Resenha - Universe Will Provide - Mike Keneally
Por Nelson Endebo (O Capiroto Sabe!)
Postado em 20 de dezembro de 2004
Ter no currículo uma singela linha que diz "toquei com Frank Zappa" é um sinal deveras intimidador, afinal, gente do quilate de George Duke, Ike Willis, Bobby Martin, Chad Wackerman, Terry Bozzio, Vinnie Colaiuta, Adrian Belew e Steve Vai, entre muitos outros, já passou pela banda do excêntrico guitarrista americano. Imediatamente, a referência garante, pelo menos, técnica apurada e requinte na produção. Zappa era um perfeccionista atroz, sempre buscando músicos que fossem capazes de executar os sons que lhe viessem à mente, fossem eles triviais como uma breve e, muitas vezes, imperceptível passagem de guitarra ou sofisticados como arranjos de polirritmia para orquestras de sopro. Independente de suas (pequenas - é bom que se lembre) carências técnicas enquanto instrumentista, Frank Zappa foi uma das mentes mais inquietas de sua geração, um compositor compulsivo – sua discografia oficial tem mais de 60 álbuns -, de criatividade sem paralelos na história do rock, justamente por ter quebrado a ortodoxia rock com uma obra que abrange e conecta referências tão díspares como o vaudeville, free jazz, soul, música de câmara e doo-wop a um senso de humor absolutamente corrosivo.

Mike Keneally é, possivelmente, o discípulo com mais chances de levar a música de Zappa, revista e atualizada, à nova geração, com a imensa vantagem de não desfigurá-la, o que seria, em termos de zappismos, um desrespeito quase herético. Enquanto Steve Vai desenvolveu uma sólida e bem-sucedida carreira-solo adaptando sonoridades zappeiras em uma linguagem de guitarra acessível e performances ao vivo de planejamento duvidoso, Keneally segue o caminho inverso e, exatamente por esse motivo, muito mais recompensador para o ouvinte.
Com algumas dezenas de colaborações para outros artistas em seu histórico, incluindo o posto de sideman na banda de Steve Vai, e sete álbuns com seu nome em alto relevo, alguns deles acompanhado de sua banda Beer For Dolphins, Mike Keneally chega ao ano de 2004 lançando seu mais ambicioso trabalho até hoje.
"The Universe Will Provide" é o resultado da parceria entre Keneally e a Metropole Orkest, da Holanda. Nele, brilham a guitarra e o teclado faiscantes de Mike e seus arranjos maravilhosamente desconjuntados escritos para a orquestra, com cerca de 50 membros. É música livre de rótulos, imprecisa e deliciosa de se ouvir. Tem semelhanças com os trabalhos "sérios" de Frank, como "The Yellow Shark" e "Orchestral Favorites", com o diferencial de que as estruturas, aqui, são menos rígidas e criam camas para que todos os instrumentistas se destaquem individualmente, com todos os lauréis possíveis para o excelente baterista Arno van Nieuwenhuize.
Uma peça de 50 minutos, que foi dividida em 13 faixas simplesmente por convenções impostas pela maneira com que aprendemos a consumir música. "The Universe Will Provide", no entanto, está além disso. É música em estado bruto, que destrói padrões e transcende parâmetros de indústrias e esquemas mil. 50 minutos de que Zappa, certamente, se orgulharia e, emocionado, coçaria o famoso bigode em tom de aprovação.
Curiosidade de fã: nos segundos finais do disco, há uma rápida referência ao AC/DC. Ouça e descubra!
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