Facção Caipira: Rock Blues foragido do passado para o agora.
Resenha - Facção Caipira - Facção Caipira
Por Willba Dissidente
Postado em 28 de maio de 2016
Nota: 6 ![]()
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Quando recebi para resenhar o EP de estreia do grupo niteroiense FACÇÃO CAIPIRA perguntei duas vezes mesmo se tratava-se uma banda de Rock'n'Roll. A capa, com foto simpático Sr. Eládio, lembra a de um disco solista de artista rural. Então, fui informado que se tratava de um disco de Rock Caipira. Imaginei, logo, algo como RENATO TEIXEIRA misturado com a música criada por CHUCK BERRY; algo não muito inovador, já que nos anos noventa tivemos o DOTÔ JEKA e outros artistas semelhantes. Quando coloquei o CD para rodar, ao invés de tocar a música do "courinho" com Heavy Metal, deparei-me com o clássico blues de WILLIE DIXON, BO DIDDLEY, aliado ao rock'n'roll dos primórdios como BILL HALEY, LITTLE RICHARD etc com vocais em português e chamativo trampo de slide guitar e gaita.
Na ativa desde 2009, o FACÇÃO CAIPIRA soltou em 2012 seu EP com seis músicas autorais e posteriormente relançou o disco com o acréscimo de dois temas registrados ao vivo no Theatro Municipal de Niterói, no estado de Rio de Janeiro, terra do quarteto. Como já adiantamos, o som da Facção têm pouco em comum a música típica da roça brasileira ou com o som caipira brasileiro. O grupo bem poderia cambiar seu segundo nome para Redneck, pois sua música mais se assemelha ao som idealizado do caipira estadunidense; que imaginamos mais ligados ao Blues e ao Rock'n'Roll de raiz.
Gravado no estúdio Villa, com produção e mixagem de Renan Carriço e masterização de Pedro Garcia, a música do facção soa com excelente gravação para o estilo; nítida e com distorção na medida certa para o Rock'n'Roll do final dos anos cinquenta e início dos sessenta. Destaque é a voz de Jan Sotoro, rouca sem perder ponto, que também arrasa em rápidos nos solos de slide guitar; como num destaques do disco que é "Blues para lá de Rock'n'Roll". Som esse, inclusive, que fica como se saísse do pré-refrão para o refrão duas vezes, vem o solo e repete a fórmula; demostrando criatividade da FACÇÃO CAIPIRA ao compor fora daquele esquema "já manjado". Essa música, é mais um blues agitado, "na linha" que fazia STEVE RAYVAUGHAN. O EP também tem Rock'n'Roll, de clima rápido, com a dupla formada por "JJF" e "Etiqueta". A primeira abre o disco, já o a segunda é outro destaque da bolachinha, chegando até a lembrar o trabalho do saudoso BETINHO E SEU CONJUNTO, o primeiro artista a gravar um disco de rock no Brasil, e também um vídeo clipe (1959).
A gaita de Daniel Leon também funciona muito bem, não só fazendo pequenas pontas e leads entre as frases nas músicas, ou o solo principal, mas também melodias na parte cantada, sem se sobrepor à voz. A cozinha de Vinícius e Renan, dá mais um caldo, senão a refeição toda; mantém o andamento, e quando há folga põe uma notinha ou outra a mais; como o bom Rock'n'Roll pede. O blues vem com tudo em "Hoje", balada bluesy chorosa sem refrão, mas que fica na cabeça do ouvinte.
Encerrando nosso texto do disco original, há a segunda faixa do CD, chamada "Chocolate Amargo". Essa balada é boa, mas possui de longe a pior letra do trabalho, pois fica chamando uma moça de 'imunda' e dá a entender que as amigas delas são 'galinhas'. No final da música, ainda há a voz dos músicos gritando "filha da puta" para a referida moça. Não que a banda seja machista, mas foi imatura ao criar uma música para satirizar uma mulher. Se a letra é ficcional segue tão ruim quanto, pois referenda a cultura patriarcal de submissão da mulher ao homem; algo que só trás coisas ruins ao nosso país e ao mundo. Se essa música não constasse no disco, certamente o grupo teria nota dois pontos a mais. Mas, ei, essa só é a opinião desse resenhista. Certamente há para quem esse "detalhe" é despercebido.
Seguindo para o bônus, temos as duas faixas ao vivo, que possuem qualidade de gravação e execução pareada com as de estúdio. "Blues Brasileiro Foragido Americano" deve fazer muito sucesso. A junção de estilos anunciada pela proposta do grupo aparece forte aqui, a som da gaita chamando o trem, coisa dos EUA, e andamento à la ritmos nordestinos. A letra é muito bem sacada e possui o melhor refrão composto pela banda. "Maluco Doido" fecha o disco num clima Hard Core à la RAIMUNDOS, sendo a mais rápida e pesada do disco. O vocalista apresenta a banda antes de encerrar o álbum naquele clichê de fechamento blues. Isso foi essencial, já que a informação de quem tocava o quê não consta no encarte.
Essa segunda prensagem do EP do FACÇÃO CAIPIRA, disponibilizada para a resenha, vem em formato digipack com disco prensado em cd original e encarte de quatro páginas com letras das músicas e uma foto da banda. Um ponto negativo do mesmo, é não possuir informações detalhadas sobre a produção do mesmo, ou quem compôs o quê, ou as letras das duas músicas ao vivo. O trabalho pode ser comprado pelo site oficial do conjunto (link no final) por R$15,00.
Enfim, um trabalho para os fãs de Rock'n'Roll, Blues e Country Rock que gostam de músicas com letras em português. Se for esse seu caso, não espere um insight ao embarcar na estrada com o FACÇÃO CAIPIRA e tornar um bluseiro brasileiro foragido!
FACÇÃO CAIPIRA:
Jan Santoro - Voz, guitarra e slide
Daniel Leon - gaita, violão e background vocals
Vinicius Câmara - baixo.
Renan Carriço - bateria.
Facção Caipira - 2012 - Nacional - Independente - 27:33
1 . JJF (02:02)
2 . Chocolate Amargo (04:01)
3 . Hoje (03:55)
4 . Insight (03:09)
5 . Etiqueta (02:38)
6 . Blues Pra Lá de Rock N' Roll (02:35)
7 . Blues Brasileiro Foragido Americano (04:58) - bônus ao vivo
8 . Maluco Doido (03:49) - bônus ao vivo
Sites relacionados (em português):
http://www.faccaocaipira.com.br/
https://www.facebook.com/faccaocaipira/
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