Little Richard: Sexo, preconceito e controvérsia em "Tutti Frutti"

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Por Paulo Severo da Costa
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Em 2007, por força de uma votaçao que incluía de JOE PERRY a JACK JOHNSON como jurados, a britânica Mojo Magazine, elegeu "Tutti Frutti" como encabeçadora da lista das "100 cançoes que mudaram o mundo". Introduzido ao Hall da Fama do Rock n Roll em 1986, o hoje octogenário Reverendo RICHARD WAYNE PENNIMAN, consagrou o profano hino, conclamado pela publicação como " o som que fundou o rock and roll".

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Entretanto, se cinquenta e dois anos passados de sua gravação nos estúdios J&M em Nova Orleans, o onomatopéico "A-wop-bom-a-loo-mop-a-lomp-bom-bom!", rendeu os louros ao blues acelerado e vocal visceral de RICHARDS, a maquiagem 'whiter shade of pale' da segregacionista e ultraconservadora sociedade americana que apenas viria a admitir a introjeção sonora do gueto revestida em doses brancas e bem diluídas do ponto de vista sonoro: "Aquilo que o branco queria só o negro possuía - mas o clima macartista dos anos 50 teimava em impedir essa união", como bem postado por PAULO CHACON. Em 1963 ao ouvir "Surfin US.A." dos BEACH BOYS como um clone harmônico-melódico e, liricamente "digerível" de sua "Sweet Little Sixteen," CHUCK BERRY (que anos depois alçaria o "honroso" posto de co-autor), segundo conta a historia, virou-se para LEONARD CHESS e professou algo como "vou trabalhar porque algum branco precisa ganhar dinheiro com isso". Nesse diapasão, célebre é a declaração pré-ELVIS advinda do auto-patenteado CORONEL PARKER: "O dia em que eu achar um branco que cante como um negro ficarei rico".

"Eu passei por muita coisa quando era garoto. Me chamavam de maricas, fresco, bicha, veado. As vezes uns brancos me levavam para o carro e tentavam me fazer chupar eles. Muitos garotos negros tiveram que fazer isso a força". Nas décadas de 30-40 em Macon, no Estado da Georgia, RICHARD era uma quase representação da locus personae: negro, homossexual, oriundo de um seio familiar cristão ortodoxo - o que por si só, explicaria seus colossais conflitos internos e interpessoais ao longo da décadas seguintes. Mas, dialeticamente, semeou a terra que ainda não se sabia fértil. "Quando JERRY LEE LEWIS ataca o teclado com seu traseiro, isso é LITTLE RICHARD, quando ELVIS sussurra, corta e engole suas palavras e mexe sua cintura isso é LITTLE RICHARD, quando os BEATLES gritam "yeah, yeah, yeah," e deslizam um falsete alto, isso é LITTLE RICHARD - como lucidamente descreveu ARNOLD SHAW.

Em meados da década de 50, RICHARD era um músico de certo prestigio regional, quando a J&M recebeu uma gravação demo que acabou nas mãos de BUMPS BLACKWELL - experiente produtor que orientou a carreira de QUINCY JONES e RAY CHARLES, por exemplo. Segundo MIKE ANDERSON, "BUMPS BLACKWELL era uma daquelas estrelas que vêm apenas uma vez em algum tempo, um pioneiro e visionário à frente de seu tempo." Mas nem o visionario soube o que fazer quando ouviu uma conspurcação luxuriosa capaz de condenar qualquer artista ao limbo eterno naqueles tempos.

"Tutti Frutti, good booty, If it don't fit, don't force it, You can grease it, make it easy( |Tutti Frutti,, que gostoso, se não couber não force, se você lubrificar, facilita"- a inequívoca alusao sodomita de RICHARDS soava como um tiro de inclemência em sua própria cabeça. Mas BLACKWELL entendeu que o efeito catártico sonoro seria um hit em potencial: "Eu sabia que a letra era obscena demais para ser gravada. Nunca entraria nas rádios. Então peguei a DOROTHY LA BOSTRIE e disse pra ela: Olha, me escreve uma letra pra isso, porque eu não posso usar a letra que ele esta usando!"

Do texto original, restaram o titulo e a saborosa abertura - que RICHARDS credita a um impronunciável riff de bateria típico de jazz. Mesmo recebendo royalties como co-autora, LA BOSTRIE (falecida em 2007) foi categórica: "RICHARDS não escreveu uma linha sequer da letra de "Tutti Frutti". Mas, para RICHARDS o pior legado à época foi ofertado pela própria indústria fonográfica. Regravada com sucesso por artistas brancos como ELVIS e o sempre insosso PAT BOONE, RICHARDS declarou, de forma melancólica: "Eles precisavam de uma estrela do rock para me afastar de casas brancas, porque eu era um herói para as crianças brancas. Assim, as crianças brancas teriam o compacto de PAT BOONE em cima da cômoda e o meu escondido na gaveta - porque eles adoravam a minha versão; mas as famílias não me queriam em razão da imagem que eu estava projetando". A consagração tardou, mas não falhou. Sorry, PAT BOONE...



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Sobre Paulo Severo da Costa

Paulo Severo da Costa é ensaísta, professor universitário e doente por rock n'roll. Adora críticas, mas não dá a mínima pra elas. Email para contato: joaopsevero@bol.com.br.

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