Resenha - Two From The Vault - Mercyful Fate
Por Márcio Carreiro
Postado em 23 de outubro de 2004
Formado por King Diamond (vocais), Hank Shermann (guitarra), Michael Denner (guitarra), Tim Grabber (baixo) e Kim Ruzz (bateria), o Mercyful Fate é um dos ícones do heavy metal dos anos 80. Pioneiro no gênero black, falando explicitamente daquele-que-não-pode-ser-nomeado (sim, o diabo, demo, lúcifer, chifrudo...), o grupo dinamarquês teve seus primeiros registros em vinil nos idos de 1982, ou seja, muito próximo do Iron Maiden e de toda a leva da New Wave of British Heavy Metal. Certamente é a maior expressão do rock pesado vindo da Dinamarca e uma das maiores do mundo. Da série "Two From The Vault", que chega ao Brasil via Sum Records, este lançamento em particular traz os discos Melissa (1983) e The Beginning (1987).
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Melissa é nota 10, com uma pérola atrás da outra. As músicas desfilam os talentos de Shermann, que escreveu todo o instrumental, e Diamond, autor de todas as letras. O apoio dos outros membros da banda, obviamente indispensável, é muito acima da média. Riffs e solos excelentes; mudanças freqüentes de andamento e de clima; dedilhados; e baixo e bateria seguros e virtuosos. As letras abordam sempre temas relacionados ao inominável, bruxarias, maldições, morte... Enfim, tudo o que amedronta a molecada e parte dos marmanjos.
São apenas sete músicas, mas ainda assim o CD tem mais de 40 minutos de duração. Evil, Curse of the Pharaohs, Into the Coven, Black Funeral, Satan's Fall e Melissa são clássicos de primeira linha, e o álbum traz ainda At the Sound of the Demon Bell, que está no mesmo nível, mas não se encontra no time das clássicas. Vá saber o porquê... Ainda assim, dá para destacar a segunda (refrão irresistível!) e a faixa-título, que de tão especial merece um parágrafo à parte e em primeira pessoa.
O ano era 1985, talvez 1986, e eu ouvia o "Guitarras", programa de domingo à tarde especializado em heavy metal que rolava na "Maldita" - sim, a Fluminense FM. Lá pela metade do programa começou uma longa introdução em dedilhado com um lindo solo de guitarra. Em seguida, a voz (hoje inconfundível) de um homem e em seguida... Uma mulher? Semanas se sucederam (é, a Internet e o site Submarino nem ao menos eram um sonho por aqui) até que consegui descobrir um vinil do Mercyful Fate, assim meus ouvidos de iniciante descobriram que era um só cara cantando daquele jeito: King Diamond. Rapaz, a música evolui de maneira única, a história da bruxa Melissa é sensacional e o fim, com a volta do dedilhado do início, cai como uma luva. Melissa me deixou uma cicatriz auditiva permanente, e sempre que a ouço me lembro do momento e da sensação que tive na primeira vez.
O segundo CD, The Beginning, é uma coletânea dos anos iniciais da banda. As quatro primeiras - Doomed By the Living Dead, A Corpse Without Soul, Nuns Have No Fun e Devil Eyes - são do trabalho de estréia da banda, o EP Mercyful Fate, lançado em 1982 pela Rave On Records e popularmente conhecido como Nuns Have No Fun. Impressiona a qualidade das composições, a criatividade de Shermann e Diamond e a competência dos músicos em todas as canções, o que deve ter deixado todo mundo de boca aberta na época e à espera de um álbum completo. Como não poderia deixar de ser, todos os adjetivos usados para qualificar Melissa (o disco) valem para estas quatro músicas. O primeiro disco soa mais maduro, claro, mas isso deixa o EP ainda mais saboroso. O frescor das idéias é claro e a crueza e o punch do quinteto eram paupáveis.
As faixas cinco a sete são Curse of the Pharaohs, Evil e Satan's Fall - todas do Melissa, é bom ressaltar - e foram gravadas ao vivo nos estúdios da BBC, para o porgrama "Radio One". Tal era o entrosamento da banda que, quatro meses antes da gravação do álbum, as três músicas estão muito parecidas com as versões de estúdio. Além disso, a qualidade da gravação é muito boa. Black Masses, a oitava faixa, ficou fora de Melissa, mas foi lançada como lado B do single de Black Funeral e, até o lançamento de The Beginning, era uma raridade. Ela está no mesmo patamar das outras gravadas em 1983. O nível de qualidade só cai um pouco no bônus: a primeira versão para Black Funeral, originalmente lançada na compilação Metallic Storm - antes de o Mercyful Fate assinar contrato para gravar o EP. Ela perde para as outras na gravação, mas mantém o nível no punch.
Para quem curte a veia do metal, o CD é imperdível. Diamond é um nome de peso graças ao Mercyful Fate. Ainda que controversa - muitos críticos abominam seus falsetes - sua voz é marcante e segue o clima criado pelas melodias e letras. Vale conferir. Só é pena que nos dois discos sejam repetidas, ainda que em versões "diferentes", quatro músicas. Isso deixa uma pergunta no ar: por que a Roadrunner não lançou Don't Break The Oath, segundo álbum clássico da banda, junto com Melissa?
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