David Bowie: Em 1999, passado, presente, futuro, morte e além

Resenha - ...hours - David Bowie

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Por Carlos Frederico Pereira da Silva Gama
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Em busca de trilhas inauditas ou emulando pioneiros anônimos, trazendo-os para os holofotes.

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Na maior parte do tempo David Bowie estava envolvido em estranhos diálogos.

Fora de compasso consigo mesmo.

Para se espalhar por todos os lados.

Ainda assim, estava sozinho.

'I thought you died alone, a long long time ago'...

15 anos depois contemplo o single de ...hours Tuesday's Child, ainda cheia de autocondescendência lírica. David Bowie balbucia diante da balada natureza morta eletrônica – abrindo mão de bravos experimentos. Aqui 'something about this world falling apart' satisfaz. Atingir uma vaga noção sobre esse tema disperso equivale a uma admissão: 'all my life I've done my best to find a heart'. Inovações abrem caminho para assépticas câmaras de compensação da disparidade: segurança.

Uma fração de Reggae tecnóide do Massive Attack preenche Something in the Air – inexorável, mas impressionante desconexão. Um decidido David arrisca com sonoridades tórridas, mas seus vocais cortantes desvalorizam o despretensioso ir e vir wah wah. 'Nothing left to say', em alguns momentos ele lembra Jarvis Cocker (Pulp). 'Let's tak e what we can', o que seria um sinal de honra para o fashionista do homem comum.

Outra exibição de conexão afastada, Survive promete Folk cósmico, rapidamente transmutado em adrenalina Britpop de amplificadores desafinados. Bowie hesita diante de seus alteregos. Sons do presente copiando o passado colapsam em ruminações ébrias de presente sobre o tempo decorrido: 'I should have been...Take me there...give me space...give me money for a change of face...I love you'. Máscaras viram do avesso em sabedoria post mortem: 'But I'll survive your naked eyes'.

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Tecnicolor estourado com guitarras saturadas. A voz arenosa de Bowie pondera sobre a ausência das performances anteriores. 'Where is the person who was just here, now?' If I Am Dreaming My Life, épico portentoso indo e vindo no seio da tragédia – podia ter integrado diversos discos. O ritmo se intensifica com sintetizadores oblíquos e cascatas de guitarras, partes móveis de um Suede alternativo com um frontman mais sério e teatral envolvido num pêndulo vaporoso.

Folk esquizoide atualizado com Atmosphere (Joy Division) rolando livremente pelos auto-falantes (música filha de Heroes). Bowie não perde tempo no escuro e parte para psicodelia retrô engasgada. Seven days to live my life and seven ways to die. Obcecado em prolongar a própria perenidade, David cunha um lado B cínico e minimalista para Five Years. Malabarismos com sintetizadores e cordas de brilho falso adornam a odisseia insular de Bowie. O distante passado cai sobre estrelas abandonadas.

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Para os transeuntes What's Really Happening parece outra prosódia encapsulada de Bowie-Reeves Gabrels. Guitarras pós-Punk e o baixo proeminente de Gail Ann-Dorsey invocam o fim dos anos 1980. A letra de Alex Grant (vencedor de um concurso na BOWIEnet e autor de singelos backing vocals) se espraia para a década seguinte com as cadências dissonantes de Gabrels. Letras intrigantes em sintonia com a realização recessiva de …hours se apartam de refrões opressivos e disjunções orbitais.

'Grown inside a plastic box
Micro thoughts and safety locks
Hearts become outdated clocks
Ticking in your mind'

The Pretty Things Go To Hell é uma das faixas que Bowie licenciou para o jogo de videogame Omikron – The Nomad Soul, da Eidos (do qual ele participa). Inspirada por The Pretty Things (pioneira da Ópera-Rock) e pela música dos Stooges Your Pretty Face is Going to Hell (produzida por Bowie), a faixa funde a sonoridade Glam com as pretensões de um aspirante a Shakespeare – duas fortes inclinações de David, que começou a carreira no fim da década de 1960 como um trovador Prog-Folk e se tornaria um precursor do Punk Rock a seguir. Rompantes afetados de guitarra pontuados por raios laser trazem à tona a indecisão de cinquenta e poucos anos – 'who to kiss, who to listen to, who to trust?'. Um personagem que Bowie, através dos enlameados trajetos de decadência ('they wore it out, but they wore it well'), torna pungente via nostalgia. Um sujeito 'good to fall, good to fight, good to dance in a Saturday night'. Essa música implora por uma plateia, em sentidos mediados: a geração de Bowie ('I found you before you grow old') está choramingando por detrás de suas rodas espelhadas e ele promete: 'meet you on the edge, going to the other side this time'.

Bowie contempla sua urgência por imagens conceituais no olho da mente com Gótico sintético. New Angels of Promise é outra faixa licenciada para Omikron, apresentando uma austera travessia Prog por uma Matrix distópica. Atrelado a metáforas de 1974 (Queen II e Diamond Dogs – 'we are the seven ones'), Bowie ofereceu similaridades sonoras não-disponíveis em outros lugares de…hours. Ornamentada com as guitarras histéricas de Gabrels no olhar fixo do estúdio, ela se torna menos proibitiva – 'suspicious minds' parece mais palatável, à medida que Bowie se refaz a si próprio (quase literalmente), trazido 'from the edge of time' para uma fantasia mais convencional ('she's my eyes'). Ao brincar com seu doppelganger digital, Bowie transmuta Omikron de uma procissão indiferente ('always time') a um sussurro pausado, um reconhecimento de que 'it's always time'. Quando a chegada da idade se instaura, ...hours se divide no momento ideal (kairós): o refrão lembra, com sinceridade, o INXS: 'we take the blame'.

Brilliant Adventure – uma tentativa de trilha sonora para Tintin? Percussão falsamente exótica flexiona músculos auto-evasivos. O instrumental conjura ansiedade para o desvelamento de algo oculto e misterioso – encantado por suas próprias expectativas, Bowie e Gabrels só veem contornos de sombras. Uma ansiedade produtiva se desenrola, dando vazão aos monstros da razão de Goya. Em virtude da linguagem-como-verdade esse discurso produz excitação através de um artefato de separação: preso dentro de um globo espelhado, Bowie se deleita com os reflexos.

Outra faixa de Omikron, The Dreamers encerra …hours pisando em modo digital. Uma límpida planície de insegurança manufaturada se descotina nas cascatas de sintetizadores rococós em moto contínuo – so shrinks daylight under the blue sky. Shallow man speaks to the shadows with its trembling hands. So it goes...O decaimento afetado não continha originalmente traços da guitarra de Gabrels ou do baixo de Dorsey. Para …hours, Bowie incluiu trechos de guitarras escorregadias e backing vocals irrefletidos. Grandioso mas anticlimático…Ao fingir um fim para negócios inacabados, The Dreamers parece coerente com a vida e a arte.

Tracklist:

(7) Thursday's Child
(7) Something in the Air
(9) Survive
(8) If I Am Dreaming My Life
(8) Seven
(6) What's Really Happening
(8) The Pretty Things are Going to Hell
(8) New Angels of Promise
(7) Brilliant Adventure
(7) The Dreamers




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