Van Halen: "1984" ainda é uma referência na discografia do grupo

Resenha - 1984 - Van Halen

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Por Doctor Robert
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Nota: 10


Em 1948, muito antes de todo o burburinho sobre o calendário Maia e o suposto "fim do mundo" em 2012, o escritor George Orwell havia finalizado um livro onde narrava uma sociedade que vivia em um regime político totalitário e repressivo, capaz de reprimir qualquer pessoa que se opusesse ao governo, sendo todos vigiados por câmeras o tempo todo pelo chamado "Grande Irmão" (de onde surgiu o termo "Big Brother" que hoje é utilizado pelo reality show da TV). A história se passava em 1984, que acabou virando também o título da obra. O sucesso foi tamanho que durante anos, diversos pensadores filosofavam sobre como seria a vida e o mundo no ano de 1984.

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O Van Halen foi formado na década de 1970, e com certeza seus membros devem ter ouvido muita coisa sobre o livro em questão e as previsões sobre o futuro, assunto muito comum nos EUA naquele período - quem acompanhou o seriado "That 70's Show" deve se lembrar das projeções que alguns personagens faziam sobre estar convivendo com robôs em casa, em trajes à la "Jetsons" e tudo mais. E quando chegou o momento de lançar seu sexto álbum, justamente no começo de janeiro de 1984, o título não poderia ter sido outro senão este. Mas voltemos um ano antes...

Em 1983, o quarteto estava no auge de sua carreira: cinco álbuns de sucesso lançados, finalizando uma turnê mundial com ingressos esgotados por todos os lados (marcando inclusive sua única passagem pelo Brasil e América do Sul), citados pelo livro Guinness de recordes como a banda mais bem paga do mundo (pelo cachê recebido pelo show do "U.S. Festival"), com Eddie Van Halen por cinco anos consecutivos considerado pela revista Guitar Player como o melhor do mundo, tendo sido ainda chamado a participar das gravações do novo álbum de Michael Jackson (onde contribuiu com o solo de "Beat It")... Tudo fluía muito bem para quem os via "do lado de fora", mas internamente o clima estava muito longe disso...

Eddie estava extremamente frustrado com o último disco gravado pelo grupo, "Diver Down", uma verdadeira colcha de retalhos com algumas covers, composições inéditas em diferentes estilos e etc. O guitarrista, que quando criança teve aulas de piano junto a seu irmão Alex, queria incluir algumas composições orientadas por teclados e sintetizadores, encontrando a discórdia com o frontman David Lee Roth e o produtor Ted Templeman. Em entrevista alguns anos depois, Eddie reclamava que "Dave queria transformar a banda em um show de Las Vegas" e ainda disparava: "Van Halen tocando "Dancing In The Street", não dava para acreditar..." - para quem não sabe, uma canção composta por Marvin Gaye e William Stevenson para o grupo de soul music Martha and the Vandellas, em 1964.

Contrariado, ele resolveu construir seu próprio estúdio em sua casa, com o auxílio do engenheiro de som Donn Landee, batizando-o de "5150", código da polícia norte-americana para pessoas fora de seu estado mental normal. Trancou-se por dias lá e disparou a compor canções uma atrás da outra, à sua maneira, por vezes auxiliado por Landee e seu irmão Alex. A primeira composição a ficar pronta foi "Jump", tema que ele já vinha trabalhando há pelo menos dois anos (segundo contou em entrevista à Rolling Stone em 1995), execrada por David Lee Roth e pelo produtor Ted Templeman, que continuavam a não aceitar teclados no som do grupo - anos mais tarde, Diamond Dave admitiu que só aprendeu a gostar da música com o tempo, e que teria escrito a letra de forma irônica após presenciar um homem se atirando de um prédio...

Brigas homéricas e um clima nada amigável, mas mesmo assim o grupo consegue se reunir em estúdio e finalizar as faixas idealizadas pelo guitarrista e agora tecladista. "1984" foi lançado em 9 de janeiro de 1984, e logo de cara pegava os fãs de surpresa: se estes já estavam habituados a ouvir a faixa título que abria o disco durante os solos de baixo cheios de efeitos de Michael Anthony na turnê anterior, "Jump" era totalmente diferente de tudo o que o grupo havia feito até então - uma música totalmente orientada pelos teclados, com uma levada pop, mas sem abandonar as guitarras características do aclamado Eddie.

Se por si só o grupo já lotava arenas, essa primeira música de trabalho trouxe também o público da MTV (era apenas o segundo vídeo da banda, que anteriormente havia feito apenas um para o cover de "(Oh) Pretty Woman", de Roy Orbinson), e chegou à posição de número 1 entre os singles na parada da Billboard. Era o Van Halen pronto para aumentar a sua legião de seguidores, não ficando mais restrito apenas aos fãs de música pesada - embora muitos desses dessem razão a Dave e Ted, torcendo o nariz para a música.

Na continuação do disco, um baita dum hard rock festivo no velho estilo que todos estavam acostumados a ouvir: "Panama", escrita em homenagem a uma stripper panamenha chamada Evelyn, trazia de volta o bom e velho som cru do grupo, com Eddie desfilando riffs e solos endiabrados, além do ronco do motor de sua Lamborghini. "Panama" ganhou também um vídeo clipe de alta rotatividade pelas TVs de todo o mundo - ainda me lembro da sensação de ser um garoto de oito anos de idade, bitolado em Kiss e Queen, que de assistia de boca aberta Dave voando pelo palco e Eddie com sua guitarra vermelha de listras solando feito um doido, no programa FM TV da extinta Rede Manchete... Nada no mundo parecia ser mais legal do que aquilo...

Saudosismos à parte e voltando ao disco, "Top Jimmy" trazia mais uma homenagem, desta vez a James Paul Koncek do grupo Top Jimmy & The Rhythm Pigs, muito famoso nos clubes noturnos de Los Angeles no começo daquela década. Uma faixa onde o destaque novamente é a guitarra de Eddie, mas que tem a cara de David Lee Roth, e que se encaixaria perfeitamente em qualquer um de seus discos solos. Finalizando o lado A do vinil, "Drop Dead Legs" começava com um inspirado dedilhado na guitarra de Eddie, culminando com Michael Anthony e David Lee Roth dividindo os vocais num refrão inspirado e pegajoso. Trilha sonora perfeita para fechar os olhos e se imaginar dirigindo um conversível...

Virando a bolacha, o que se ouvia eram as batidas tribais de Alex Van Halen e mais uma introdução de guitarra inesquecível de Eddie anunciando "Hot For Teacher", uma das melhores faixas do trabalho, que fala sobre garotos de escola descobrindo a sexualidade e sentindo tesão pela professora. Um divertido vídeo clipe foi gravado, com garotos vestidos como versões mirins dos membros da banda e Dave como o motorista do ônibus da escola, mas que acabou gerando muita controvérsia, ao mostrar professoras dançando de biquínis para os alunos.

Os fãs mais antigos já respiravam aliviados, achando que a veia "tecladística" de Eddie havia adormecido e iria se resumir apenas a "Jump", até que começa "I'll Wait", faixa que foi escolhida para ser o segundo single do disco. Embora seja uma boa composição, não agradou a todos, mas seguiu sendo tocada ao vivo, tanto na turnê da época, quanto nas duas últimas após o retorno de Dave. Uma curiosidade: no single lançado desta faixa no Reino Unido, Michael McDonald (dos Doobie Brothers) constava nos créditos como co-autor da música.

"Girl Gone Bad", penúltima faixa do disco, é uma canção que foi surgindo aos poucos nos palcos, com improvisações que a banda costumava fazer principalmente durante "Somebody Get Me a Doctor". Durante uma entrevista ao programa de rádio "King Biscuit Flower Hour" em 1985, Eddie revela que o tema principal surgiu em sua cabeça em uma noite enquanto dormia com sua então esposa Valerie Bertinelli em um hotel - e para não acordá-la na madrugada, ele teria se trancado com um violão e um gravador de fitas cassetes dentro do closet do quarto... "Girl Gone Bad" foi também resgatada pela banda em sua última turnê de 2012/13.

Finalizando vem o petardo "House Of Pain", uma das músicas mais pesadas do quarteto e que hoje serve para calar aqueles que criticaram o fato de "A Different Kind of Truth" ter trazido faixas não aproveitadas anteriormente por eles. "House of Pain" era parte do repertório fixo do grupo na década de 1970, tendo sido gravada apenas na famosa fita demo bancada por Gene Simmons, mais jamais lançada oficialmente, sofrendo algumas pequenas alterações nesta versão final.

A inesquecível arte gráfica da capa do álbum foi obra da artista Margo Nahas, inicialmente contratada para desenhar quatro mulheres cromadas (robotizadas?) dançando. Ela teria rejeitado esta ideia e, ao levar seu portfólio ao quarteto para apresentar seus trabalhos anteriores, foi surpreendida quando o grupo se apaixonou pela pintura de um anjo querubim com cigarros, que acabou sendo a escolha final. Na Inglaterra houve censura à imagem (devido a uma campanha antitabagismo), e os discos foram vendidos com os cigarros cobertos por adesivos com "1984" escrito em algarismos romanos idênticos aos que apareciam na parte superior da capa.


"1984" permaneceu por cinco semanas consecutivas como nº 2 em vendas nos Estados Unidos, segundo a Billboard, atrás apenas do já citado "Thriller" de Michael Jackson, garantindo ao grupo disco de diamante pela RIAA pela vendagem superior a 10 milhões de cópias. A época de seu lançamento, criou junto à MTV norte-americana a promoção "Lost Weekend", onde um fã sorteado passaria um final de semana junto ao grupo - existem diversos vídeos no YouTube.

O que se seguiu posteriormente, todos sabem: mais uma tour de sucesso astronômico, culminando com o Van Halen como headliner do Monsters Of Rock em Donington; a saída de David Lee Roth (que havia testado o mercado antes com seu EP solo "Crazy From The Heat"), levando com ele o produtor Ted Templeman; o início da era "Van Hagar"; o supergrupo montado por Dave com Steve Vai, Gregg Bissonette e Billy Sheehan (que teria sido sondado anos antes por Eddie para o posto de Michael Anthony, quando o Talas abriu alguns shows do Van Halen); as trocas de farpa pela imprensa, pelos nomes dos discos e onde mais fosse possível.

Trinta anos depois, "1984" ainda é uma referência na discografia do grupo, frequentemente disputando o posto de favorito dos fãs com o álbum de estreia. Acima de tudo, um baita dum álbum de rock!

"1984" - Warner Bros Records.
Produzido por Ted Templeman.

David Lee Roth - vocais
Eddie Van Halen - guitarras, teclados, backing vocals
Michael Anthony - baixo, backing vocals
Alex Van Halen - bateria, percussão

1. "1984" 1:07
2. "Jump" 4:04
3. "Panama" 3:32
4. "Top Jimmy" 2:59
5. "Drop Dead Legs" 4:14
6. "Hot for Teacher" 4:42
7. "I'll Wait" 4:41
8. "Girl Gone Bad" 4:35
9. "House of Pain" 3:19


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Sobre Doctor Robert

Conheceu o rock and roll ao ouvir pela primeira vez Bohemian Rhapsody, lá pelos idos de 1981/82, quando ainda pegava os discos de suas irmãs para ouvir escondido em uma vitrolinha monofônica azul. Quando o Kiss veio ao Brasil em 1983, queria ser Gene Simmons e, algum depois, ao ver o clipe de Jump na TV, queria ser Eddie Van Halen. Hoje é apenas um bom fã de rock, que ouve qualquer coisa que se encaixe entre Beatles e Sepultura, ama sua esposa e juntos têm um cãozinho chamado Bono.

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