Dream Theater: Renovando-se dentro do estilo sem perder as raízes

Resenha - Falling Into Infinity - Dream Theater

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Por Giales Pontes
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Nota: 9

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


O quarto ‘full length’ na carreira desse quinteto nova-iorquino é um exemplo muito claro de que é possível renovar-se dentro de seu estilo sem perder as raízes. Apesar de soar mais moderno que seus antecessores, os clássicos ‘Images & Words’(1992) e ‘Awake’(1994), este ‘Falling Into Infinity’(1997) não abdicou daquela atmosfera típica da banda, mantendo praticamente intacto seu metal progressivo recheado de nuances, variações de tempo e andamento, e tudo isso envolto em muito virtuosismo instrumental.
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A suíte progressivo-eletrônica que abre ‘New Millennium’, a primeira faixa do play, já surpreende, deixando aquela boa impressão de ouvir um som “cheio” e potente. Essa introdução “tecnológica”, cortesia do estupendo tecladista Derek Sherinian, logo cai em uma interessante “cama” feita pelo baixo de Myung, mantendo o clima meio futurista. As linhas vocais de James estão primorosas como sempre. Lá pelas tantas ele emenda com os versos: “How can you keep your head, and not go insane. When the only light at the end, of the tunnel is another train”. Essa parte é de “gelar a espinha” tamanha a beleza na harmonia com os backings. As variações são muitas, e se sucedem de forma alucinante! Uma verdadeira “farra progressiva” em que cada instrumento “discute” com os outros para tentar monopolizar as atenções do ouvinte!

‘You Not Me’ é outra peça irrepreensível, abrindo com uma progressão frenética do ‘batera’ Mike e riffs de guitarra distorcidos, apoiados pelo baixo também com distorção. A levada de bateria junto ao baixo pesadão fazem a base para os primeiros versos da canção. Mas o melhor ainda está por vir. Com um refrão maravilhoso essa é séria candidata à melhor faixa do álbum. E quando se pensa que nada mais será melhor que o refrão, Petrucci rouba a cena e manda um solo de guitarra daqueles que fazem qualquer aspirante à guitarrista ‘babar’. Muito técnico e com um efeito bastante futurista. Aliás, essa ‘aura’ de rock tecnológico é o elemento mais marcante do álbum, o que na época de seu lançamento gerou algumas polêmicas e críticas por parte da ala mais conservadora, tanto do lado dos fãs quanto da imprensa especializada.

‘Peruvian Skies’ é triste, etérea, quase fantasmagórica. O que casa perfeitamente com sua letra, que fala sobre crises familiares e violência doméstica. Mas ao final a música cai em uma avalanche de riffs metálicos que nos faz praticamente esquecer a calmaria lá do início. A seguir temos a irretocável balada “violonística” intitulada ‘Hollow Years’. Outro numero que também impressiona pela beleza harmônica, e também por mostrar que mesmo quando apela para letras românticas, o Dream Theater consegue fazer isso sem soar brega, sem aquele ‘ranço’ mela-cueca que as rádios comerciais tanto adoram! Em tempo: John Petrucci ‘destrói’ com um simples mas belíssimo solo de violão na metade na música.

‘Burning My Soul’ prossegue na linha “progressivo-eletrônico-tecnológica” com os sintetizadores praticamente se equiparando ao peso da guitarra e do baixo. O refrão é poderoso, por vezes até incômodo em se tratando de uma banda como o Dream Theater, que no geral não costuma extrapolar na agressividade. O solo de sintetizador, mostra um Derek Sherinian furioso, tão distorcido e rockeiro quanto uma guitarra.

A instrumental ‘Hell’s Kitchen’ dispensa maiores elogios. Com algo de Led Zeppelin nos dedilhados iniciais da guitarra, um certo ar de Rush na suíte “guitarrística” que conduz a maior parte da música, e trazendo alguma coisa de Genesis nos climas, essa faixa é uma viagem progressiva linda de se ouvir. Eu costumo brincar dizendo que essa música deveria chamar-se ‘Heaven’s Kitchen’, pois de tudo que já escutei em termos de música, esta é uma das coisas mais próximas do paraíso. Não bastasse a beleza sublime, ‘Hell’s Kitchen’ ainda serve de introdução(de luxo?) para a poderosa ‘Lines In The Sand’, que é outra obra prima, com dezenas de variações de andamento e quilos de virtuosismo musical. O refrão é simples e empolgante, trazendo uma boa surpresa com a participação do vocalista Doug Pinnick do também americano King’s X. Seu vocal bluesy/soul dá um tempero todo especial à ‘Lines’. Destaque também para o solo jazzístico da guitarra de John em uma suíte mais calma lá pela metade da música. Um verdadeiro show de técnica e feeling.

O começo suave de ‘Take Away My Pain’ causa uma certa estranheza a primeira audição, e quando James entra cantando os primeiros versos, tudo indica tratar-se de mais uma balada típica do “Teatro Sonho”. O que se confirma no decorrer da canção. Tenho que admitir que nas primeiras vezes em que pus ‘Falling Into Infinity’ para tocar, minha reação instintiva era sempre pular essa faixa, mesmo que ainda nem tivesse escutado ela por inteiro. Radicalismo bobo, típico de juventude! Hoje curto essa balada tanto quanto o resto do álbum. A seguir temos a empolgante ‘Just Let Me Breathe’, que mais uma vez se utiliza das introduções climáticas, algo eletrônicas, enigmáticas, meio que distraindo o ouvinte até que a banda entre com tudo. Muito virtuosismo como é de praxe, e até uma incursão combinando as guitarras, baixo e sintetizador reproduzindo aquela melodia de ‘Wait For Sleep’, uma balada do clássico ‘Images & Words’ onde a tal melodia era tocada apenas com piano sobre uma base orquestral feita pelos sintetizadores de Kevin Moore, o tecladista da banda na época.

Eu falei em ‘Wait For Sleep’, certo? Bem, a baladinha pianística ‘Anna Lee’, sendo também a penúltima música, poderia até ser a ‘Wait For Sleep’ deste álbum. Guardadas as devidas proporções, é claro. Isso porque falta em ‘Anna Lee’ um pouco mais de carisma e feeling. Mas ainda assim trata-se de uma boa peça musical. Para fechar em grande estilo, temos a épica ‘Trial Of Tears’, dividida em três movimentos:
‘It’s Raining’, ‘Deep In Heaven’ e ‘The Wasteland’. Assim como ‘New Millennium’, esta obra progressiva traz tudo o que se espera de uma música nesse estilo: muitas mudanças de andamento, atmosferas diversas, e uma dose cavalar de virtuosismo. Em minha modesta opinião, eis aqui a faixa que vale o álbum. Que melhor forma há de encerrar um álbum espetacular, senão com uma música espetacular?

Line-up:

James LaBrie (Vocal)
John Petrucci (Guitarras)
John Myung (Baixo)
Mike Portnoy (Bateria)
Derek Sherinian (Teclados/Sintetizadores)

Track-list:

1 . New Millennium
2 . You Not Me
3 . Peruvian Skies
4 . Hollow Years
5 . Burning My Soul
6 . Hell’s Kitchen
7 . Lines In The Sand
8 . Take Away My Pain
9 . Just Let Me Breathe
10. Anna Lee
11. Trial Of Tears

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