Resenha - Volts - Tomada
Por Marcos A. M. Cruz
Postado em 03 de dezembro de 2005
Não costumo reclamar da vida. Mas neste dia em especial tava meio de saco cheio - não que algo de diferente acontecera, mas é aquela coisa do dia a dia, pressão no trabalho, cheque especial no vermelho e um monte de contas no bolso, além dos problemas que em zilhões nos atazanam habitualmente.

Aproveitei que não trabalharia à noite e que o fim de tarde era mais ou menos convidativo, mais pelo clima e menos pelo meu (des)ânimo, e estacionei a moto na frente do bar de um amigo (todo dono de bar é um amigo em potencial), encostei no balcão e mandei vir uma gelada enquanto observava desatenciosamente o movimento passando pela rua.
Como todo boteco que se preza, logo surge alguém (ou o próprio balcãoman) comentando com indignidade o escândalo do momento, e dá-lhe opiniões inflamadas sobre mensalão, cuecão, ceroulão e o diabo a quatro, enquanto eu ia meio que concordando com tudo, pois não estava com a mínima vontade de defender pontos de vista divergentes, e além do mais tais assuntos me deixavam ainda mais desanimado.
Minutos mais tarde, antevendo que se nada fizesse nada aconteceria ali que pudesse me mover para fora da letargia mental, e aproveitando que poucos eram meus parceiros de cervejada vespertina no bar, lembrei que trazia na bolsa o novo disco do TOMADA, que acabara de receber, e pedi para meu amigo do peito rolar no som.
"Rocão?", perguntou-me. "Sim", assenti, dizendo que se tratava de uns conterrâneos nossos, e ele, embora não seja um roqueiro fanático como eu, é simpatizante do estilo, têm alguns discos, um histórico de presença em shows, etc.
Prá minha sorte, após colocar o disquinho no CD player, entrou algum conhecido dele que foi papear enquanto eu ficava entregue aos meus pensamentos. Quase que comecei a pensar no sentido da vida, mas meia dúzia de batidas levaram meu pensamento para outra direção:
TU-TU-TU-TU-TU
Em seguida, quase um riff de guitarra arma o tapete junto com uma cozinha (baixo e bateria, para quem não sabe...) bem legal para a primeira faixa do disco: "Um pé n'água fria / Baby, não me leve a mal / Um pé n'água fria / Só não venha pra ser igual"... Quem disse que água fria remete à ducha gelada? Que nada...
Na seqüência um rocknrollzão cuja letra parecia ter sido feita sob encomenda para aquele instante que eu vivia: "A vida passa lá fora / a chuva cai lá fora / A vida passa lá fora / E eu nesse café deixando passar a hora" - tá certo que não chovia e eu tampouco tomava café, mas enfim...
De repente achei que fosse rolar Mutantes ("As pessoas na sala de jantar / querem nascer, morrer / mas sabem amar"), ja que introdução de "Página 3" nos remete ao clássico de Ritinha & os irmãos Baptista, além do tema, que fala sobre relações entre pessoas.
"Minha dor não cicatrizou / Não sofri tanto por ti", quase uma baladinha soft, sensível, menos de dois minutos com uma gaitinha descolada fazendo contraponto com o vocal e instrumental quase acústico - provavelmente uma deixa para a entrada da faixa-título, cuja letra parece também ser uma resposta à anterior, já que aqui a situação meio que se inverte: "Não, não precisa chorar se eu for te deixar de vez / Porque nem tudo passa, baby / Nem tudo passará / Uns VOLTS na sua vida / pra não ficar perdida".
"O Buggy do Maluco não pode parar / O Buggy do Maluco de acelerar / O Buggy do Maluco é todo vermelho / O Buggy é maluco, não tem espelho". Pela letra dá p/sacar que se trata de uma vinheta divertida, com uma letra nonsense, intencionalmente fazendo um jogo de palavras com "Buggy" e "Boogie", seguida por uma introdução onde a guitarra imita o ronco de um veículo (carro? moto? trator?) e duas canções recheadas de riffs seguram a onda por cerca de dez minutos.
Neste instante pintou uma baladinha com uma levada meio Reggae - aproveitei para ir ao banheiro, nada contra o gênero, simplesmente não faz minha cabeça, mas se os caras curtem eu respeito. Quando voltei, o maior riffão saía dos falantes, e em seguida uma canção cuja letra celebra o vermelho da paixão ("Com seu vestido vermelho, me provocou / Com sua língua vermelha, me tirou do sério / Nem sei se ela quer / E eu nem sei seu nome / Meu Deus, que mulher!") - é isso mesmo que eu entendi ou a cerveja tava fazendo efeito?
Enquanto o som corria, fiquei contemplando o encarte, novamente imitando um LP tal qual fizeram no disco anterior ("Tudo Em Nome Do Rock'N'Roll"), e neste meio tempo já tava rolando uma ode à SP ("São Paulo, não sei viver sem você / São Paulo, que o grande Deus te abençoe").
Ainda rolava o último som, um Blues Mississipiano com letra falando sobre mulher e bebida, mas prá mim já era o suficiente. Paguei a conta, catei meu CD de volta, subi na moto e fui ver minha garota - que mané ficar pensando no sentido da vida, negócio é curtir o momento da melhor forma possível... Fui!
(P.S.: Um MUITO OBRIGADO a vocês, BEATLES, STONES, WHO, HENDRIX, JOPLIN, ZEPPELIN, SABBATH, PURPLE, GFR, FREE, HUMBLE PIE, FACES, CACTUS, MOUNTAIN, JAMES GANG, FOGHAT, JOHNNY WINTER, RORY GALLAGHER, SRV, MUTANTES, MADE IN BRAZIL, CASA DAS MÁQUINAS, PATRULHA DO ESPAÇO, BANDO DO VELHO JACK, BARANGA, CARRO BOMBA, TOMADA e muitos outros, que durante todas estas décadas vêm mantendo acesa a chama do Rock'N'Roll, mais que um gênero musical, um estado de espírito!)
Faixas:
Um pé n’água fria
Boggie do café
Página 3
Por ali ela não passou
Volts
Buggy do maluco
O asfalto queima
Têm dias
Só mais una vez
Puro prazer
Meu deus que mulher
SSP-SP
Blues da garrafa e meia
Duração: 46:25
Formação:
Marcelo Pepe Bueno (contrabaixo elétrico & guitarra havaiana)
Rodrigo Casais Gomes (guitarra, violão & baixo)
Keko Freire (bateria e percussão)
Ricardo Alpendre (cantor)
Website oficial: www.czpublicidade.com/tomada.
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