record", curiosamente me lembrou algo saído do The Lamb Lies Down On Broadway! Sim, por um instante, eu meio que pude ver o Rael passando ao som da música, mas mesmo assim, não achei nada demais; é boa, mas o Genesis progressivão já fez algo assim e melhor.

Ou seja, é aquele caso em que você curte o resultado final, mas ajustaria alguma coisinha aqui ou ali. Dos discos pop do Genesis, considero esse o mais "feinho", digamos assim, mas é bem agradável, quem curte aquele sonzão dos anos 80, eu recomendo, você vai vibrar, tenha a certeza! Todas as vezes que eu quero retornar àquela nostalgia oitentista de antigamente, uma das coisas que eu penso é o Genesis e este certamente é um dos discos que me vem à cabeça. E olha que falo isso agora de um ponto de vista bem mais amadurecido, não mais como aquele molequinho do início dos anos 90 gravando "show" da rádio, sem a mínima noção do que esperar ou do que viria a seguir, portanto, ouça este disco sem medo.

Abacab (1981)
(Genesis)

Tracklist:
01. Abacab
02. No Reply at All
03. Me and Sarah Jane
04. Keep It Dark
05. Dodo/Lurker
06. Who Dunnit?
07. Man on the Corner
08. Like It or Not
09. Another Record

Selo: Charisma

Genesis é:
Phil Collins: voz, bateria
Mike Rutherford: guitarra, baixo
Tony Banks: teclados

Com participação do grupo de sopro Phenix Horns na faixa 2.

Discografia anterior:
- Duke (1980)
- ...And Then There Were Three... (1978)
- Spot the Pigeon (1977) - EP
- Wind & Wuthering (1976)
- A Trick of the Tail (1976)
- The Lamb Lies Down on Broadway (1974)
- Selling England by the Pound (1973)
- Foxtrot (1972)
- Nursery Cryme (1971)
- Trespass (1970)
- From Genesis to Revelation (1969)

Site oficial: www.genesis-music.com

Para mais informações sobre música, filmes, HQs, livros, games e um monte de tralhas, acesse também meu blog:
http://acienciadaopiniao.blogspot.com.br

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Sobre Ricardo Pagliaro Thomaz

Roqueiro e apreciador da boa música desde os 9 anos de idade, quando mamãe me dizia para "parar de miar que nem gato" quando tentava cantarolar "Sweet Child O'Mine" ou "Paradise City". Primeiro disco de rock que ganhei: RPM - Rádio Pirata ao Vivo, e por mais que isso possa soar galhofa hoje em dia, escolhi o disco justamente por causa da caveira da capa e sim, hoje me envergonho disso! Sou também grande apreciador do hardão dos anos 70 e de rock progressivo, com algumas incursões na música pop de qualidade. Também aprecio o bom metal, embora minhas raízes roqueiras sejam mais calcadas no blues. Considero Freddie Mercury o cantor supremo que habita o cosmos do universo e não acredito que há a mínima possibilidade de alguém superá-lo um dia, pelo menos até o dia em que o Planeta Terra derreter e virar uma massa cinzenta sem vida.

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