Resenha - Musique - Theatre of Tragedy
Por Fabricio Boppre
Postado em 17 de novembro de 2000
Nota: 8 ![]()
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É sempre difícil resenhar uma banda que mudou significativamente seu estilo no disco em questão. Nessas situações, é fundamental tentar descobrir se a música da banda sofreu essa mudança naturalmente, em virtude do amadurecimento e evolução de seus músicos, ou se é apenas uma jogada de marketing para se manter na moda ou então adentrá-la, no caso das bandas que estavam, digamos, no vermelho. Obviamente, o primeiro caso é bem mais digno de crédito, e geralmente resulta em obras honestas e de qualidade, ao contrário do segundo caso.
O Theatre of Tragedy está no primeiro time, e com o lançamento de "Musique" – o quarto disco dessa banda norueguesa – a banda confirma de vez a condição de adepta da mudança de sonoridade em prol da evolução e amadurecimento musical, acontecimentos que resultam em maior liberdade de composição e desvencilhamento completo das amarras que prendem 99% das bandas de metal à cartilha deste estilo. Infelizmente, nos dias de hoje, nenhuma banda consegue sair ilesa ao cometer tal ousadia, e com o ToT não é diferente: aposto minha coleção de discos que muitos fãs antigos deixaram de ter o ToT como banda preferida, e talvez isso já aconteça desde o disco "Aegis" (1998), o terceiro da banda, que já apresentava diferenças em relação àquilo que o grupo apresentou nos dois primeiros trabalhos, "Theatre of Tragedy" (1995) e "Velvet Darkness They Fear" (1996). Esses dois discos, sozinhos, fizeram a banda ganhar milhões de fãs que viajavam nas melodias tristes e cadenciadas do grupo, que ficavam ainda mais especiais com os vocais inspiradíssimos de Liv Kristine. E provavelmente "Musique", sozinho, faça boa parte desses fãs esquecerem o ToT.
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Mas vamos ao fato: basicamente, a mudança no direcionamento musical do ToT resume-se ao uso – intenso – de elementos eletrônicos nesse novo disco. Como foi dito acima, "Aegis" já mostrava (de maneira bem mais sutil) que a banda estava aos poucos apostando em outras sonoridades e mudando gradualmente seu estilo. Estilo esse que, diga-se de passagem, foi forjado pelo próprio ToT e fez surgir várias excelentes bandas como Tristania, Dreams of Sanity, Trail of Tears e deu também um empurrãozinho à outras bandas cujo estilo é diferente, mas que também possuem mulheres nos vocais, e por isso eram vistas com certo preconceito. Afinal, o metal ainda é inegavelmente terreno masculino, e mesmo a atenção prestada atualmente à cantoras como Liv, Anneke (The Gathering), Tarja (Nightwish) e Cristina (Lacuna Coil), está longe de mudar esse injusto placar.
De qualquer maneira, o ToT foi um dos responsáveis pela idéia mágica (ainda que tardia) de aproveitar vocais femininos doces e tecnicamente irrepreensíveis no metal, e hoje se dá ao direito de fazer o som que quer, como bem prova "Musique". Os vocais masculinos guturais que contrastavam com os femininos angelicais ficaram para trás, e agora a banda abusa da fórmula vocal-masculino-nos-trechos-eletrônicos-com-toneladas-de-sintetizadores-e-vocal-feminino-nos-refrões-pesadões-e-cheios-de-melodia. Os masculinos, a cargo de Raymond Rohonyi (que também cuida dos "computadores" do disco), são invariavelmente alterados por efeitos eletrônicos. E no que diz respeito aos refrões, a banda continua afiada, e pelo menos nesse quesito deve continuar agradando todos seus velhos fãs: as guitarras de Frank Claussen estão excelentes, pesadas e limpas (méritos da produção cristalina e equilibrada), em perfeita harmonia com os belíssimos vocais de Liv Kristine. Ao longo das 12 faixas de "Musique", essa é basicamente a postura da banda, e gostar ou não disso vai do grau de tolerância que cada um dispensa quanto ao uso de influências eletrônicas no metal. Na verdade, essa estrutura básica das músicas é repetida tanto ao longo do álbum, que pode até incomodar um pouco mesmo aqueles que gostam – ou pelo menos não se importam – com os famosos barulhinhos eletrônicos e bases computadorizadas. Mas a banda mostra-se bem a vontade ao criar cada uma das composições, e isso faz com que, no final das contas, o saldo seja positivo.
Os destaques ficam por conta das seguintes faixas: "Crash / Concrete" (a mais metal de todas); a belíssima "Reverie"; a empolgante faixa-de-abertura "Machine"; "Image" (cujo refrão nos remete diretamente à uma banda que parece ser grande influência do ToT atual, o Sisters of Mercy); a hipnotizante e sem guitarras "Space Age" (que no encarte está grafada com símbolos impronunciáveis – mas de acordo com o site oficial da banda, chama-se mesmo "Space Age") e a quase pop "The New Man". Essa última é uma faixa bônus que deve sair pelo menos na Europa, tendo em vista que ainda não sabemos como será a versão nacional de "Musique".
Resumindo, "Musique" é um disco muito bom, mas que tende a arrancar caretas de grande parte dos fãs de metal, que não são exatamente conhecidos por sua tolerância e espírito aberto à novas influências e mudanças de sonoridades. Como disse Bruce Dickinson na época de seu injustiçado disco solo "Skunkworks", "os fãs de metal não são exatamente as pessoas com a cabeça mais aberta do mundo". Aparentemente, Liv Kristine e seus amigos não têm consciência disso... e se tem, não estão nem aí. Ponto para eles.
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