Resenha - Gold - Ryan Adams
Por Guilherme Rodrigues
Postado em 18 de julho de 2002
Ilustre desconhecido no Brasil (e exatamente por esse fato confundido por lojistas e público em geral com Bryan Adams), Adams vem sendo o "darling" de grande parte da mídia especializada norte-americana nos últimos três anos; mídia esta que já o batizou com os rótulos mais esdrúxulos do vernáculo de Charles Dickens: "o novo Bob Dylan", "o Springsteen dos 90s", "o Tom Petty do alt-country"... nada de se estranhar numa imprensa que vive à procura da próxima "grande novidade" e que espalha pelos quatro cantos do mundo que The Strokes é a coisa mais original surgida nos últimos anos...

No caso de Ryan, o exagero tem certo fundamento... cantor e compositor de mão cheia, Adams despontou no cenário alt-country dos 90s como frontman da Banda Whiskeytown, com a qual lançou bons discos, vide "Faithless Street" e "Stranger's Almanac". No último trabalho da banda, "Pneumonia", Ryan já dava mostras da mudança de rumos na temática de suas letras, bem como do amplo espectro de influências que viria a ser indelével em seu trabalho solo... terminada a Banda, Adams varou os USA em busca de suas crossroads, deu uma parada em Nashville e gravou o primeiro solo, "Heartbreaker"... um disco dominado por uma melancolia pouco usual para um sujeito de vinte e poucos anos.... dizia Elvis: "você não aprende o blues, você nasce com ele e para ele" (uma pena o próprio Elvis ter se esquecido disso)... pode ser, mas além da melancolia, "Heartbreaker" estampou a acentuada maturação artística que Ryan sofreu no intervalo dos dois anos havidos desde que largou sua antiga Banda... essa evolução não passou despercebida pelos seus pares, nem pela crítica e público... todos agraciaram o trabalho com todas as loas disponíveis...
Ryan, então, curtiu a fama de gênio, varou novamente os EUA de costa-a-costa, teve affairs com Wynona Rider e Alanis Morrisette (nem sei se isso é algo de que ele deva se orgulhar) e conheceu vários dos ícones que nutriram sua dieta musical, indo de Mick Jagger e Aretha Franklin a Elton John (Elton, impressionado com o "talento" do mancebo, chegou mesmo a atribuir a "Heartbreaker" a inspiração para voltar a priorizar melodias que estruturassem um álbum ao invés dos hits super-produzidos esparsos e chatos à toda prova, gerando seu melhor trabalho em décadas, o ótimo "Songs from the west coast"), além de assinar com um selo que lhe deu todas as condições instrumentais e logísticas para realizar um "grande" disco...
Colhido em meio a tantas "aventuras" e prolífico como ele só, Ryan começou a esboçar os rudimentos do que viria a se tornar seu segundo disco solo... compôs mais ou menos 60 canções, escolheu dezesseis delas, chamou o amigo Adam Duritz (aquele vocalista enjoadinho dos Counting Crows) e o ótimo guitarrista Chris Stills (pudera, Chris é filho do legendário Stephen Stills, que além de monstro da guitarra, fez parte de uns tais Crosby, Stills, Nash & Young) para o ajudarem na empreitada, cantou e produziu o álbum junto de Ethan Johns, sapecando uma capa pra lá de duvidosa e um título pra lá de ambicioso no disco: "Gold"... a estranheza logo se desfaz, já que o disco realmente vira o mapa musical dos USA de ponta-cabeça, passando pelo blues, folk, gospel, rhythm & blues, soul, até chegar no rock e pop, todos os estilos executados com entusiasmo e personalidade incomuns.
Lançado o disco, contudo, as opiniões de crítica e público desta vez não foram unânimes, revezando elogios irrefutáveis com duras (e injustas) críticas a uma suposta falta de identidade.
Se você quer um disco que estabeleça novos "parâmetros" para o pop/rock do novo milênio, ou a "próxima grande coisa do rock alternativo", certamente "Gold" não deve ser sua escolha... muitas outras Bandas já anteciparam a sonoridade de "Gold" (Son Volt, Wilco, Jayhawks, por exemplo), e composicionalmente não é nenhuma novidade artistas que bebam do sangue das veias de Dylan, Springsteen, Van Morrison, Parsons e Young... no entanto, é inegável que Ryan codifica influências e idéias muito peculiarmente, sacando do bolso letras ora sutis, ora cortantes (por vezes inconclusivas, mas quase sempre interessantes) e melodias e interpretações inesquecíveis com a prodigalidade de um irresponsável... como falar mal de um disco que de dezesseis canções, tem pelo menos doze irrepreensíveis?
É certo que Ryan ainda não equacionou sua ambição e seu talento, mas é admirável a coragem e a gana com que busca esse equilíbrio... no meio do caminho criou um primor de disco, onde ressalta seu lado performático; ele resvala em (quase) todos os clichês do rock, mas sua interpretação é tão crível, ávida e vigorosa que os torna em algo original.... "Gold".
Vida longa, Ryan!
Entre os cinco discos indispensáveis de 2001.
P.S.: uma estorinha: Bono teria desafiado alguém a fazer, em 2001, um disco de rock tão "bom" quanto "All that you can t leave behind".... Um mês depois do lançamento de "Gold", Bono já havia dado a mão à palmatória, cantando "When The Stars Go Blue" em programas de rádio e eventualmente em alguns shows.
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