Resenha - OK Computer - Radiohead

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Por Fabrício Boppre
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"Ok Computer" é a obra-prima do grupo inglês Radiohead, tendo sido escolhida pelos leitores da revista Q, em 1997 (ano do seu lançamento), como o melhor álbum de todos os tempos. Os outros dois discos da banda são também muito bons, "Pablo Honey", de 1993, e "The Bends", de 1995. Mas não vão muito além daquilo que a banda parecia propor ser, ou seja, uma banda de rock alternativo, com excelentes músicas, mas todas, digamos, normais e convencionais, nos padrões atuais (sendo que nestes dois primeiros discos, o vocalista e compositor Thom Yorke já mostrava talento para escrever letras tristes e auto-depreciativas).

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Mas em "Ok Computer" eles extrapolam tudo aquilo que já haviam feito. As letras e temáticas continuam as mesmas, mas, musicalmente falando, é algo muito superior, e, porque não, a frente de seu tempo. Belíssimas melodias, músicas com estruturas mais complexas, uso bem dosado e extremamente harmonioso (sim, isso é possível!) de elementos eletrônicos, teclados bem encaixados, atuações inspiradíssimas de todos os membros da banda (principalmente Thom nos vocais) e excelentes letras fazem desse disco uma obra inesquecível.

Vale falar um pouco mais das letras escritas por Thom Yorke. Elas vão muita além da rebeldia sem causa mostrada pela maioria das bandas de rock desses últimos tempos. Thom demonstra nelas certo desprezo pelo mundo atual, pelo modo de viver das pessoas, enfim, pelo dia-a-dia típico dos humanos desse final de século. "As pessoas acordam cedo demais para sair de casas onde não gostam de morar, para ir a um trabalho do qual não gostam, em um dos meios de transporte mais perigosos do mundo (carro)", disse ele certa vez. Em suas letras ele quase sempre deixa evidente esse seu descontentamento, mas de uma maneira meio que conformada, sempre pregando uma fuga a tudo isso, para se levar uma vida simples e espiritual (muito diferente da vida que ele efetivamente leva, sendo um "rock star").

Praticamente todas as músicas de "Ok Computer" impressionam pela sua beleza. Começando por "Airbag", com seu andamento paranóico, baixo entrecortado, efeitos eletrônicos esquisitos, e que possui uma letra estranha em que Thom fala de outra de suas fixações (ligada diretamente com aquela do dia-a-dia do homem moderno): acidentes de carro. "In a fast german car, I'm amazed that I survived, an airbag saved my life", canta ele no final da música. Não é a primeira música do Radiohead que usa esse tema. A segunda, "Paranoid Android", é o grande destaque do álbum: belas melodias (sim, são mais de uma), excelente trabalho de guitarras e uma estrutura diferenciada, como se fosse dividida em movimentos, tendo, inclusive, sido taxada por muitos como uma típica música de rock progressivo. "Subterranean Homesick Alien" também é ótima, com bela melodia e instrumentos bem atmosféricos (outra característica notada ao longo do disco inteiro), e, pra variar, lirismo no mínimo curioso ("I'd show them the stars and the meaning of life, they'd shut me away", lamenta Thom Yorke mais uma vez mantendo um certo distanciamento da humanidade). "Exit Music (For a Film)" é a canção mais triste do disco, onde Thom mostra explicitamente sua vontade de fugir de um mundo no qual ele definitivamente não se encaixa. Essa faixa tem um clima realmente melancólico e intimista, com uma belíssima interpretação do vocalista, que mostra ter controle total de sua voz. "Let Down" é outra canção extremamente inspirada, de uma beleza etérea, com seu instrumental envolvente acompanhando de maneira perfeita o vocal, como se ambos fossem uma coisa só. Nela, mais uma vez ouvimos Thom Yorke lamentar a vida, e, em um trecho que deve entrar pra história, dizer "One day, I'm going to grow wings, a chemical reaction, hysterical and useless". Nesse momento, toda a música parece mudar de maneira sutil, e um clima de quase imperceptível alegria e "reação" diante de tanta frustração domina, em nova sintonia perfeita de instrumentos e vocais. E o ouvinte? Bem, o ouvinte a essa hora está nas alturas! A próxima, "Karma Police", também é linda, com uma base de violão e piano bem simples. "Fitter Hapier" é a música (?) mais estranha do disco, mas que é perfeitamente compreensível conhecendo-se Thom Yorke. "Electioneering" é bem alegre e empolgante, além de ser a mais acessível do disco, com cara de hit radiofônico (sem que isso signifique que ela seja simplesmente "legal", como a maioria dos hits comerciais). No contagiante refrão, Thom canta: "When I go forwards, you go backwards, and somewhere we will meet". "Climbing the Walls" também é excelente, com muito clima e andamento hipnótico. "No Surprises" é uma bela balada que tem na sua letra o seu ponto ponto forte, pois representa perfeitamente o que se passa na cabeça do atormentado vocalista . "I'll take a quiet life. Such a pretty house, Such a pretty garden. No alarms and no surprises" chora ele no refrão. "Lucky" também é belíssima, com um lindo refrão acompanhado perfeitamente pela guitarra cheia de melodia. Thom parece ter um acesso de alegria em meio a tanta tristeza e decepção: "It's gonna be a glorious day! I fell my lucky could change". "The Tourist" fecha perfeitamente essa obra-prima: mais uma canção hipnótica e climática, com letras e vocais inspirados, melodia triste e cadenciada, outra música inesquecível.

Resumo da ópera: um disco muito bonito, que vai além das fronteiras do rock praticado atualmente. Isso pode não parecer nada simpático, mas esperamos que Thom Yorke continue sendo um cara muito triste e depressivo, para que assim continue nos presenteando com trabalhos como esse!




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