Oasis: Os 20 anos de "Definitely Maybe"

Resenha - Definitely Maybe - Oasis

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Por Carlos Cyrino, Fonte: Delfos
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Discos de estreia são sempre complicados. Dificilmente as bandas acertam já em seus debutes, seja por serem muito imaturas, por ainda não terem um repertório sólido ou pela inexperiência em estúdio. Motivos para um primeiro disco não ser aquele que irá figurar em seleções de seus melhores trabalhos é o que não falta.
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Contudo, isso não quer dizer que não haja aqueles grupos capazes de superar essas dificuldades e fazer de sua estreia discográfica uma poderosa entrada com os dois pés na porta. Uma das bandas de Rock que possuem um primeiro álbum dessa categoria é o Oasis, dos marrentos e brigões irmãos Gallagher. E veja só que coincidência, ele completa 20 anos de existência justamente agora em 2014.

Por isso, em mais uma caprichada matéria que você só lê aqui no DELFOS (Nota do editor: e agora também no Whiplash.net), apresentarei as histórias por trás da criação de Definitely Maybe e o que ele representou para a cena musical da época e seu impacto geral no meio do Pop/Rock. Mas antes, uma rápida jornada aos primórdios da banda.

A GÊNESE DO OASIS

Tudo começou em Manchester, Inglaterra, nos idos de 1991, com o nascimento da banda chamada The Rain (nome tirado de um lado B dos Beatles, Rain, provando que a obsessão pelo quarteto de Liverpool já vinha desde os primórdios). O grupo foi formado por Paul “Bonehead” Arthurs na guitarra, Paul McGuigan no baixo e um tal de Chris Hutton nos vocais. Pouco tempo depois entrou o baterista Tony McCarroll (até então eles utilizavam uma bateria eletrônica) e Chris Hutton foi substituído por um certo Liam Gallagher.

E foi justamente Liam, pouco após entrar no grupo, quem sugeriu a mudança de nome para Oasis. Nesse ínterim, seu irmão mais velho, Noel Gallagher, trabalhava como roadie para a banda Inspiral Carpets, e compunha suas próprias canções em seu tempo livre. Após voltar de uma turnê pelos EUA com os Carpets, Noel foi assistir a uma apresentação da banda do irmão e enxergou potencial no quarteto.

Ele teria então se oferecido para entrar na banda, prometendo que a faria dar um salto de qualidade e, consequentemente, de patamar. Para isso, ele tinha duas condições. A primeira, de que ele fosse o guitarrista solo, relegando a Bonehead a função da guitarra base. E a segunda e mais ambiciosa, seria que dali para frente ele comporia sozinho todas as músicas da banda. Os termos foram aceitos e Noel prontamente passou a substituir o repertório antigo do grupo pelas suas composições.

A ditadura da autoria das canções só foi findar no quarto álbum de estúdio do quinteto, Standing on the Shoulder of Giants (2000), onde entrou a faixa Little James, escrita por Liam. Em lançamentos posteriores, Liam e os outros membros da banda passaram a colaborar ainda mais ativamente com suas próprias composições, deixando o Oasis mais democrático, embora longe de seus melhores anos, quando era dominado com punho de ferro pelo ditador Noel.

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Mas estou me desviando do assunto. Voltemos ao que interessa. Alan McGee, dono do selo Creation Records, que pouco tempo antes havia passado a fazer parte da major Sony Music, assistiu a um show do então desconhecido Oasis numa biboca na Escócia e gostou do que ouviu, assinando com a banda em 1993. E assim estava armado o cenário para a gravação de seu primeiro álbum.

GRAVAÇÕES CONTURBADAS

O Oasis entrou no Monnow Valley Studio, em Monmouth, País de Gales, no início de 1994, e seu produtor seria um sujeito chamado Dave Batchelor, que Noel conhecia de sua temporada como roadie dos Inspiral Carpets. Eu disse seria porque essas seções de gravação foram extremamente frustrantes para a banda.

Basicamente, eles queriam reproduzir a energia e o peso de seus shows ao vivo, mas quando iam ouvir o resultado na mesa do produtor, se deparavam com um som chocho, fino e sem personalidade. Este impasse entre banda e produtor, aliado ao alto custo das diárias do estúdio, deixou todos de cabelo em pé.

Por fim, Batchelor foi demitido e Noel tentou salvar alguma coisa do material já gravado dando uma garibada nele em diversos estúdios de Londres. Mas após uma audição das fitas por Noel, Alan McGee e outros executivos da Creation, ficou claro que o material não tinha mesmo salvação.

Em fevereiro a banda mudou de local de gravação, passando para o bem conhecido Sawmills Studio, na Cornualha, com o objetivo de regravar do zero o disco inteiro. Com a produção dividida entre Noel e Mark Coyle, a ideia era a pretendida originalmente: replicar o potente som ao vivo da banda. Para isso, os músicos optaram por gravar juntos, ao vivo em estúdio, sem separação de som entre os instrumentos. Posteriormente, Noel incluiu ainda diversos overdubs de guitarra.

E eis que o resultado desta nova empreitada foi (rufem os tambores)... mais uma vez considerado insatisfatório e o disco de estreia do Oasis parecia condenado a não sair ou chegar às lojas muito abaixo do padrão exigido pela banda. Não havia mais orçamento nem prazo para recomeçar o processo mais uma vez do zero, e desta vez o material gravado teria obrigatoriamente de ser utilizado.

Numa última tentativa desesperada, foi chamado um sujeito chamado Owen Morris, um engenheiro de som recém promovido a produtor, para tentar operar o milagre de salvar o álbum. Sua primeira providência foi remover todos os overdubs que Noel havia incluído. O resto foi um cuidadoso trabalho de mixagem que finalmente destacou o peso, energia e urgência das canções. Após flertar com o completo desastre por duas vezes, finalmente Definitely Maybe estava pronto.

DEFINITIVAMENTE TALVEZ

Talvez mais que tudo, a importância de Definitely Maybe, lançado em 30 de agosto de 1994, foi devolver o orgulho inglês ao Rock. No ano em questão, a cena musical vivia a ressaca do grunge. target=_blank>Kurt Cobain havia acabado de se suicidar, e bandas como Pearl Jam e target=_blank>Soundgarden ainda estavam em evidência. O rock feito nos EUA ainda dominava as atenções mundiais.

A cena inglesa estava tímida. Vivia de alguns espasmos esporádicos, como o primeiro disco dos Stone Roses, lançado em 1989, e a cena que ficou conhecida como Madchester, do início dos anos 90, que misturava Rock, Psicodelismo e Dance Music, de bandas como Happy Mondays e a própria Inspiral Carpets, da qual Noel fora roadie.

Definitely Maybe chegou neste cenário como um furacão. Tematicamente, era o oposto do estilo de composição depressiva e introspectiva exercido por Nirvana e seus pares. Canções como as músicas de trabalho Rock n’ Roll Star, Shakermaker, Live Forever, Supersonic e Cigarettes & Alcohol, além de faixas como Bring It On Down e Slide Away enalteciam o estilo Rock n’ Roll de ser.

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Suas letras, ainda que muitas não façam lá muito sentido, lembrando mais uma conjunção de palavras aleatórias para efeitos de métrica e rima (algo pelo qual Noel Gallagher sempre ouviu críticas) eram essencialmente positivas, evocando bons sentimentos e a diversão proporcionada pelo Rock.

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As letras para cima, aliadas às guitarras abrasivas e à voz enjoada, porém marcante de Liam Gallagher, transformava as composições em verdadeiros hinos, perfeitos para levantar multidões em shows de grande porte, no melhor estilo “Rock de arena”. O público concordou e o álbum virou um fenômeno de vendas na ilha da rainha.

O disco, cuja icônica capa, retratando os integrantes bem à vontade numa sala de estar, fotografada no apartamento do guitarrista Bonehead, vendeu horrores. É sempre complicado falar de números de discos vendidos, pois essa parece nunca ser uma ciência exata. Durante minhas pesquisas para esta matéria, encontrei muitas variações da quantidade em questão, então vou dizer apenas que venderam cópias pra cacilda de Definitely Maybe, pois aí não tem erro.

Ele também foi durante muitos anos o detentor do recorde de disco de estreia que mais rápido vendeu no Reino Unido, sendo superado apenas em 2006 por Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, dos target=_blank>Arctic Monkeys. Embora essa informação seja encontrada facilmente (está no site da respeitável BBC, por exemplo), o que eu não achei de jeito nenhum foram os números de unidades vendidas e quanto tempo ambos levaram para chegar ao topo. Puxando de cabeça, lembro que na época do lançamento do Whatever People Say foi algo ridiculamente rápido, tipo uma ou duas semanas. Mas óbvio, isso não é uma informação confiável, é apenas para dar uma noção.

O álbum foi criticamente aclamado e sem dúvida é um dos melhores discos do gênero dos anos 90, com muita gente inclusive o considerando até hoje o melhor do quinteto. E vira e mexe costuma figurar também em diversas daquelas polêmicas listas de melhores álbuns de Rock de todos os tempos.

REPRESENTANDO O BRITPOP E CRIANDO UMA RIVALIDADE

No mesmo ano em que o Oasis estreava com estrondo, o Blur lançava seu terceiro disco, Parklife, o qual também vendeu muito e também foi criticamente aclamado. A partir daí essas duas bandas seriam consideradas as pontas-de-lança do que ficaria conhecido como Britpop e também protagonizariam a maior rivalidade da cena.

Como disse no primeiro parágrafo do tópico anterior, o Rock britânico vivia um momento de baixa, dominado pelos grupos estadunidenses. Definitely Maybe e Parklife recolocaram o Rock inglês em evidência, gerando uma proliferação de novas bandas (como Elastica, Supergrass e Suede, dentre muitas outras) e conseguindo muita popularidade, alcançando sucesso também em outras partes do globo.

Este momento de extrema criatividade artística e um verdadeiro boom de bandas, com o surgimento de uma grande quantidade de novos grupos (e outros mais antigos, como o Pulp, finalmente alcançando o reconhecimento) como não se via desde a década de 1960, foi batizado com a simpática alcunha de Britpop. O que não tinha nada de simpático, por outro lado, foi o embate entre seus dois maiores representantes.

De um lado, tinha-se o Oasis, formado por sujeitos desbocados da classe operária que fazia Rocks simples e apoteóticos, com guitarras barulhentas e refrões grudentos. Do outro, os intelectuais de classe alta do Blur, misturando referências diversas num rock mais trabalhado e cabeça. Bandas opostas que encabeçaram uma verdadeira guerra na época.

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A batalha entre elas era tão acirrada que ambas chegaram a lançar singles no mesmo dia, só para ver quem venderia mais. O Blur ganhou a batalha, com o compacto de Country House superando as vendas de Roll With It, do Oasis, mas os irmãos Gallagher e sua trupe acabaram vencendo a guerra, visto que o disco (What’s the Story) Morning Glory? vendeu bem mais que The Great Escape, estes os álbuns de onde saíram os singles em questão.

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Essa guerra também fazia a alegria dos tradicionais tabloides ingleses, com inúmeras trocas de farpas entre os músicos, que chegou ao cúmulo de uma infeliz declaração de Noel Gallagher desejando que Damon Albarn (vocalista do Blur) pegasse AIDS e morresse. O troco, ironicamente, não veio pelas mãos de ninguém do Blur, mas pela boca da própria mamãe Gallagher, que, numa entrevista, disse que gostava do Blur e os achava rapazes simpáticos. Com a própria mãe jogando contra fica difícil.

AS CONSEQUÊNCIAS

O Oasis, de 1994 até meados de 1997, foi uma das bandas de Rock mais importantes e prestigiadas do mundo. A partir do começo dos anos 2000, contudo, lançou alguns discos fracos e perdeu espaço, voltando a conquistar elogios da crítica com Don’t Believe the Truth de 2005 e Dig Out Your Soul de 2008.

A banda trocou de integrantes algumas vezes e, da formação que gravou Definitely Maybe, só restaram mesmo os dois irmãos. O baterista Tony McCarroll foi o primeiro a ser sacado, já em 1995. Paul McGuigan e Bonehead pediram as contas quase ao mesmo tempo, com poucos meses de diferença, durante as gravações do fraco disco Standing on the Shoulder of Giants (2000).

Em 2009, os irmãos Gallagher, que sempre tiveram uma relação conturbada de muitas brigas e discussões, tiveram mais um desentendimento, este aparentemente insuperável. Noel, de saco cheio das atitudes do mano caçula, pediu as contas e acabou com a banda.

Liam e os outros músicos que formavam o Oasis à época (o baterista Chris Sharrock, o guitarrista Gem Archer e o baixista Andy Bell) formaram o Beady Eye e já lançaram dois discos bons, porém não exatamente marcantes.

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Noel partiu para a carreira solo e lançou um ótimo álbum, bastante elogiado pela imprensa especializada. Ah, sim, ele e Damon Albarn não só fizeram as pazes, encerrando a antiga rivalidade dos tempos do Britpop, como viraram amigos e agora é costumeiro um dar uma palhinha nos shows do outro. As voltas que o mundo dá...

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E como é de praxe, Definitely Maybe irá ganhar agora em maio um relançamento remasterizado e em diferentes versões, com discos bônus cheias de extras, como faixas ao vivo, demos e o escambau. Para quem já conhece o disco, este aniversário é uma excelente oportunidade para tirar a poeira da sua cópia de Definitely Maybe e fazer um passeio de recordação por suas 11 faixas. Para aqueles que não conhecem, fica a recomendação. Os irmãos Gallagher são uns malas fora dos palcos, mas suas músicas valem a pena. E isso já desde a estreia.

Matéria originalmente publicada no site Delfos
http://www.delfos.jor.br

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