Resenha - Pornography - Cure
Por Karina Belotti
Postado em 05 de março de 2000
"Se eu fizesse tudo aquilo que escrevo estaria preso ou morto". Robert Smith é um cara desajeitado, tímido, desencanado, que se veste da mesma maneira há muitos anos, com roupas compradas pela sua esposa Mary (uma namorada dos tempos do colégio). Nada de etiquetas, nada de modismos, Robert Smith é avesso aos rebuliços da imprensa britânica, e prefere controlar com mão de ferro o único filho que tem: The Cure.
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Uma razão para uma banda figurar na discografia básica poderia ser sua longevidade - e o Cure tem, afinal, 23 anos. Outra razão poderia ser sua carreira consistente - e o Cure, na verdade, é Robert Smith. Senão, como explicar a existência do Cure em meio a dezenas de formações, continuando a produzir o bom pop nos seus momentos mais inspirados?
O Cure, na opinião dessa humilde resenhista, mereceria dois álbuns na discografia básica, pois a carreira do Cure pode ser vista em dois momentos. Um antes da fama nos Estados Unidos (não que eles já não fossem conhecidos por lá, mas numa dimensão menor), outro depois. O marco divisório é o álbum "The Head On The Door" (1985), praticamente uma coleção de hits, que catapultou a banda para o mundo. Antes disso, o Cure obteve sucesso local na Inglaterra, transitando entre o pop, o gótico e o eletrônico, o experimentalismo e a depressão, que gradualmente deixaram de ser a tônica dos seus trabalhos a partir de 1985.
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Contemplei um disco representativo dessa primeira "fase", responsável pela adoção do Cure pelos "darks". É um disco sem grandes hits, mas é algo que todo interessado em pop britânico dos 80 poderia ter em casa.
"Pornography" (1982) fecha o que considero "trinca soturna" do Cure. O primeiro álbum da banda, "Three Imaginary Boys" (1979), apontava para dois caminhos: o pop irônico, levemente punk e melodioso; e o pop deprê, cheio de climas desenhados por guitarras lânguidas.
Robert Smith, vivendo problemas pessoais, decidiu enveredar por essa "floresta" de sons psicodélicos : "17 Seconds" (1980), "Faith" (81) e "Pornography" (82), mantendo uma certa unidade. Em Pornography, a depressão apóia-se no pop com perfeição. Depois, em 83, Bob Smith viaja para o Oriente e experimenta sons eletrônicos : "Japanese Whispers" e "The Top"(1984) seguem com um pé no pop dançável, e outro pé na lamentação cabisbaixa. Assim, em "Pornography", seria a última vez em que Bob "sang out loud we all die". Tamanha tristeza, só em "Disintegration" (1988).
"Pornography" inicia com "One Hundred Years" - 100 anos de guerra, em que não importa se todos nós morremos; é uma das mais fortes do álbum, com seu riff paranóico, teclados sombrios, baixo pronunciado - praticamente um épico do gótico. "Short Term Effect" e "The Hanging Garden" são as mais psicodélicas, não somente pelas letras ("A day without substance/ a change of thought/ an atmosphere that rots with time/ colours that flicker in the water/ a short term effect" _ Shor Term Effect; ou "Creatures kissing in the rain / shapeless in the dark again / in the hanging garden please don’t speak / in the hanging garden no one sleeps" - The Hanging Garden), mas também pelos arranjos. Destaque para a última, única faixa incluída na coletânea "Standing On The Beach-The Singles" (86).
Amor e ódio - "Siamese Twins"? Bob Smith baixa a guarda e produz a mais arrastada canção, angustiado por uma relação suicida - is it always like this? Everything falls apart / broken inside me / it falls apart...
A mais forte é "The Figurehead", em que a banda dosa muito bem a tensão e a melancolia com pleno domínio do pop - sombrio sem ser arrastado.
Em seguida, a mais bela, "Strange Days", é uma balada no estilo Cure - de arrepiar do início ao fim, com um refrão fantástico ("And the sand and the sea grows/ I close my eyes/ move slowly through drowing waves/ going away on a strage day"), respaldado por um trabalho de guitarra impecável, e uma letra cheia de imagens e associações envolventes, mas cujo significado é confuso, dando espaço para a imaginação do ouvinte.
Após a beleza, "everything is cold as life" - a coisa fica deprê mesmo em "Cold", a mais fúnebre, mas não menos interessante : ice in my eyes/ and eyes like ice don’t move...uma bela melodia em meio à trilha de cemitério.
Por fim, a parte mais experimental do álbum, a faixa título "Pornography", com certeza é uma bad trip, psicodélico do revertério, altamente esquizóide.
Poucos discos revolucionaram o pop e, sem dúvida, "Pornography" não foi um deles. A tarefa do Cure, porém, foi (e continua a ser, de certa forma) manter o bom pop vivo de diferentes maneiras ao longo de sua carreira. "Pornography" é um registro datado de como manter a beleza em meio à desesperança.
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