"Highway 61 Revisited": Dylan é do rock!
Resenha - Highway 61 Revisited - Bob Dylan
Por Claudinei José de Oliveira
Postado em 27 de abril de 2015
Nota: 10 ![]()
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Com álbum clássico, lançado em 1965, Bob Dylan cometia a primeira de suas "traições", deixando para trás o idealismo do mundo "folk" e assumindo a faceta de "rockstar".
"Highway 61 Revisited" é o primeiro álbum predominantemente elétrico gravado por Bob Dylan. Isto quer dizer que ele se assumiu, por completo, como "traidor", alcunha que passou a persegui-lo quando começou a incorporar elementos do rock'n'roll em sua sonoridade. Tal fato não foi perdoado pelos "puritanos" da comunidade folk, da qual Dylan fez parte.
O que dizer de um álbum que se inicia com "Like A Rolling Stone", considerada inúmeras vezes por especialistas como a canção pop mais importante do século XX? Livros já foram escritos a respeito desta música. O fato é que "Like A Rolling Stone" pode ser ouvida como uma apologia do ressentimento, pois é quase com êxtase que o refrão pergunta "Qual é a sensação?" para a "filhinha da mamãe" que tem seu mundo cor-de-rosa virado de pernas para o ar e terá que aprende a sobreviver nas ruas. Sobrevivência esta que o narrador deixa a entender dominar por completo.
O ressentimento foi dissecado, de maneira magistral, na obra do filósofo Friedrich Nietzsche onde são expostos, de maneira contundente, os estreitos vínculos de sua origem com a mentalidade escrava do povo hebreu e, sendo Dylan de ascendência hebraica, no mínimo, temos aí assunto para mais um livro. Não deixa de ser curioso que uma música considerada tão importante afirme um sentimento tão mesquinho mas, como diria Gessinger, gostar ou não de uma música diz mais sobre quem a ouve que sobre quem a compôs.
A segunda canção é "Tombstone Blues", que inaugura uma faceta presente em outras ("Highway 61 Revisited" e "Desolation Row", por exemplo), de misturar numa narrativa aparentemente "nonsense", surreal, dadaísta, personagens históricos e fictícios. A impressão é a de que Dylan havia se enchido dos supostos "especialistas" em encontrar mensagens subliminares em sua obra e resolveu sabotá-los.
"It Takes A Lot To Laugh, It Takes A Train To Cry", com um lirismo avassalador, narra uma viagem clandestina de trem típica aos vagabundos e miseráveis da época da Grande Depressão, cujo estilo de vida, Dylan sempre fantasiou viver.
"Ballad Of A Thin Man" é a obra-prima a retratar a paranoia e o que, aparentemente, poderia ser considerado uma caricatura bizarra é, na verdade, de um realismo doentio.
"Queen Jane Approximately" é aceitação plena em contraponto às frustrações que uma alma possa carregar.
"Highway 61 Revisited", a canção, se inicia em clima de desenho animado, com uma guitarra "slide" se enroscando a uma sirene de brinquedo e apresenta personagens do Antigo Testamento e todo um séquito que aparenta ter fugido de um hospício, todos se encaminhando, por algum motivo, à Rodovia 61, região que liga o Delta do Mississippi, berço do blues, à região onde Dylan nasceu.
"Just Like Tom Thumb's Blues" é um passeio chapado pela cidade mexicana de Juarez, onde, bem ao estilo "beatnik", ladrões, prostitutas e traficantes possuem aura santificada e a confusão entre pertencimento e abandono é assustadora.
Encerrando o álbum, uma epopeia acústica de mais de onze minutos, como num desfile de Carnaval, pessoas fantasiadas de personagens dos contos de fadas, personagens da ficção literária, cientistas, artistas, escritores e personagens históricos, cada um vivenciando um absurdo maior que o outro, como a última estrofe deixa a entender, são metáforas para a doideira da vida boêmia no círculo de convivência de Dylan.
Ficou faltando comentar "From A Buick 6", porém isto não acrescenta nem subtrai nada no álbum.
Quanto à sonoridade, a não ser pela modulação dos acordes de algumas músicas, "Highway 61 Revisited" é fortemente calcado no blues elétrico de Chicago, sendo, assim, bastante "retrógrado" se comparado aos outros álbuns marcantes na época, com uma sonoridade remetendo às décadas de 1940 e 1950. O engraçado é que os "puritanos" do folk, que viam em Dylan um "traidor", admiravam expoentes do blues elétrico, tais como Muddy Waters e Howlin' Wolf. Vai entender.
Tracklist do CD:
1."Like A Rolling Stone"
2."Tombstone Blues"
3."It Takes A Lot To Laugh, It Takes A Train To Cry"
4."From A Buick 6"
5."Ballad Of A Thin Man"
6."Queen Jane Approximately"
7."Highway 61 Revisited"
8."Just Like Tom Thumb's Blues"
9."Desolation Row"
Gravadora: Sony Music
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