Violeta de Outono: viagem psicodélica atemporal
Por Claudinei José de Oliveira
Postado em 13 de janeiro de 2016
Uma das características do rock brasileiro dos anos 1980, também catalogado pela ridícula alcunha "Brock", foi a heterogeneidade, ou a diversidade de elementos sonoros encontrados nas mais diversas bandas. Tinha rock para todos os gostos. O fato é que o mundo da música, na época, assim o permitia. De uma maneira geral, foi o rock inglês do período que deu a tônica dos rumos tomados aqui: o famigerado "pós-punk".
Em meio a toda essa diversidade surgiu, nos idos de 1984, na cidade de São Paulo o "power trio" Violeta De Outono, banda que acabaria sendo definida pelos especialistas no assunto como única, pelo fato de assimilar, em sua sonoridade, elementos do psicodelismo de fins dos anos 1970 e do progressivo do início da década de 1970, quando a onda determinava um rumo oposto, o do punk rock.
Formada inicialmente por Fabio Golfetti, guitarrista e vocalista, Angelo Pastorello, baixista e Claudio Souza, baterista, o Violeta De Outono, de fato, desafinava do coro dos contentes do rock nacional. Sua música era por demais cheia de nuances e texturas impossíveis de se adequarem à cartilha do "pós-punk", adepta da pedagogia "do it yourself" com três acordes.
Mas seria mesmo o Violeta De Outono "único" em sua proposta artística? Em se tratando do rock nacional, sim, assim como algumas outras bandas, com outras características, também foram. Porém, no "pós-punk" inglês a banda Echo And The Bunnymen, formada na cidade de Liverpool, fazia o que o Violeta De Outono acabou fazendo no Brasil: adequar elementos psicodélicos à estética sonora da época.
Quando ouvimos o belíssimo primeiro e homônimo álbum da banda, lançado em 1987, torna-se clara a presença de influências do Echo And The Bunnymen, principalmente nos timbres e nas linhas de baixo e bateria. As letras das canções também nos remetem a uma realidade deslocada, que difere do "psicodelismo clássico" por não trazer embutida uma certa celebração colorida como nas de viagens literárias do Syd Barret de "The Piper At Gates Of Dawn", por exemplo. Seria uma espécie de lisergia melancólica, mais afeita às viagens de Jim Morrison ídolo declarado e imitado por Ian McCulloch, líder do Echo And The Bunnymen, ou pelo Syd dos álbuns solo. Mas as semelhanças param por aí.
O Echo & The Bunnymen, apesar de "underground", compunha no formato das paradas de sucesso. Músicas relativamente curtas com refrões extremamente pegajosos, para cantar junto. Ou seja, era a releitura punk do psicodelismo, onde eram aparados todos os possíveis adereços em nome da urgência estética que se instaura após os Sex Pistols. Não foi esse o caminho seguido pelo Violeta De Outono.
Lançado por uma "major" da época, a gravadora RCA, o primeiro álbum da banda só foi possível naquele momento, onde os executivos da indústria musical caçavam alucinadamente qualquer banda para capitalizar o mais rápido possível em cima da febre de rock que havia se disseminado pelo país. Apesar de ter nas músicas "Outono" e "Dia Eterno" possíveis "hits", sendo que a última até chegou a ser executada pelas emissoras de rádio, o disco contava com músicas longas e instrumentais, algo que só poderia receber a chancela dos executivos de uma gravadora com pretensões comerciais numa época onde "Infinita Highway" e "Faroeste Caboclo" sofriam execuções maciças País afora, criando a ilusão de que tudo seria possível. Outro fato inusitado é a presença de uma (ótima) versão de "Tomorrow Never Knows", o primeiro passo dos Beatles na psicodelia, onde podemos, mais uma vez, atestar a abordagem lisérgica introspectiva e melancólica da banda, comparada à estética sonora extrovertida da original. Segundo a principal revista musical da época, a versão recebeu elogios do próprio McCartney.
No começo dos anos 1990, já tínhamos voltado à realidade e o axé e o sertanejo grassavam soberanos sobre nossos infelizes ouvidos. Sintomaticamente, o namoro do Violeta De Outono com uma gravadora "mainstream" terminara em 1989, com o lançamento de "Em Toda Parte", o (ainda mais) experimental segundo álbum. Na metade da década de 1990, houve uma reedição dos dois álbuns num único CD, quebrando a magia de ouvi-los separadamente. Com hiatos nas gravações inéditas e mudanças no formato e formação da banda, permanecendo apenas Fabio Golfetti como membro original, o Violeta De Outono ainda está na ativa.
Porém, os fã(nático)s de rock costumam se apegar às origens de sua banda preferida. Para estes, há um belíssimo DVD, lançado no ano de 2006, gravado ao vivo no Teatro Popular do SESI, em São Paulo, pelo trio original, com a participação de uma orquestra de câmara, sob o título "Violeta De Outono & Orquestra".
É ouvir e ver e a viagem começar.
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