Camisa de Vênus: Um novo álbum após 20 anos

Resenha - Dançando na Lua - Camisa de Vênus

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Por Alexandre Capitão
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Pouco mais de um ano após se reunir para celebrar seus 35 anos de história, o Camisa de Vênus apresenta Dançando na Lua, seu novo álbum após 20 anos de hiato, o oitavo da sua irretocável carreira.

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A divertidíssima capa com o nosso satélite natural, onde se vê a sombra de um casal “dançando”, é o convite para um encontro com o senso de humor que sempre caracterizou o Camisa. Dentro do encarte você encontra muitas fotos e uma agradável surpresa, o retorno do artista plástico Miguel Cordeiro, co-autor de Simca Charbord, responsável pela arte interna de Duplo Sentido, que deixarão os amantes do insuperável formato físico e os velhos fãs com um sorriso mais largo que os quadris de Kim Kardashian.

A abertura é com a faixa título. O cow bell antecipa o estouro da boiada, ruminando e mugindo eu já te digo logo de cara, sim, sim, sim, é um disco do Camisa. Dançando na Lua tem o inconfundível texto de Marcelo Nova, a malicia, as frases do baixo de Robério Santana, um grande riff de guitarra, e o bom e velho rock que eternizou essa banda. Mas eu preciso te falar uma coisa. Tem mais... puta que pariu... tem muito mais. Celio Glouster (bateria) apresenta uma das suas melhores performances em estúdio. Enquanto Drake Nova e Leandro Dalle puseram as guitarras pra trabalhar como duas máquinas de costura em véspera de baile de formatura, o tempo todo estão ali, alinhavando cada nova frase. “Amanhã me espere em casa, e por favor, me espere nua, mas hoje não, porque hoje eu, estou dançando na lua”. Você fica sem saber se é desprezo, calma ou loucura, mas está certo que é êxtase. Sabe aquela coisa, quero te comer, mas hoje não, hoje estou comendo outra? Pois é, puro Camisa.

Quem acompanha a banda em seus perfis oficiais nas redes sociais já ouviu Raça Mansa, primeiro single do álbum, que também já faz parte da programação de rádios como 89 e Kiss FM. Marcelão dispara “ultimamente tenho andado isolado, quase não saio da minha cabeça, lá fora a coisa está insustentável, vai piorar antes que amanheça.” O refrão é uma aula de história do Brasil, mas especificamente, uma aula sobre o brasileiro. “Nós dançamos a dança, nós cancelamos a luta, a nossa raça é mansa, a nossa massa é bruta, nós vivemos de esperança, nóóóóóóóóóóóóóós, pagamos as putas”. Não há esquerda, não há direita, nem centro, todos mansamente culpados.

Em Chamada a Cobrar é o slide guitar que digita o 9 na frente. Impossível ouvir seu refrão e não imaginá-la ao vivo com o público cantando-o em modo repeat. Uma canção para não sair do set list. Marcelo Nova volta a citar Howling Wolf, como já havia feito na releitura de Don´t Let Me Be Misunderstood do álbum Quem É Você, dessa vez em português, “quando eu lhe pedi água, você me deu gasolina”. Autoreferente, metalinguístico, mega divertido.

De agulha, linha e guitarra em mãos, Drake e Leandro sopram forte no tornado Vendo Insensato. Ah, as guitarras desse álbum... “Seus segredos voando, seus desejos ao léu, se você acha seguro, então olhe pro céu”. E você fica tentando descobrir o que é mais pesado, os tambores, as palhetadas, ou a mão de Marcelo na mesa de som.

Manhã Manchada de Medo tem uma belíssima introdução conduzida por Robério. Essa balada é fruto maduro da parceria de Marcelo e Drake. Sabe aquela sua lista com as melhores baladas da banda, Rostos e Aeroportos, Eu Vi o Futuro? Pois então, pode adicionar essa canção, e abra os olhos, pois rapidamente ela pode estar no primeiro lugar dessa lista. “Hoje eu acordei com o coração apertado, como se tivesse algo importante a dizer, então resolvi permanecer calado, e escrevi essa canção pra você”. Responda sem pensar: o que uma bela balada exige? Um profundo solo de guitarra. Pois esta também foi a resposta que Drake deu. Na mixagem, Marceleza extraiu um som de caixa, que fez John Bonham ligar pra ele esse final de semana. “Nossa dor é tão insignificante que até o sol a rejeitou”.

Em Sibilando Como Cascavel, uns dos momentos mais emocionais do processo de gravação do álbum. Mesmo atravessando uma grave situação de saúde, Luiz De Boni foi ao estúdio gravar um solo de órgão, e como sempre, foi brilhante. Se você esteve em algum show recente, já deve ter ouvido Mr. Nova dizendo uma frase dessa letra “acredite que jamais irei lhe enviar um e-mail, nunca gostei de Bill Gates, eu sou fã de Graham Bell”. No inspirado refrão “se a dor é constante, mas o trajeto é comprido, não reclame da vida antes de tê-la vivido” Robério não fica por baixo.

A Urna da Obsessão traz a essência do Camisa, tem um pé no Stray Cats e outro no Clash. Com um pouco de atenção você ouvirá Marcelo Nova tocando o ponto Gibson da sua Chet Atkins Custom Shop, colocando o trêmulo Bigsby pra funcionar impiedosamente. “Agora somos cinzas, não é mesmo, baby, na urna da nossa obsessão”.

Uma canção de Jards Macalé volta a figurar em um álbum do Camisa, mais de 3 décadas após o hit Gotham City. Só Morto (Burning Night), presente no compacto de mesmo nome, lançado em 1969, e também no mais recente registro ao vivo dessa figura. Foi transformada num rockaço, com uma deliciosa referência à Wind Cries Mary de Hendrix. Mas se tem Jards, tem Jimi, a dupla dinâmica das guitarras também não falta à festa, intercalando-se no solo, mostrando como se aperta o botão subir desse elevador chamado Camisa de Venus.

O riff de O Estrondo do Silêncio é criação de Marcelo. Essa é daquelas com refrão que deixa todo mundo sem voz após o show. “O martelo já bateu, a fanfarra já tocou, o estrondo do silêncio foi tudo que restou”.

Embora O Inferno seja a primeira parte da Divina Comédia, em Dançando na Lua, Como no Inferno de Dante encarrega-se do encerramento. Marcelo Nova surge ao piano com algumas teclas roubadas de Little Richard. “Hoje acordo com o cheiro insuportável dos domingos, nem mil dúzias de rosas conseguem disfarçar”. Here´s Marcelo Nova. O último acorde se apaga, mas deixa queimando o fogo dantesco que Dançando na Lua acende dentro de quem o ouve.

A produção e os arranjos da dupla Marcelo e Drake Nova merecem destaque. O pai encontrou no filho o construtor que materializa e torna real os detalhes da criação que muitas vezes eram possíveis somente em seus olhos, e que juntos fazem chegar aos nossos ouvidos. Muito mais do que guitarrista, aos 23 anos, Drake assina sua segunda co-produção, depois do sólido trabalho em 12 Fêmeas. Apesar de jovem, Drake tem cultura musical veterana, e você pode vê-lo exibir seu conteúdo nos arranjos desses 2 álbuns citados. Cientistas tentam descobrir como parar esse garoto. Marcelo Nova controlou a mixagem do álbum, auxiliado por Leandro Dalle, e o resultado comprova mais uma vez mais que suas habilidades com os botões vão muito além dos seus ternos bem cortados.

Robério Santana permanece relevante. Linhas de baixo eficientes e fraseado marcante. Encontrou em Celio Glouster um parceiro “à sua altura”, formando uma cozinha de alta gastronomia rítmica.

Mas é imprescindível voltar a falar do trabalho de guitarras. Drake e Leandro se completaram e ocuparam os espaços de forma coordenada e harmônica. Em termos de 6 cordas, colocaram esse álbum do Camisa, onde nenhum outro jamais pisou. Um trabalho em dupla como não se via desde os tempos de Keith Richards/Mick Taylor ou Butch Cassidy/Sundance Kid.

Quando decidiu por voltar com o Camisa para o estúdio, Marceleza tinha duas certezas: o dever de fazer um disco à altura da história da melhor banda do rock brasileiro, e o exercício de que este soasse como um álbum do Camisa de Vênus, e não como seu trabalho solo. E entre certezas e desafios, junto com Robério, Drake, Leandro e Célio, o rei do rock venceu mais uma batalha, erguendo nesse álbum mais um arco do triunfo.

Num mundo de qualidade minguante, Dançando na Lua é rock de qualidade crescente. Compre já o seu.

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