Resenha - Electric Ladyland - Jimi Hendrix Experience

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Por Marcos A. M. Cruz
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Quando ouvimos falar em JIMI HENDRIX automaticamente evocamos uma das duas imagens: Monterey, onde ao final de uma antológica apresentação sacrifica sua guitarra em meio às chamas, ou Woodstock, expurgando o absurdo do Vietnã numa contundente interpretação do hino nacional americano entremeada de alusões a combates que aconteciam naquele exato momento a milhares de quilômetros de distância.

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Porém foi longe dos palcos e das multidões que acometiam aos shows aguardando algum tipo de pirotecnia que ele dava uma vazão ainda maior ao seu impulso criativo: entre as quatro paredes de um estúdio.

Em seu álbum de estréia ("Are You Experienced?") temos o "Experience" (Mitch Mitchell na bateria e Noel Redding no baixo) transpondo para o vinil a energia em estado bruto que aflorava em suas apresentações ao vivo, e já neste disco nota-se a disposição de Hendrix em experimentar todos recursos de estúdio possíveis na época, aliado à verdadeira proeza realizada por Eddie Kramer, engenheiro de som que acompanharia Hendrix pelo resto de sua carreira, que conseguiu registrar toda crueza da banda em parcos quatro canais. A seguir veio o "Axis: Bold As Love", no qual a musicalidade do power-trio vem de forma um pouco mais polida e as letras mais líricas, ao mesmo tempo em que expande ainda mais a experimentação sonora contida no disco anterior.

Contudo no "Electric Ladyland" Hendrix foi muito mais fundo, pois além de não sofrer a pressão por resultados imediatos tal qual nos primeiros álbuns, ainda por cima assumiu total controle da produção e direção dos trabalhos em estúdio. Soma-se a isso toda efervescência experimental/sensorial que pipocava na época, e que Jimi, já alçado à condição de "superstar", absorvia como uma esponja, expandindo-as ainda mais, em parte graças ao uso de drogas, principalmente alucinógenas, que ajudavam a "abrir os canais de percepção".

O Experience já se encontrava em franco processo de desintegração, pois Hendrix e Redding já vinham divergindo a algum tempo, e nas sessões de gravação as coisas pioraram ainda mais, pois pela primeira vez contavam com diversos músicos convidados, tais como Steve Winwood (TRAFFIC) e Jack Casady (JEFFERSON AIRPLANE). Na realidade o clima nas gravações era um tanto quanto anárquico, pois freqüentemente o pessoal emendava longas jams que começavam no estúdio e terminavam em algum clube local.

Porém isto não significa que tudo foi feito "nas coxas", pois Hendrix passava por uma fase extremamente detalhista, fazendo com que vários takes fossem gravados até a exaustão, e consumindo muitas e muitas noites trancafiado no estúdio ao lado de Eddie Kramer no processo de mixagem.

O álbum (originalmente duplo) abre com "And The Gods Make Love", experimento sonoro feito a partir da superposição de diversos vocais e solos de guitarra distorcidos, amplificados e alterados, como que à nos preparar para o que encontraremos pela frente; segue com "Have You Ever Been (To Electric Ladyland)", no qual Jimi nos convida para uma "viagem" pelo seu território (você já esteve na terra da dama elétrica?/ o tapete mágico está te esperando/ por isso não se atrase/ quero lhe mostrar diferentes emoções/ quero conduzir-te através de sons e movimentos/ a mulher elétrica nos espera/ está na hora de partir...) ok, partamos então!

Passamos pelo rock vigoroso de "Crosstown Traffic" - como que a nos indicar que ainda estamos na cidade a caminho - e temos "Voodoo Chile" - verdadeiro blues urbano baseado em "Catfish Blues" - no qual Hendrix nos fala de suas raízes (sou um filho de Voodoo/ na noite em que nascí/ juro que a lua se tornou um fogo vermelho). Depois vem "Little Miss Strange" de autoria de Noel Redding, "Long Hot Summer Night", "Come On (Let The Good Times Roll)" de autoria de Earl King, "Gypsy Eyes" e a melódica "Burning Of The Midnight Lamp" no qual Jimi retoma um pouco do lirismo do álbum anterior (a manhã acabou/ e o dia também/ não há mais nada/ exceto a lua aveludada/ hoje eu sentí toda minha solidão/ pois é demais/ fazer um homem suportar a sí próprio/ e eu aquí sozinho vendo as horas passando).

Em seguida "Rainy Day, Dream Away", e "Still Raining, Still Dreaming", que se tratam praticamente da mesma faixa - porém entre elas de repente é como se abrisse uma janela que nos levasse para outra dimensão com "1983... (A Merman I Should Turn To Be)" e "Moon, Turn The Tides... Gently, Gently Away", uma longa suíte impregnada de experimentalismo e psicodelia, antecipando o que viria a ser chamado de "Rock Progressivo" na década seguinte.

Prosseguimos com "House Burning Down" - servindo de prenúncio para outro ponto alto do disco, uma versão inspiradíssima de "All Along The Watchtower" de BOB DYLAN, que inclusive anos depois passou a interpretá-la numa roupagem "Hendrixniana". E para fechar o álbum com chave de ouro temos "Voodoo Child (Slight Return)", onde o ciclo se fecha e Jimi estranhamente parece anunciar seu futuro próximo (se eu não lhe encontrar mais neste mundo/ tentarei no próximo/ não se atrase).

Na época Hendrix sugeriu uma capa no qual constava uma foto do Experience (feita pela Linda Estman - mais tarde Sra.McCartney), porém no lançamento inglês da época a gravadora optou por outra foto no qual aparecem 19 garotas nuas - reproduzida aquí pois embora contra a vontade de Jimi foi com essa capa que esse álbum ficou marcado.

O título do álbum também batizou o estúdio que Hendrix construiu em Nova Iorque - e praticamente não chegou a usar.

Jimi não foi o guitarrista mais técnico nem mais rápido que houve na face da Terra - mesmo àquela época já haviam monstros sagrados a nível de técnica (Jeff Beck) ou a nível de velocidade (Alvin Lee), por isso algumas pessoas estranham todo o mito que criou-se sobre sua pessoa.

Porém, sua arte só pode ser compreendida se compartilharmos das mesmas palavras dele em "Are You Experienced?" (se você pode se concentrar/ então venha junto comigo/ daremos as mãos e assistiremos o nascer do sol/ do fundo do mar/ mas antes diga-me/ já experimentaste?/ bem, eu já).

Ou como disse Francisco Beato numa matéria para a revista VIP Exame em outubro de 97: "Hendrix é como o primeiro trago em um havana, o primeiro gole de Jack Daniel's, a noite inaugural de sexo com aquela namoradinha do colégio: você estranha, acha o sabor áspero e pode até se decepcionar, respectivamente. Depois de algum tempo, aprende a gostar e jamais esquece!"

Track List:
... And The Gods Make Love
Have You Ever Been (To Electric Ladyland)
Crosstown Traffic
Voodoo Chile
Little Miss Strange
Long Hot Summer Night
Come On (Let The Good Times Roll)
Gypsy Eyes
Burning Of The Midnight Lamp
Rainy Day, Dream Away
1983... (A Merman I Should Turn To Be)
Moon, Turn The Tides... Gently, Gently Away
Still Raining, Still Dreaming
House Burning Down
All Along The Watchtower
Voodoo Child (Slight Return)

Jimi Hendrix: Vocais, guitarra
Noel Redding: baixo, vocais
Mitch Mitchell: bateria

músicos convidados:
Stevie Winwood (órgão)
Mike Finnigan (órgão)
Jack Casady (baixo)
Al Kooper (piano)
Freddie Smith (sax)
Larry Faucette (congas)
Buddy Miles (bateria)
Chris Wood (flauta)

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