Nina Simone: o documentário "What Happened, Miss Simone"

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Por André Espínola
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O mundo da música e do entretenimento de forma geral tende a criar herois, vilões ou, em alguns casos, vende a imagem pronta e única de um artista. Uma das formas de eternizar essas versões é através da biografia, seja ela na forma de livro, filme ou documentário. Mas uma boa biografia não é aquela que eterniza uma versão única de determinada pessoa; a boa biografia, na verdade, é aquela que apresenta o biografado(a) em toda sua complexidade humana, afinal, foi através dela que seu gênio foi aflorado e ele(a) alcançou o sucesso; uma boa biografia deve, enfim, como diria Chimamanda Adichie, desviar-se do "perigo de uma única história". E é exatamente isso que acontece com What Happaned, Miss Simone? (2015), documentário dirigido por Liz Garbus que conta, com um extenso material original e inédito, a vida da cantora, pianista e ativista Nina Simone (1933-2003), disponível agora também pelo Netflix. Afinal, Nina Simone, além de uma das maiores cantoras de todos os tempos, dificilmente caberia numa narrativa única.

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A diva do blues, do jazz e do soul (o que já evidencia o seu ecletismo musical) é filha de uma época turbulenta e sua vida é um reflexo disso. Desde cedo, ela foi testemunha ocular da opressão e exploração que ela própria e seu povo sofriam; ela viveu sob Jim Crow, as leis segregacionistas; ela viu a violência sistêmica contra os negros, especialmente no Sul, por grupos radicais brancos; ela sentiu o racismo ao ser rejeitada em uma entrevista por causa da cor de sua pele. Nascida no segregado Estados Unidos, na Carolina do Norte, no seio de uma família bastante religiosa, Nina Simone participou também da Grande Migração, movimento migratório dos negros do sul dos Estados Unidos em direção às cidades do norte em busca de empregos industriais. Nina Simone foi para Nova York e passou a tocar à noite em bares locais e a trabalhar durante o dia. Mais uma vez ela foi testemunha das condições dos trabalhadores negros que, após fugir do pesadelo sulista, agora possuíam um emprego, mas aos quais ainda era negada uma vida digna e em iguais condições com os brancos. Ainda assim, no final da década de 50, ela também conheceu o sucesso instantâneo com seu primeiro hit "I Loves You, Porgy" e do álbum Little Girl Blue, com outro hit "My Baby Just Cares for Me".

A partir daí sua vida mudou. A vida social turbulenta somou-se uma personalidade forte, irascível e um casamento complicado com Don Ross, também seu empresário. A violência coletiva da sociedade somou-se a violência doméstica de um marido que a forçava a trabalhar além dos limites e que a espancava. Como que alheia a todos esses desmoronamentos, seu sucesso só aumentava com a sequência de álbuns de estúdio e ao vivo de extrema qualidade que transitava não só pelo blues ou jazz, mas também pelo soul, pop e clássico. Apesar de em alguns momentos utilizar-se de sua música para uma atuação política específica e críticas ao sistema social vigente, foi no auge de sua popularidade, que Nina Simone decidiu-se que não existia mais meio termo e não poderia mais ser apenas testemunha ocular do seu tempo, mas refleti-lo e atuar diretamente na sociedade pela causa de seu povo. Em 1964 ela tornou-se uma ferrenha ativista dos direitos civis dos negros americanos e compôs canções fortíssimas denunciando as condições injustas sociais aos quais os negros estavam submetidos. "Mississipi Goddam", por exemplo, (traduzido como Mississipi Puta que pariu), banida em vários Estados sulistas, inspirada pelo assassinato de Medgar Evers e a explosão de uma Igreja no Alabama, foi revolucionária. "To Be Young, Gifted and Black" tornou-se quase um hino do movimento dos direitos civis.

A sua atuação não ficou no campo da música e Nina Simone participou pessoalmente na luta pelos direitos civis, marchando na marcha de Selma a Montgomery com Dr. Martin Luther King. Apesar de não ser muito adepta da não violência (forma de atuação e revolta utilizada por King) e ser mais próxima do espírito mais incendiário de Malcom X, o assassinato de Dr. King atingiu-a profundamente. O álbum Nuff Said! foi gravado ao vivo no Westbury Music Fair e foi dedicado inteiramente ao ativista assassinado. O documentário apresenta a radicalização de Nina Simone, mostrando-a defendendo ideias bastante fortes em relação ao momento que estava vivendo, como criação de um Estado separado, violência e morte aos brancos. Apesar de ter sido um período intenso para sua vida, de bastante instrução, dedicação e aprendizado, deixou uma imagem polêmica e bastante manchada devido a suas ideias revolucionárias. Nina Simone acabou deixando os Estados Unidos em 1970 e passou a viver períodos na Libéria, Suíça, Holanda e França até o fim de sua vida.

O documentário mostra o outro lado; Depois da luta coletiva pelos direitos civis agora sua luta era individual e contra si mesma, o que a fez perder tudo e chegar ao fundo do poço, tendo que apresentar-se por 300 dólares em cafés e bares locais, na França. Diagnosticada como bipolar, com a ajuda de amigos passou a se restabelecer e tomar medicamentos que a ajudaram a controlar seu temperamento imprevisível, retomando a carreira para apresentações ao vivo e alguns álbuns de estúdio na década de 80.

Nina Simone faleceu em 2003, no sul da França. Suas cinzas foram espalhadas por vários países africanos, o que indica de forma bastante categórica um dos principais alicerces de sua vida. Nina Simone construiu uma das biografias mais intensas, passionais e fascinantes do mundo da música e o grande mérito de What Happened, Miss Simone? é ter conseguido retratar exatamente isso: intensidade, paixão, gênio e, como não poderia deixar de ser, música. A atualidade do tema, trazido à tona com as recentes tensões raciais de violência policial nos Estados Unidos, dizem que essa é uma cicatriz que está longe de estar curada.

André Espínola
http://ofilhodoblues.blogspot.com.br




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Sobre André Espínola

André Espínola, recifense, estudante de História e apaixonado por música, quer levar um pouco de sua paixão para os outros, resenhando sobre novos lançamentos e pagando tributo aos clássicos e às nossas raízes musicais, sobretudo o Blues, Rock e Jazz, cuja missão básica é dizer aos quatro cantos: "a boa música nunca morrerá!". Possui o blog Filho do Blues, onde escreve e edita textos sobre as novidades musicais do mundo do rock, indie e blues.

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