Kreator: "Endorama é um dos melhores do Kreator", segundo Mille

Resenha - Endorama - Kreator

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Por Bruno Rocha
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Nota: 7

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Se renovar, experimentar novas sonoridades e testar diferentes possibilidades de fazer Heavy Metal. Enquanto uma banda está em início de trajetória, talvez esta tentativa não gere um baque tão grande em uma suposta base de fãs já adquirida. Mas quando a banda é uma lenda do Thrash Metal oitentista, com álbuns que representam sinônimos de agressividade sonora e com um exército de fãs espalhados mundo afora, talvez a aventura termine em um suicídio comercial.

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O Thrash Metal é um estilo que não aceita muito bem influências de sonoridades alheias às suas características agressivas. E os fãs do Thrash Metal são fortemente conservadores em relação a tal atitude. Durante os anos 90, várias bandas do tradicionais de Thrash buscaram renovar suas músicas. Com o advento do novo milênio e com as reações nada agradáveis de seus fãs conservadores, algumas bandas voltaram a fazer o que sabiam de melhor, enquanto outras se fixaram nos novos territórios sonoros encontrados. Não preciso citar nomes de bandas, a não ser a do KREATOR, cujo trabalho mais controverso, “Endorama” (1999), é o objeto de análise deste texto.

Desde o álbum “Renewal” (1992) a banda de Mille Petrozza buscou incluir novos elementos em seu Thrash Metal. Começaram acrescentando detalhes de Industrial e de Hardcore, até chegarem ao extremo de, em 1999, lançarem um álbum de Gothic Rock. Mas não o Gothic Rock típico dos anos 80 de THE CURE ou BAUHAUS, mas um Gothic/Thrash, se é que podemos definir o estilo apresentado pelo KREATOR neste tão polêmico trabalho. O clima “deprê” e os vocais graves do Gothic Rock estão permeando toda a atmosfera do disco, mas com o peso característico do Thrash presente. Os vocais berrados de Mille também ainda estão lá. A formação que gravou o álbum conta também com Tommy Vertelli (guitarras, CORONER), que já havia gravado o álbum “Outcast” (1997), Christian Giesler (baixo) e o baterista fundador Jurgen “Ventor” Reil.

O álbum começa com o Gothic agressivo de “Golden Ages”, música que inclusive fez parte do set-list dos concertos da banda alemã durante os anos 2000. Esta faixa dá a tônica que é seguida no restante do disco. Suas influências fortes do Gothic Rock dos anos 80 são explicadas pelo próprio Mille em entrevista ao site The Gauntlet:

“Eu apenas tentei algo diferente, para concluir se eu podia gerir um álbum mais melódico ou ‘darkwave’. Foi por isso que fiz ‘Endorama’. É como se fosse um tributo a algumas de minhas primeiras influências. Sou um grande fã da onda dos anos 80, da cena inglesa que veio naquela época. Falo de bandas como FIELDS OF THE NEPHILIM, BAUHAUS e JOY DIVISION.”

O gótico com a cara do KREATOR segue com a faixa-título, que tem a participação do vocalista do LACRIMOSA Tilo Wolff, um dos maiores nomes do Rock Gótico a partir dos anos 90. Mas nem tudo neste álbum nos transporta para climas soturnos. A música “Shadowland” é rápida e tem mais a cara do KREATOR, tanto que se encaixaria confortavelmente em qualquer álbum da banda de “Violent Revolution” até hoje.


A partir da faixa nº 4, “Chosen Few”, o que se segue é um álbum atmosférico e introspectivo, com predominância dos vocais graves e melódicos de Mille, orquestrações que mais parecem coisa do PARADISE LOST, e, como disse Mille dois parágrafos acima, um verdadeiro tributo a seus heróis da New Wave inglesa dos anos 80. A faixa “Passage To Babylon” é um destaque, uma ótima faixa que mais parece THE CURE tocando Heavy Metal. Mas calma. Há lampejos de KREATOR típico em algumas faixas, como na pesada e empolgante “Future King”, em “Soul Eraser” (esta bem agressiva) e em “Pandemonium” (cujo riff lembra diretamente um dos solos de “Fear Of The Dark”, música daquele sexteto inglês que até as baratas de sua casa conhecem).

Qual foi o erro que “Endorama” cometeu para ser o patinho feio da discografia do KREATOR? Exatamente isso! Ser um álbum do KREATOR. Se fosse talvez o debut de uma nova banda, seria um disco muito elogiado pela originalidade e perícia em misturar Thrash com Rock Gótico. Além disso, é um álbum consistente e que não enjoa ao longo de seus 50 minutos. Mas quando um álbum vem com a logomarca do KREATOR estampada, o que se espera é aquele Thrash Metal visceral acompanhado de boas doses de melodias. Depois de uma década de experimentos, Mille resolve jogar a toalha e voltar a fazer o que seus fãs sempre esperaram. Recrutou o elegante finlandês Sami Yli-Sirniö para as guitarras e encontrou uma zona de conforto desde o álbum “Violent Revolution” (2001). Zona de conforto no melhor sentido, pois esta nova fase do KREATOR que perdura até hoje só rendeu trabalhos aclamados de Thrash Metal.

Vale destacar o exímio trabalho de guitarras neste álbum. Temos aqui registros do guitarrista do CORONER Tommy Vertelli, e CORONER, como vós sabeis, remete a Thrash Metal com experimentações instantaneamente.

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Depois de quase 20 anos de seu lançamento, vale dar uma segunda chance a “Endorama”. Nunca na história do Heavy Metal foi lançado algo parecido com este álbum. No ano de 2013, em entrevista ao site russo “Headbanger”, Mille Petrozza decreta:

“Eu não considero este álbum um erro como um todo. Eu acho ‘Endorama’ um dos melhores do KREATOR.” Vai discordar do líder?

Fim de resenha. Agora me deem licença, que vou ali ouvir “Pleasure To Kill”...

Endorama – Kreator (Drakkar Records, 1999)

Tracklist:
01. Golden Age
02. Endorama
03. Shadowland
04. Chosen Few
05. Everlasting Flame
06. Passage To Babylon
07. Future King
08. Entry
09. Soul Eraser
10. Willing Spirit
11. Pandemonium
12. Tyranny

Line-up:
Mille Petrozza - vocais, guitarras
Tommy Vetterli - guitarras, programação
Christian Giesler - baixo
Jurgen Reil – bacteria

Participações:
Roland Kupferschmied – programação
Tilo Wolff – vocais em “Endorama”

Links para as entrevistas de Mille Petrozza:

http://www.thegauntlet.com/article/23180/KREATOR-Interview...

http://headbanger.ru/interviews/359?lng=en

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Sobre Bruno Rocha

Cearense de Caucaia, professor e estudante de Matemática, torcedor do Ferroviário e cafélotra. Entrou pelas veredas do Heavy Metal na adolescência e hoje é um aficionado e pesquisador de todos os gêneros mais tradicionais desta arte e de suas épocas. Tem como forte o Doom Metal, não obstante o sol de sua terra-natal.

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