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Por Rodrigo Contrera
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Fazia tempo que eu não ouvia este CD (que comprei, pela primeira vez, em LP). O primeiro do sueco que veio a determinar, em mim, uma preferência musical que se estendeu por mais de três décadas (o neoclássico). Que cravou clássicos que ainda consigo assobiar e curtir como o garoto que eu era. O LP de estreia de um sujeito ensimesmado, egolátrico mas que, como todos sabemos, tem seus méritos reconhecidos pelos grandes e por grandes multidões - embora tenha também seus detratores (por motivos menores). O Malmsteen apareceu realmente rasgando, apresentando sua banda e sua obra como obras peculiares de uma pessoa só - ele.

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Muitos foram influenciados por ele, que inaugurou o gênero (quem, em sã consciência, pode ser denominado como inventor de um gênero?). Pois sabemos que Robert Johnson estabeleceu as bases do blues como o conhecemos. Mas acaso ele o inventou? Não sei. E o folk? Terá algum inventor? Nem nos peguemos pensando sobre o rock, ou sobre subgêneros a partir dele. Ou mesmo nem nos peguemos pensando sobre o heavy metal, cujo nascimento todos atribuem ao Black Sabbath. Mas uma coisa é certa: o sueco inventou o rock neoclássico. Antes dele, ninguém veio com essa pegada de conjugar o rock pesado com a música erudita e suas complexidades. Só isso já atribui ao Yngwie um lugar ao Sol. Claro que ele não parou por aí. Mas aqui eu irei me deter apenas ao seu álbum de estreia, como compositor, guitarrista e banda. E àquilo que posso inferir, naquilo que me dizia, e ainda diz, nesse álbum de um pós-adolescente, que nasceu clássico.

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O sueco começa seu prodígio com uma obra (Black Star) que já de cara entrega quase tudo, começando com um intróito em violão que remete claramente a tudo o que é erudito - simplicidade, rigor, sofisticação. Mas ficamos apenas meros segundos com isso, porque em seguida, com uma base rítmica lenta e marcada, somos defrontados com uma guitarra (feita em duo, a maior parte do tempo, ou nos trechos mais sofridos) que grita como dificilmente vemos, e que passa algo que não consigo realmente explicar. Elas trazem um quê de agonia que até aquele momento eu não havia conhecido - ao menos com guitarra - antes. Uma agonia que, se por um lado parece às vezes não terminar, por outro lado leva a solos que não são sofridos, mas ao contrário são quase espartanos, recatados, comedidos. Mas o sofrimento, na maior parte do tempo, está lá, permanece, e parece não desaparecer. Como se fosse uma mensagem que ele quisesse nos passar de algo mas não conseguisse. E o título é estranho, não vêem? É no fundo como se ele estivesse tentando entender emocionalmente um buraco negro.

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E, por falar em estrela - e na estrela do Yngwie -, a próxima faixa também trata de uma, e é uma das músicas mais conhecidas dele, de fato, representada de diversas formas no Youtube e objeto de diversos vídeos, com interpretações ao vivo em shows. Refiro-me, claro, a Far Beyond the Sun, uma obra prima que mais parece a abertura de uma peça erudita e que é feita toda no registro roqueiro mais extremado daquela época. Porque naqueles idos isto era realmente barulho, rock da pesada, mas tocado de outra forma, com outro pique, com outras influências. Não à toa, creio, ela marcou tanto a geração dos neoclássicos. Porque ela não dialogava praticamente com mais ninguém - não fazia piruetas tipo os progressivos, não pegava algum resquício punk, não fazia nada disso. Ela só era uma espécie de demonstração de como o erudito poderia estar sob uma roupagem roqueira ou popular, e de como o grito da guitarra poderia combinar com esse tipo de roupagem anfíbia. Em Far Beyond, Yngwie agradava, claro, todos aqueles que gostavam de um ritmo cadenciado e aparentemente inesgotável, assim como de solos matadores, à la Hendrix, por exemplo (uma fonte de inspiração do sueco). Não poderia haver forma melhor pela qual o guitarrista e banda passagem uma mensagem clara ao mundo de que a partir deles algo iria realmente mudar. Isso sem contar com o fato de que a faixa termina com um órgão: quer mais representativo dessa forma sinfônica ou anacrônica de encarar o mundo? Pois é.

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O CD continua com uma música que, já em seu título, deixa claro o compromisso do rock de Malmsteen com alguns valores, como por exemplo o de que não há volta, de que a vida é esta, de que o sentimento está na cara, de que o amor é ou não é, e não merece ser tratado com muitas delongas - para permanecer um amor que se preze. "Nor Your Ships are Burned" trata desse tipo de situação em que não parecemos ter saída, em que a única escolha é a de não ter escolha, de avançar para ver no que é que dá. Pois eu me lembro de minha infância, quando as escolas me brindavam com histórias de batalhas, de navios queimados, de derrotas iminentes e ganhas no último esforço - ou na morte do comandante, ao invadir o couraçado inimigo (Arturo Pratt). Pois a faixa é estranha, de um certo fatalismo rompante, com jogos vocais que me lembram diálogos e que parecem tentar nos convencer de que ainda somos jovens, e de que podemos ainda tentar (ou seja, de que somente para os jovens não está tudo perdido). Uma faixa não instrumental mas com um pé em algo que o sueco iria tratar nos próximos CDs, um mundo novo e jovem do qual somente jovens podem realmente gostar. Ocorre que a faixa parece por vezes mal gravada; mas não é isso; a gente sente a remissão a bandas que influenciaram o guitarrista-mor, um Deep Purple, isso nos próprios tons da canção. Mas não está tudo feito, claro; as remissões ficam por dar outra resposta, que iria advir no Inspiration, muitos anos depois, em que notamos de onde vem grande parte do som aveludado de Yngwie, principalmente nessa faixa.

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"Evil Eye" é a próxima faixa, a mais fraca de todas, em minha opinião, mas que também mostra como o rock do cara se desenvolve. Com paradas, violões entremeados, climas de Idade Média, tons estranhos nisso que consideramos rock, e distorções que misturam tudo, ainda mais uma vez. E com trechos enormes de pura erudição, terminando claro com um teclado que deixa tudo mais uma vez no ar. Porque aqui é assim: ou tudo fica terrivelmente claro, ou reacende estranhezas que não ousamos decifrar. Até quando chega Icarus Dream Suite Opus 4, "inspirada" na melodia clássica de Adágio em G Menor. Pois aqui tudo fica absurdamente claro. As remissões, que pareciam aqui e acolá como inspirações, aqui são mais do que isso: são citações. Esta foi no meu caso a primeira vez que ouvi música erudita tocada em guitarra, realmente. E ainda me lembro, mais que da surpresa, do bom gosto das soluções utilizadas a seguir, com violões e melodias nada inspiradas no universo erudito mas que iriam tornar esta faixa um dos maiores clássicos em minha história. Porque Malmsteen já entendia que, se fosse prestar homenagem, que o fosse de forma ímpar, particular e absolutamente original, como é o que acontece. Aqui, eu diria, nem o rock está claro, porque tudo está tão entranhado, que parece um outro universo - o neoclássico. Tanto que a bateria fica compassada meramente para acompanhar, sem chamar nem um pouco a atenção. Porque aqui a escola é claramente a do rigor, com recurso a teclados aqui e acolá e em que os solos não parecem chamar a atenção, mas marcar algo que estava de antemão assumido. Tanto que o tema é retomado com violão e depois rasgado com a guitarra. Tudo é uma composição única, portanto, com o tema principal retirado do Adagio. O clima aberto do final é também de chamar a atenção. Como se a vida estivesse sendo retomada após tanto rigor e tantas remissões, e como se tudo, o destino, assim, aberto, também estivesse.

A música a seguir, principiada por um órgão tocado de forma bastante religiosa (ou sacra), era uma das minhas preferidas à época: As Above, As Below. Não me lembro especificamente por quê, mas ela remete a rock, puro e simples, com uma voz poderosa, e uma mensagem que na época eu mal entendia. Mas eu gostava da energia, com a voz exagerada, e a pegada ritmada, simples, em contraposição com tudo o que havia vindo antes. Claro que a letra passava - e passa - uma ideia esperançosa de vida, e isso me agradava demais, mas creio que o que pegava mesmo em minha predileção era o solo bastante fluido, que não passava a mesma impressão de antes. Tanto que a música, isoladamente, a gente até consegue imaginar em outras coletâneas, tirando talvez a parte do órgão, inicial e ao final. Já a próxima faixa, instrumental, era mais tosca, e meio que passava uma complexidade maior - pois é, tosca e complexa, coisas aparentemente contraditórias -, e eu normalmente a deixava passar quando ouvia o LP. Porque ela não me dizia demais, e parecia explicar algo sobre a pegada do Yngwie que antes não teria ficado claro. Mas era curioso, porque a música parava e entrava numa balada simples, bastante fácil de digerir, que parecia dar uma remanescida em algum romantismo - que o Yngwie iria trabalhar depois, em melodias mais simples, que iriam virar alguns de seus maiores hits; sim, porque aqui ele navegava ainda em diversos registros, o que ficava claro com a entrada do teclado, numa levada bastante simples, que depois era abandonada pelo mesmo começo anterior, e que terminava num jeito sinfônico, bem roqueiro, do qual muitos de seus posteriores influenciados devem ter retirado muito.

Mas eis que o sueco nos surpreendia de novo, com uma maravilha ("Farewell"), de apenas 48 segundos, em que nos dá uma palhinha do efetivo recado que estava dando: deixemos o purismo de lado, aqui está um cara que navega em vários oceanos, e que já passou o recado. Os outros, que se esfalfem.

Espero que tenham gostado.

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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

Mais matérias de Rodrigo Contrera no Whiplash.Net.