Soft Machine: Segunda geração de Jazz Rock nos anos 70

Resenha - Bundles - Soft Machine

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Por Elias Rodigues Emidio
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Nota: 10


Formado em 1966 na cidade de Canterbury na Inglaterra por Daevid Allen (Guitarra), Robert Wyatt (bateria e vocal), Kevin Ayers (baixo e vocal) e Mike Ratledge (teclados) o Soft Machine foi uma banda que em pouco mais de 10 anos de carreira (de 1966 a 1978) esteve sempre a frente das transformações vigentes no Rock neste período.

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Seus dois primeiros álbuns, já sem a presença de Allen, "The Soft Machine" e "The Soft Machine Volume Two" são verdadeiras obras primas do psicodelismo entremeada de referências musicais britânicas e ao lado de discos revolucionários como "Ogden's Nut Gone Flake" e "The Piper At Gates Of The Dawn" (respectivamente de Small Faces e Pink Floyd) estabeleceram o modo britânico de se tocar Acid Rock.

Ao passo que "Third" (talvez a criação máxima da banda) e "Fourth" de 1970 e 1971 que contavam com a formação dita clássica do grupo que incluía Hugh Hopper no baixo e Elton Dean no Sax, são os expoentes máximos do chamado Canterbury Sound, um mix de Jazz e Rock psicodélico com forte inclinação ao Rock Progressivo e que estão na origem do chamado Jazz Rock.

Com a entrada de John Marshall no lugar de Robert Wyatt o Soft Machine grava em 1972 o disco "Fifth" que marca um abandono do experimentalismo dos álbuns anteriores e uma incursão mais profunda em direção ao Jazz convencional. "Sixth" um disco duplo (sendo metade gravado ao vivo e metade em estúdio) de 1973, já com Roy Babbington no lugar de Hopper e com o excelente multi-instrumentista Karl Jenkins (sax, oboé e teclados) substituindo Elton Dean, mostra um retorno à verve experimental dos últimos lançamentos da fase Wyatt como atesta a canção "The Soft Weed Factor".

Enquanto que "Seven" de 1975, sinaliza o Soft Machine partindo para uma sonoridade mais elétrica conforme estava em voga na época: Babbington se utiliza pela primeira vez de um baixo elétrico de seis cordas; as canções estão mais curtas, melódicas e menos improvisadas e os grooves soam bem mais redondos. O disco em si soa mais como uma preparação para "Bundles", lançado em 22 de março de 1975.

"Bundles" marca a entrada do virtuoso Allan Holdsworth na guitarra, além da primeira mudança de gravadora do grupo que troca a CBS pela Atlantic Records. Com Holdsworth a banda abandona de uma vez por todas a sonoridade acústica que havia marcada seus discos até então, aderindo em definitivo ao som da segunda geração de Jazz Rock nos anos 70 (denominada por muitos erroneamente como Fusion) que pode ser conferida em ótimos discos como "Grinding Stone" (1973) da The Gary Moore Band e "Blow By Blow" (1975) de Jeff Beck. A guitarra de Holdsworth acaba se tornando assim o grande diferencial deste álbum, embora o som do grupo ainda esteja longe de soar mainstream.

Som de sinos abrem a estupenda "Hazard Profile Pt. 1", seguido da bateria de John Marshall que entra num crescendo até que guitarra e bateria se entrecortam em uma seção rítmica estupenda que serve de base para a sonoridade hipnótica obtida por teclados e metais, a qual é seguida por um longo e magistral solo de Holdsworth que guia com perfeição os demais instrumentos até a canção se encerrar com uma tranquila passagem ao piano. De longe a melhor composição do disco e indiscutivelmente o grande cartão de visitas do grupo.

Emendadas na sequência "Hazard Profile Pt. 2", "Hazard Profile Pt. 3" e"Hazard Profile Pt. 4", trazem temas jazzísticos menos introspectivos voltados para o teclados de Jenkins, para guitarra de Holdsworth e para a bateria de Marshall respectivamente. Enquanto "Hazard Profile Pt. 5", retoma a sonoridade Jazz Rock padrão em alto nível com Marshall numa performance devastadora marcada por fantásticas variações e quebras de ritmos.

"Gone Sailing" é uma pequena vinheta que mostra a criatividade Holdsworth que se utiliza de sons harmônicos e percussivos ao violão com maestria.

A faixa que dá titulo ao álbum com seu andamento completamente jazzístico traz uma complexa variações de ritmos e novamente destaca a técnica singular de Holdsworth. Ao passo que "Land Of Bag Snake" é um groove viajadão com a cozinha afiada, onde Holdsworth reina novamente absoluto com um excepcional desempenho nas seis cordas.

Teclados e metais dão a tônica em "The Man who Waved The Trains" e "Peff" as únicas composições no disco de autoria de Ratledge (até então o último remanescente da formação original do grupo). Um longo solo de sax (cortesia de Karl Jenkins) emenda as faixas anteriores com a ótima "Four Gongs Two Drums" onde Marshall executa o tradicional solo de bateria. Encerrando esta obra prima, um mantra hipnótico de quase 8 minutos que atende pelo nome de "The Floating World" com perfeito casamento entre metais, teclados e guitarra.

A instabilidade na formação parecia algo onipresente na carreira do Soft Machine. A formação que gravou o disco se desfez logo em seguida com a debanda de Allan Holdsworth que foi substituído por John Etheridge por sugestão do próprio. Roy Babbington foi o próximo a deixar o grupo entrando Percy Jones, ex-Brand X em seu lugar, que cedeu meses depois o posto para Steve Cook.

Insatisfeito com uma tentativa mal sucedida turnê pela Europa ao lado do Caravan e Mahavishnu Orchestra Mike Ratledge abandona o barco em 1976, no seu lugar Jenkins e Marshall convidam o saxofonista Alan Wakeman (primo de Rick Wakeman do Yes). Com nova formação seria gravado o excelente "Softs" em 1976 que segue a mesma linha dotada em seu antecessor de 1975, porém a verdade era que com a saída de Holdsworth o Soft Machine perdia muito no quesito criatividade. Em 1977 seria a vez da coletânea "Triple Echo" que passava a limpo a carreira do grupo até aquele momento. Finalmente no ano de 1978 com formação reformulada (saem Wakeman e Cook , entra Rick Sanders para assumir o baixo) é lançado o derradeiro disco do grupo "Alive & Well" gravado durante uma turnê pela França em julho de 1977.

A banda passou quieta os anos de 1979 e 1980, mas em 1981 um imenso grupo, (que contava até com Jack Bruce) se reúne para gravar com o nome Soft Machine e lançam: "Land of Cockayne" uma horrorosa e comercialmente mal sucedida incursão por clichês do Jazz Rock e do muzak, algo que uma banda do nível deles não merecia. Uma tentativa de volta ocorreria em 1984 com Jenkins, Marshall, Dave MacRae, e o baixista Paul Charmichael, mas no fim das contas nada houve de concreto.

Terminava assim tragicamente a carreira de um dos maiores grupos de Rock que o mundo já presenciou, que apesar de pouco lembrado hoje em dia, marcou indelevelmente seu nome a ferro e fogo na história da música na segunda do século XX e cujo legado ainda repercute em inúmeros grupos mundo afora.

FAIXAS
1.Hazard Profile Pt.1
2.Hazard Profile Pt.2
3.Hazard Profile Pt.3
4.Hazard Profile Pt.4
5.Hazard Profile Pt.5
6.Gone Sailing
7.Bundles
8.Land Of The Bag Snake
9.The Man Who Waved The Trains
10.Peff
11.Four Gongs Two Drums
12.The Floating World




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