Helloween: temas bobinhos e melodias infantis em excesso
Resenha - Better Than Raw - Helloween
Por Igor Z. Martins
Postado em 18 de abril de 2010
Eu assumo: power metal e metal melódico são dois gêneros de rock que nada me agradam. Para mim, os estilos trabalham muito em cima da chamada "mesmice", tanto em termos de temática como de abordagem musical. Também penso que as canções, provenientes de bandas dos referidos estilo, são notavelmente "felizes", beirando a "bobice", além de "ingênuas", se colocadas de frente a outras coisas consagradas do rock n’roll.
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O legado de lendas do calibre de Jimi Hendrix, Bon Scott, Frank Zappa ou John Lennon, que usavam o rock para "sacudir" o mundo e, até mesmo, fazer o ouvinte pensar com suas letras, transformou-se, parece-me, ao menos no caso dos estilos citados, em fantasia de adultos que não tiram de suas cabeças cavaleiros, "terras encantadas", "terras da liberdade", espadas, dragões, trolls, hobbits, ou qualquer outro fetiche com a literatura de J.R.R. Tolkien e o mundo medieval. Os vocalistas, em sua maioria (o que significa que não são todos), fazem o possível e o impossível para cantar o mais alto possível. Quanto aos instrumentais, é sempre aquela coisa, como eu disse, "feliz", "alegrinha", rápida, cheia de firulas de teclados e guitarras fazendo muita "fritação".
Claro, importantíssimo frisar, nem todas as bandas dos estilos citados investem em tais coisas. O Angra, por exemplo, até 1998, quando lançaram o incrível "Fireworks", era uma banda extremamente criativa, competente e ousada. Diferente de suas contemporâneas em vários aspectos. Mesmo não sendo fã do estilo, tenho grande respeito pelo que a banda fez até 1998. Todavia, após a saída de André Matos, acompanhado, na época, por Luiz Mariutti e Ricardo Confessori (recentemente de volta ao grupo), o Angra se tornou apenas mais uma banda de melódico na multidão – agora, com manias de tentarem soar prog metal. Rá!
Tenho de confessar, também, que, apesar de ter uma letra "bobinha", eu adoro "When Demons Awake" do Rhapsody (atual Rhapsody Of Fire), que tem riffs animalescos e uma agressividade atípica que o vocalista Fabio Lione emprega na canção. Outros sons do gênero que agradam meu ouvido são "Hunting High And Low", do Stratovarius, "Over The Rainbow", do Freedom Call, entre outros.
E, antes de começar minha análise de "Better Than Raw", gostaria de lembrar aos caros leitores que direito de opinião e liberdade de expressão são coisas garantidas pela Constituição da República Federativa do Brasil. E eu, como cidadão brasileiro, desfruto desse direito. Em segundo lugar, por favor, não comecem, no caso de discordarem de meus pontos de vista e, assim, odiarem-me, a querer me ensinar sobre objetividade e imparcialidade jornalística, ok, amigos? Afinal, não é objetivo do jornalismo de crítica e opinião, emitir, justamente, uma opinião sobre um objeto e fazer o leitor pensar e decidir por si próprio o que é bom ou ruim? Todavia, parece-me que pessoas intolerantes a opiniões adversas pretendem aniquilar a crítica cultural que ressalte pontos negativos de produtos dos quais são fãs incondicionais, e ficar, assim, apenas com aquilo que destaque e enalteça somente pontos positivos. Aí, sim, a crítica jornalística seria frouxa, babaca, medrosa e estaria de calças arriadas.
Sem mais delongas, vamos lá!
A canção que abre o álbum é uma pequena introdução instrumental de pouco mais de um minuto que se chama "Deliberately Limited Preliminary Prelude Period In Z". Seu clima é pomposo, glorioso, erudito. Aqui, o Helloween esbarra numa das manias que músico de metal melódico tem: querer mostrar ao mundo seu nível intelectual alto! Querem dizer que não são uns cabeças-ocas focados apenas em rock, que exploram outras musicalidades e horizontes. A musiquinha é chata e seria mais apropriada para desenho animado que pra abertura de disco de metal.
O restante das canções do disco pode ser separado em grupos:
No grupo das absolutamente irritantes e bobinhas, então "Push", "Falling Higher", "Lavdate Dominvn " e "Midnight Sun". As duas primeiras trazem uma velocidade instrumental e um Andi Deris categoricamente azucrinantes. Meu problema não é a velocidade. Eu ouço dezenas de bandas que trazem muita velocidade em seus sons, no entanto, o ritmo de "Push" e "Falling Higher", somado àquele vocal extremamente agudo, gritante e desesperado de Deris, fazem das canções um instrumento de tortura perfeito. As duas últimas, "Midnight Sun" e "Lavdate Dominvm" não são tão rápidas e Andi não exagera tanto, mas, mesmo assim, são chatinhas. Se você está procurando um som para animar a festinha de aniversário de seu filho, use "Lavdate Dominvm" que combina perfeitamente. Aliás, aqui aproveito para comentar o quanto algumas músicas do Helloween (e de outras bandas do mesmo gênero) podem ser tão alegrinhas que parecem ter sido retiradas da trilha dos Ursinhos Carinhosos. "Future World" ou "Eagle Fly Free" são exemplos absolutamente procedentes do que quero dizer. Eu não acho que isso seja rock e muito menos metal. Desculpem-me! Vocês não são obrigados a concordar, mas é o que eu penso.
"Hey Lord!", "Don’t Spit On My Mind", "Time" e "Revelation" integram o grupo das canções das quais mais gostei. As duas primeiras desse grupo trazem um clima que me lembrou alguma coisa do Hard Rock dos anos 1980, especialmente pelo refrão marcante de "Hey Lord!", o qual eu ousei cantarolar enquanto ouvia. "Time" é uma balada muito interessante, com alguns elementos mais modernos e uma ótima pegada de guitarra nos refrões. O solo da música também soa bastante inteligente e apropriado para a canção, sem falar na voz mais baixa de Andi, que, assim como em "Hey Lord!" e "Don’t Spit On My Mind", soa ótima. Eu o apontaria como um de meus cantores favoritos se ele investisse mais em tons baixos, como em sua performance em "In The Middle of A Heartbeat", lançada no "Master of the Rings", de 1994, música da qual eu gosto muito e cheguei até aprender a tocar no violão pra impressionar uma garota, certa vez. "Hey Lord", "Don’t Spit On My Mind" e "Time" são equilibradas, pesadas e com ótimos arranjos de Michael Weikath e Roland Grapow. E "Revelation", a última do grupo, é, sem sombra de dúvida, a melhor música do disco. Com mais de oito minutos de duração, a canção tem um riff absolutamente destruidor. A carga de peso e a distorção usada fazem desse um dos riffs mais espetaculares que ouvi nos últimos tempos. A música, mesmo trazendo trechos mais rápidos, tipicamente power metal, é um belo trabalho de inteiração e equilíbrio entre os músicos.
Em seguida e para finalizar, vem o grupo das inexpressivas: "I Can" e "A Handful Of Pain". Não são rápidas, Deris não exagera, não há fritação, mas também não há nada incrivelmente chamativo nessas faixas. Eu destacaria, apenas, o clima também oitentista de "I Can", que tem uma introdução um pouco semelhante à de "Future World".
Eu quero dizer a vocês que sou um sujeito absolutamente eclético, que ouve de Oasis a Overkill e de U2 a Death. Não me sentei aqui para avaliar melódico ou power metal, mas para investigar se "Better Than Raw" traz boa música ou não, com base, claro, nos meus referenciais para tal. No entanto, é inevitável, para fins de contextualização, falar de metal melódico e power metal e suas características e manias, já que banda anda no trilho de ambos os gêneros.
Posso dizer que encontrei, no disco analisado, músicas realmente bem interessantes e músicas absolutamente odiosas. Ressalto, também, que os músicos do Helloween são muito bons. Eles não precisam tocar na velocidade da luz ou gritar o mais alto que conseguirem para conceberem boas músicas. Gosto muito das linhas de baixo de Markus Grosskopf e das viradas que Uli Kusch faz na bateria nos álbuns dos quais participou. Um outro destaque do álbum é que as letras não se detém a falar de "Senhor dos Anéis", "duendes encantados", "fadas do dente", ou algo parecido. No entanto, penso que, tanto nos primórdios como atualmente, a obra do Helloween é, de fato, predominantemente viciada em temas bobinhos, em melodias infantis e em excessos, formando, muitas vezes, nada mais nada menos que um coletivo de abobrinhas. Um tanto apropriado, se levarmos em conta o mascote do grupo.
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