The Who: resenha no encarte do disco Live at The Isle of Wight Festival 1970

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Por Brunelson T., Fonte: Rock in The Head
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Em 1996, uma das principais bandas de rock da história, THE WHO, lançava o tão aguardado disco ao vivo, o duplo "Live at The Isle of Wight Festival 1970".

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E no encarte do disco consta a resenha do autor e editor britânico de mais de 30 biografias relacionadas a música, Michael Heatley. Ele descreve, entre outras histórias, o momento que envolvia o THE WHO durante a realização deste lendário festival na ilha de Wight, Inglaterra.

Confira a tradução na íntegra:

Assim como 1970 marcou a transição entre os anos 60 de "paz e amor" ao heavy metal dos anos 70, THE WHO, a maior de muitas grandes bandas britânicas na época, estava olhando para frente e para trás enquanto se preparavam para a manchete principal do Isle of Wight Festival daquele ano.

Eles foram o destaque do fim de semana 12 meses antes e com base nisso, foi um dos primeiros atos a serem confirmados para este 3º e último evento realizado originalmente na ilha de Wight. A responsabilidade recaiu sobre eles para honrar ainda mais o evento e sua carreira, e como esta gravação foi lançada mais de 1/4 de século depois, provou que eles não decepcionaram.

O lançamento em 1995 do documentário de Murray Lerner, "Message to Love", em formato de áudio e vídeo, deu uma amostra das delícias por vir e também revelou que, nos bastidores, o caos administrativo se aproximava.

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Além do fato de que milhares de participantes do festival pareciam ter a intenção de obter acesso gratuito ao local, ameaçando a estabilidade financeira dos organizadores - Fiery Promotions - numa filosofia de "não paga-não toca" que estava operando nos bastidores e, tendo se apresentando no Woodstock Festival no ano anterior sem a remuneração prometida, a administração do THE WHO - com transporte e frete aéreo já pagos - estava compreensivelmente empenhada em evitar uma repetição cara.

Espera-se que o gerente do Banco que saiu de sua cama para abrir o cofre e facilitar o bom andamento dos eventos, tenha testemunhado o cenário do THE WHO que, devido ao grande excesso de corridas no início do festival, os viu subir ao palco sob o ponto de vista sobrenatural às 03:00hs da madrugada.

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Ray Manzarek, organista do THE DOORS e que os precederam, certamente desejava "queimar o óleo da manhã" e observá-los de perto. "THE WHO era simplesmente incrível", lembrou ele mais tarde. "Eles pareciam estar tocando por 02 horas ou mais e continuariam tocando, mas a guitarra de Pete Townshend quebrou. Lembro que ele saiu do palco furioso por não poder continuar tocando".

O contraste não poderia ter sido mais acentuado. THE DOORS estava no meio do busto de obscenidade do seu vocalista Jim Morrison, onde concederam ao cantor 05 dias de condicional para cumprir as suas obrigações contratuais - deixando Jim Morrison feliz demais em deixar o palco. Mas o THE WHO, que destruiu toda a oposição no ano anterior, parecia prosperar em aparições ao ar livre como no circuito oval em Charlton (duas vezes) - em 1996, uma apresentação no Hyde Park em Londres continua sendo um dos destaques da carreira.

Banda cujos conflitos internos intensos e dinâmica musical explosiva, eram muitas vezes demais para um estúdio de gravação conter.

O lançamento do álbum "Live at Leeds", poucas semanas antes do Isle of Wight Festival, já havia sido confirmado. Mergulhando no catálogo anterior e na fonte de clássicos do rock'n roll, como nas canções "Shakin' All Over" (Johnny Kidd & THE PIRATES), "Young Man Blues" (Mose Allison) e "Summertime Blues" (Eddie Cochran), o clima ficou mais claro depois da teatralidade do álbum "Tommy" e levando a banda de volta às suas raízes cruas, lembrando a todos em primeiro lugar por que estas músicas entraram no repertório do THE WHO.

Mas o disco "Tommy" nunca iria se deitar e desaparecer, fato sublinhado pelo sucesso nos anos 90 na Broadway e mais recentemente, no West End de Londres (região central com célebres teatros). E se a autodisciplina necessária para reproduzir o material deste complexo álbum duplo no palco, reduzisse a anarquia das proporções antigas a mais gerenciáveis, o profissionalismo com o qual a música foi apresentada provaria um critério de julgamento para outros atos ao vivo. De agora em diante, não é de admirar que, depois disso, a próxima obra-prima de Townshend, o álbum "Quadrophenia", levaria 23 anos para ser executado por completo!

O correspondente da revista britânica Melody Maker, entre a multidão agora cansada e enlameada do festival, estimava entre 200 à 600 mil pessoas que estavam inicialmente incertas se a banda tocaria o disco "Tommy" na íntegra ou produziria algum novo trabalho importante, mas como o humorístico jogo entre o baterista Keith Moon e Townshend indicou: "Íamos liberar o velho cavalo de guerra".

THE WHO era mais perspicaz do que imaginava.

A mente fértil de Pete Townshend já estava galopando apressadamente em direção a um novo conceito no álbum "Lifehouse", um ambicioso disco "show de palco" que, embora nunca tivesse sucesso, forneceu muitas das músicas que apareceriam no álbum "Who's Next" de 1971. Outras novas músicas estavam aparecendo no setlist, como "Naked Eye" e "Water", ambas destinadas a um EP de 05 músicas que foi gravado, mas nunca lançado. Durante a performance da canção "Water", aquilo tinha maravilhado o nosso homem da revista Melody Maker, com Moon jogando a baqueta ao alto e pegando-a sem perder o ritmo, trazendo uma explosão de aplausos espontâneos da multidão.

O espetáculo não parou por aí. No Woodstock Festival em 1969, THE WHO aproveitou o benefício do nascer do sol durante o clímax da música "Tommy Can You Hear Me". Aqui, eles não se arriscaram e trouxeram algumas luzes de aterrissagem do aeroporto para iluminar o palco.

E como se viu, não foi usada apenas para o palco. As 04:15hs da madrugada, Pete ordenou que elas se voltassem contra a multidão - afirma Trevor Dann, agora chefe de produção da BBC Rádio 1 - fazendo aquelas pessoas que já estavam em seus sacos de dormir reclamarem aos gritos de "que porra é essa?" soando mais altos do que as canções "My Generation" e "Magic Bus".

Enquanto o vocalista Roger Daltrey cantava o refrão da música "See Me Feel Me", os holofotes do arco de carbono de 25kw banhavam o grupo e o público numa luz branca brilhante - como lembra Jon Woolf, gerente de turnê do THE WHO - quando as luzes se deslocavam da esquerda para a direita e vice-versa logo acima do alcance da multidão, mostrando a real enormidade do evento que poderia ser totalmente apreciada.

Além disso e de maneira completamente inesperada, parecia que todas as mariposas e animais noturnos voadores da ilha, subitamente atraídos pelo grande volume de luz, reuniam-se como animados flocos de neve sobre a platéia, que cresciam em acres após acres em resposta ao fantástico "som da luz" deste clímax de um grande show. A imagem era melhor do que qualquer efeito especial, mesmo no momento do Woodstock Festival quando o sol nasceu, aqui também as coisas estavam sob comando e no mesmo momento na mesma música.

Tendo levado a multidão do alvoroço aos seus pés na trinca de singles clássicos da década anterior, "Substitute", "My Generation" e "Magic Bus", THE WHO as manteve lá em uma performance que, nas palavras do crítico americano Nik Cohn: "Demonstrou a sua feroz energia, velocidade, alcance e fúria. THE WHO voltou à terra firme e a música é magnífica".

E o homem que Cohn chamou de "o melhor compositor que o pop britânico produziu", continuava martelando a sua guitarra Gibson SG até que o instrumento finalmente cedeu e Ray Manzarek "correu para se esconder" em meio a uma série de palavrões. Apenas porque o THE WHO poderia ter tocado alegremente a noite toda.

E poucas bandas poderiam ter rivalizado com o seu desempenho...

No Monterey Festival em 1967, Jimi Hendrix se apresentou depois do THE WHO e incendiou a sua guitarra Fender Stratocaster na tentativa de criar o seu próprio centro das atenções. Como se viu, a performance de Jimi foi arrasadora chegando aqui no que seria a sua última aparição no Reino Unido. Até agora e ironicamente, o show de Jimi Hendrix no Isle of Wight Festival em 1970 é o único a ter sido disponibilizado em sua totalidade. A sua morte apenas 03 semanas depois, foi mais um símbolo da mudança dos tempos.

Foi o fim de uma era para o rock e para o THE WHO.

A revista Melody Maker havia publicado em sua matéria: "O 3º Isle of Wight Festival pode muito bem ser a última ocasião, por muito tempo, em que mais de 1/4 de milhão de crianças se reuniam para ouvir rock'n roll". No entanto, enquanto se concentrava nas deficiências organizacionais do evento, a revista admitiu que: "Em termos musicais, a maratona do THE WHO é um dos segmentos mais agradáveis em meio à massa de magias".

Essa magia foi reavivada da melhor maneira possível - devido ao triste falecimento de Keith Moon - no Hyde Park em Londres no ano de 1996, quando Townshend, Daltrey e o baixista John Entwistle, juntamente com Bob Dylan (presente no Isle of Wight Festival de 1969, embora não em 1970), Eric Clapton e outros, fizeram uma viagem de 01 dia para voltar no tempo e se tornarem, mais uma vez, membros da geração festiva.

Os tempos mudaram... O príncipe Charles, cujo patrocínio ajudou a organizar este passeio no Hyde Park, havia sido notável pela sua ausência no Isle of Wight Festival em 1970, onde o desempenho áspero, barulhento e estridente que experimentamos com o THE WHO, nunca teve a intenção de usar o brasão da aprovação real.

No entanto, por mais surpreendente que pareça, ambos os eventos passaram relativamente pacíficos.

Apesar da presença de anarquistas que tentaram interromper o festival, as estatísticas de crimes no Isle of Wight Festival naquele agosto de 1970 permaneceram notavelmente imperturbáveis. A força da polícia local - vestindo o uniforme da MI5 (serviço secreto britânico) - não tinha experiência necessária para reconhecer os cheiros flutuantes de maconha e haxixe, onde passaram a maior parte do tempo prendendo pessoas por delitos relacionados à bebida e por facadas ocasionais, relatado por Jon Woolf como "claramente divertido".

Então, toda a ação ficou confinada ao palco. E desde a explosão de abertura com a música "Heaven and Hell" do "esquelético" John Entwistle, até o final arrepiante dos acordes de Townshend, essa performance tem de tudo.

De Keith Moon, usando o olhar arregalado de um surfista louco por velocidade nas ações, a Roger Daltrey usando o microfone no melhor estilo em sua jaqueta com franjas, o espetáculo visual era maior do que a vida! O som, capturado em fita numa mesa de oito canais (o estado da arte em áudio da época), é igualmente impressionante.

Agora em tempos atuais, quando voei para New York para ouvir as fitas master originais, Trevor Dann, da BBC Radio 1, esperava ouvir algumas gravações primitivas e incompletas. De fato, as fitas que permaneceram imperturbadas por um 1/4 de século foram uma revelação. Após a remixagem digital, as bandas soam muito melhor do que naquele campo em 1970.

O próprio Pete Townshend sempre afirmou que o THE WHO tocou particularmente bem naquela noite e ele não iria admitir se não fosse.

Chris Charlesworth, que escreveu para a revista Melody Maker antes de ingressar na equipe de turnê do THE WHO pelos EUA, colocou a performance em um contexto mais amplo:

"Isso é o THE WHO como nunca antes e novamente no auge do triunfo do álbum 'Tommy', antes de se tornar uma pedra de moinho no pescoço do grupo. Este é o THE WHO, uma banda que possui grandes sucessos e ainda soa legal, vendendo milhões e ainda sendo 'underground'".

Algumas pessoas já devem ter visto o impressionante filme de Murray Lerners, "Listening to You", cobrindo parte deste concerto. Agora, você pode aproveitar a versão completa desse desempenho exclusivo de um grupo único na vida.

"Senhoras e senhores, desocupem os seus sacos de dormir e sejam bem vindos" - citando o simpático mestre de cerimônias do festival, Jeff Dexter.

Ass: Michael Heatley

Track-list:

* Disco 1

1. Heaven and Hell
2. I Can't Explain
3. Young Man Blues
4. I Don't Even Know Myself
5. Water
6. Overture
7. It's a Boy
8. 1921
9. Amazing Journey
10. Sparks
11. Eyesight to The Blind
12. Christmas

* Disco 2

1. The Acid Queen
2. Pinball Wizard
3. Do You Think It's Alright
4. Fiddle About
5. Tommy Can You Hear Me
6. There's a Doctor
7. Go to The Mirror
8. Smash The Mirror
9. Miracle Cure
10. I'm Free
11. Tommy's Holiday Camp
12. We're Not Gonna Take It
13. Summertime Blues
14. Shakin' All Over
15. Substitute
16. My Generation
17. Naked Eye
18. Magic Bus




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Sobre Brunelson T.

Vocalista/guitarrista da banda Terrakiuz.

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