Led Zeppelin: existem versos que nascem com alguma bruxaria
Resenha - Led Zeppelin IV - Led Zeppelin
Por Eduardo Alfani
Postado em 30 de junho de 2013
"Hey, hey mama. Said the way you move. Gonna make you sweat. Gonna make you groove!" Existem alguns versos que nascem com algum tipo de bruxaria. A partir do momento que são escritos, se torna impossível ler suas palavras sem cantar. No caso da Black Dog, eu, pelomenos, não consigo ler sem que a melodia me venha na cabeça (e não saia mais por um bom tempo).
Bruxaria, na verdade, é o gancho perfeito para começar a falar de Led Zeppelin e deste álbum sem nome, sem artista, sem logo, sem quase nada, a não ser composições que entraram para a história da música. Só pode estar na feitiçaria (pela qual o líder do Led sempre foi bastante adepto) a explicação para uma obra de arte como Stairway to Heaven, para o riff e "swing" de "Misty Mountain Hop", para a calmaria de "Batle of Evermore" e para a sensação de brisa de verão no rosto que traz "Going to California".
Vamos um passo antes. Para quem não sabe, Led Zeppelin IV (Atlantic, 1971) é o maior clássico dos caras, com por volta de 40 milhões de cópias vendidas, e sem dúvida alguma um verdadeiro estabelecimento de padrões para a música pesada. Para quem sabe menos, o guitarrista do Led, Jimmy Page, tem um interesse especial por ocultismo, o que o levou a comprar nada menos que o castelo onde vivia o lendário ocultista Aleister Crowley (sim, o da sua música favorita do Ozzy), e lá viveu por certo tempo. Para quem não sabe de absolutamente nada da vida (é, desculpa), o Led Zeppelin é uma banda que pode tranquilamente receber a alcunha de lenda. O Led Zeppelin acabou em 1980, devido principalmente a morte do baterista não menos lendário John Bonham (após o menino beber apenas o equivalente a 40 doses de vodca); depois disso, a única reunião da banda (com o filho de Bonham na bateria) aconteceu em 2007 para um show em Londres, pelo qual teria seus ingressos sorteados - em uma casa de shows onde cabem 20 mil pessoas, houve nada menos que 20 MILHÕES de inscritos para o sorteio. O Led Zeppelin compôs Stairway to Heaven, por vezes considerada a melhor composição da história da música moderna. O Led Zeppelin, há quem diga, deu origem ao termo Heavy Metal, já que alguma publicação cismou que seu som parecia com o som de metal pesado se chocando. O Led Zeppelin... é o Led Zeppelin.
A banda dispensa qualquer apresentação de uma tal maneira que não se deu ao trabalho nem de assinar sua obra prima. Jimmy Page, cansado da pressão que as gravadoras faziam na banda pelo fato de seus discos não terem nome (denominados apenas Led Zep. I,II e III – álbuns que com certeza terão seu espaço aqui também), resolveu apertar o adorado botão do "foda-se" e fazer um disco sem nome e "sem artista". Até agora, neste texto eu estou chamando o disco de "Led Zeppelin IV" de alegre, por comodidade. O nome do disco não é esse, e há quem chame ele "Four Symbols", por exemplo, já que única forma de comunicação na capa do disco, além da pintura de tinta a óleo (que Page encontrou em uma loja de antiguidades, e nada mais é que uma metáfora para o fato do ser humano querer colher mais do que plantar) foram os famosos símbolos que viraram ícones da banda dalí em diante. Cada símbolo foi escolhido por cada membro da banda para sua representação. O estranho símbolo que representa Jimmy Page, por mais que seja comumente lido como uma palavra (Zofo ou Zoso) não representa nenhum tipo de grafismo (alí não há letra alguma), mas sim uma representação de Saturno e Mercúrio em rituais de magia. O porquê da escolha? Ele nunca disse. O significado dos outros símbolos, na minha honesta visão, não passa de uma brisa de ácido que cada um deles teve, por mais que textos mundo afora tostem neurônios para tentar entende-los.
Com todas essas peculiaridades, Page tinha apenas uma intenção muito clara com o lançamento do quarto disco do Led: que o foco das atenções fosse única e tão somente para o som – que se garante, e como se garante. Eu não vou me aprofundar no faixa-a-faixa, porque assim o texto seria mais apaixonado que uma cartinha de amor adolescente – só Stairway já merecia um texto dedicado, a parte. Apenas o ouça por completo, sem pular nenhuma faixa, de preferência em uma vitrola de boa qualidade, prestando atenção para detalhes como o timbre da bateria, os backing vocals harmoniosos, os muitos instrumentos de corda de Page, a gaita de Plant, o órgão em "Four Sticks", cada detalhe, cada segundo. Vai dar para entender porque, na época, a única banda além do Led que recebeu apostas de grandes gravadoras para um disco sem titulo e nem apresentação escrita alguma se chamava The Beatles.
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