Kurt Cobain: outros insights a partir de algumas de suas pinturas

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Por Rodrigo Contrera
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Pintura de Michael Tompsett
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No meu artigo anterior sobre o Kurt Cobain artista plástico, ressaltei apenas alguns aspectos mais óbvios que se pode retirar de suas pinturas, seus desenhos, seus quadros e suas esculturas, assim como algo que podemos também retirar dos vídeos do Nirvana. Aqui pretendo avançar um pouco mais nos insights que dá para retirar dessas e outras obras.

Kurt criança

Já falei como o Kurt se vangloriava de um prêmio que não recebeu (que era só um certificado de participação num concurso de arte). Mas não mostrei algumas de suas pinturas, quando ele era criança (coincidência ou não, eu também tive um desenho meu em destaque, quando no Chile, acho que num programa de tv ou num recorte de jornal).
Paisagem - Kurt Cobain, criança, pintor

Mais de perto

A gente pode ver como a pintura do Kurt criança é por um lado clássica, com um tema mais do que tradicional, e por outro lado madura - tudo está no lugar certo. A noção de proporção na pintura é óbvia, assim como a leveza da composição. Kurt tinha uma noção bastante madura da pintura já com 10 anos de idade.

Adolescente

Falei também que, na adolescência, o universo visual de Cobain havia se transmutado radicalmente. Mas não mostrei exemplos de pinturas ou desenhos dessa época. Somente os citei. Notem abaixo o desenho que o Kurt fez em homenagem ao American Gothic. Aqui notamos como Kurt sabia desenhar rostos, como ele escolhia os temas, e mais ainda, a importância das cores no fundo em suas composições.

Kurt adolescente - American Gothic

Esse amarelo mais do que estourado chama muito a atenção. Não parece que estamos em Terra. E a carne enrugada dos personagens retratados também chama a atenção. Esse era um tema que na época do desenho (1984) atraía Kurt para longe do universo normal de todos nós (se é que ele existe).

Adulto
Quem procura, pode facilmente achar exemplos da arte do Kurt. Basta navegar pelo Google com um pouco de curiosidade. Claro, quem faz isso acha muitos exemplos de telas, desenhos ou esculturas que traduzem aspectos macabros da existência, sob o ponto de vista dele. Mas eu gostaria, ao invés de insistir no óbvio, mostrar alguns aspectos que podem nos fazer refletir. Primeiro deles, as figuras humanas.

Figura humana

A gente lembra que na adolescência Kurt já desenhava pessoas sob um ponto de vista particular (no American Gothic). Mas com o passar do tempo as figuras humanas foram adquirindo outros matizes. Gostaria de ressaltar dois. Um primeiro, existem diversas pinturas do Kurt em que a figura humana aparece sem rosto, em poses estranhas, geralmente estiradas, e com uma ênfase no quadril ou no estômago, como se algo estivesse acontecendo ali. Claro, pode-se pensar nos problemas estomacais do Kurt. Mas, pensando artisticamente, isso pode levar-nos ainda mais longe.
Já outras pinturas retratam figuras de outra forma. Elas aparecem como bonecos, com algo a segurá-las, em montagens com outras figuras (neste caso, um gato e uma figura esmaecida segurando uma cruz e por sua vez segurando um marionete. Ou seja, neste tipo de figura já há uma composição de fatores, em que o fator humano fica bem claro. Muitas podem ser as leituras desse tipo de composição. Mas notem como a figura tem cara de boneco. E por outro lado é tão humana a figura (que reacende a um anjo, com suas asas)!

Figura humana-angelical, gato e cruz

Tudo fica ainda mais radical na capa de Incesticide. Notem como a figura à direita é realmente humana, embora não tenha traços de ser ALGUÉM. Notem também como ela não tem corpo, só membros, que parecem deslocados e sem vida. E notem a figura que a chama, bem colada a um de seus braços. Não creio que seja acaso que ela tenha chifres ou que pareça tê-los. Por outro lado, essa pequena imagem (que parece um boneco, tem articulações de um) tem um tratamento visual muito diferenciado, com sombras muito bem feitas, e gradações de cor que lembram o Francis Bacon tardio. Notem também as flores, do lado esquerdo, que o braço da figura maior parece tentar pegar. O fundo também é de destacar. Um verde estranho. E a figura parece prateada, meio mecânica. E não parece estar muito bem. Uma obra-prima. Claro que no CD, pequena, a pintura não aparenta a força que tem.

Pintura madura

Outra

Diversas outras pinturas de sua obra podem ser destacadas. Eu só exemplifiquei com algumas bastante óbvias, mas que não analisei anteriormente. O caráter das pinturas, e da figura humana delas, é quase sempre perturbador, para ser sincero. Nem abordo aqui as esculturas que ele fez, que assumem outro caráter bastante diferenciado, com base em sua fixação por coisas como cabeças de bonecas, com troncos articulados, e coisas desse tipo. Também já postei imagens que foram retiradas de CDs do Nirvana, como In Utero.
Confesso-lhes que também é bastante triste que, com sua morte, tenhamos sido privados de mais obras artísticas em artes plásticas do Kurt. Triste porque a gente sente que foi com isso (a morte) criado um vazio de significado. Porque tanto Francis Bacon quando Lucien Freud viveram bastante, e falaram o que tinham a falar. Já o Kurt, que se foi com apenas 27 anos, deixou muitas reticências.
Temos apenas uma compensação: sabermos que, ao se ir, Kurt finalmente alcançou uma certa paz. Como aquela que intuímos em suas primeiras pinturas, de paisagens, em que não sentimos que somos jogados contra nós mesmos, em que algo parece combinar na vida, e que portanto nos deixa enfim dormir.

Pintura de infância

Seja como for, em suas pinturas Kurt quis decifrar o seu mundo. E de certa forma o conseguiu.
Até a próxima. Ah, sim, nas pinturas, me restringi somente às figurativas, ok. Existem trabalhos mais complexos do Kurt. Ainda mais.




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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

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