Resenha - Best Of Beck - Jeff Beck

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Por Carlos Swancide
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Nota: 10


Ano: 1995

Qualquer obra de Jeff Beck é um desafio ao mais eclético e esforçado dos críticos.

Gênio instintivo que não se recusou jamais a estudar arduamente todas as possibilidades de seu instrumento, Beck ainda possui uma capacidade inventiva igualada apenas pelas de Jimi Hendrix e Frank Zappa. Rigorosamente, muito poucos estilos escaparam ao impulso inesgotável do 'guitarrista dos guitarristas' - do blues dos primeiros dias, passando pelo hard rock proto-heavy metal dos Yardbirds, à psicodelia guitarreira do Jeff Beck Group, o suingue pesado do Beck-Borget-Appice, o jazz-fusion dos anos 70,o soft-rock dos 80, chegando até as incursões pela eletrônica no fim dos anos 90. Boa parte da trajetória da música ocidental pós-2a Guerra pode ser traçada a partir das 6 cordas das diversas guitarras do mestre de Surrey, Inglaterra.

Que dizer, então, de uma coletânea de um tal artista? Inicialmente, ela não poderia assumir as feições de um 'Greatest Hits', já que Beck, ao contrário de seus grandes amigos Jimmy Page e Eric Clapton, jamais experimentou grande sucesso comercial. Tampouco poderia pretender resumir uma carreira tão vasta nos limitados 75 minutos de um CD simples - muitas canções representativas ficaram assim de fora, como a fabulosa caixa 'Beckology' (3 Cds) demonstra. Mesmo dessa forma, o disco é uma obra banhada a ouro, flutuando léguas acima das citadas limitações - grandes canções, performances inacreditáveis, músicos acima de qualquer suspeita e momentos verdadeiramente comoventes.

Como a música que abre o disco, THE PUMP (1980). O ritmo marcial da bateria de Simon Philips engana - logo em seguida Beck cria epifanias curtas, harmonias etéreas, prazeres infindáveis. Uma das melhores coisas que um ser humano conseguiu fazer com uma guitarra até hoje. É de dar asas à imaginação pensar o que seria do mundo caso Beck houvesse aceitado o convite para substituir Syd Barrett no PINK FLOYD em 1968...

Em seguida, PEOPLE GET READY (1985), do soulman Curtis Mayfield, eleita recentemente uma das 7 melhores músicas do século. Com Rod Stewart nos vocais, Beck realiza uma versão respeitosa e de alto nível, mesclando a técnica de sempre com um feeling insuperável.

Logo, FREEWAY JAM (1974). Se o Jazz tivesse uma 'Highway Star', seria esta música. De assustar o que Beck & Cia. conseguem aqui - precisão, técnica, encadeamento impecável, melodias incríveis, quebras de andamento que fariam um Dream Theater se arrepiar. Incrível mesmo é o modo como ele faz o Jazz soar Hard Rock!

Depois, uma releitura de SHAPES OF THINGS, da sua ex-banda YARDBIRDS. Essa versão de 1968 foi gravada com essa humilde formação: ROD STEWART nos vocais, RON WOOD (Rolling Stones) no baixo e AYSLEY DUNBAR na batera. O resultado não podia ser outro - excelente.

WHERE WERE YOU (1989) é da fase na qual Beck usou a Stratocaster 'como veículo ideal para expressar todo o leque das emoções humanas', nas palavras do próprio. É um show de trêmolos e alavancas, mas que nunca soa indigesto. Mágica é fazer música com poucos elementos e Beck, aqui, enfeitiça os mais céticos.

BECK'S BOLERO (1967) foi composta para Beck por Jimmy Page, seu amigo e ex-companheiro de Yardbirds. É uma das mais belas instrumentais da História e pode ser apontada como precursora do Heavy Metal. Polifacetada, seus múltiplos movimentos só poderiam soar coesos nas mãos dele - o guitarrista dos guitarristas.

GOING DOWN (1972) é Hard Rock setentista, na linha do Lynyrd Skynyrd. Se o resultado não soa melhor é por falta de vocais mais marcantes - a guitarra é qualidade garantida.

JAILHOUSE ROCK (1969), obra-chave na carreira do 'Rei Do Rock' Elvis Presley, aqui recebe pinceladas de Jazz-Rock. Os vocais (de novo) ficam devendo, mas a guitarra compensa com solos esquizofrênicos que lembram até outro gênio, Robert Fripp. Só que essa faixa foi gravada ANTES do King Crimson lançar seu primeiro disco...

GOODBYE PORK PIE HAT (1975), do jazzista Charles Mingus, não é transformada em Hard Rock. Mas o resultado é bom assim mesmo. Beck não deixa a peteca cair mesmo nos momentos mais 'ortodoxos'.

BLUE WIND ao vivo (1976), seria de se esperar, não poderia soar tão boa quanto a versão de estúdio, uma das 2 ou 3 melhores canções da carreira do mestre. Mas o resultado impressiona. O tecladista Jan Hammer executa uma excelente performance em seu inigualável duelo com a envenenada Strato de Beck. E, no meio de um solo extenso, o mestre das 6 cordas ainda solta THE TRAIN KEPT-A-ROLLIN, clássico imortal dos Yardbirds...precisa falar mais?

PLYNTH (WATER DOWN THE DRAIN) (1969) traz de volta o Hard Rock. Os vocais ainda precisam de uma melhorada, mas os vigorosos riffs poderiam estar nos melhores discos de Deep Purple ou Led Zeppelin. A bateria de Cozy Powell é outro destaque.

TWO RIVERS (1989) é uma balada instrumental que nunca desaponta os fãs do guitarrista. Comove sem ser piegas ou apresentar solos intermináveis e melosos. É harmonia para o coração, forjada a feeling puro - quem poderia reclamar?

SCATTERBRAIN (1974) consegue fundir Jazz, Hard Rock, psicodelia e virtuosismo. É das faixas mais impressionantes do disco - e no entanto há tantas outras! Perfeita para acabar com qualquer dúvida que pudesse existir depois de uma audição desse tipo...

SHE'S A WOMAN (1974), composta pela dupla de ouro - John Lennnon e Paul McCartney - teve o luxuoso auxílio do maestro George Martin durante as gravações. E Beck ainda teve a ousadia de fazer uma versão REGGAE que soa maravilhosamente bem! Só mesmo ele, cantando (com o auxílio de um vocoder) e tocando como sempre, para fazer dos Beatles reggae e ainda soar personalíssimo e sofisticado. Grand finale!

Depois de ouvir essa obra incrível, só há duas possibilidades - o ouvinte vai correr atrás dos discos originais ou vai empunhar uma guitarra e tentar tocar como o mestre. Impossível haver decepções nesse mar de maestria.




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