Música: qual foi a última vez que você escutou?
Por Victor Oliveira Sartório
Postado em 04 de agosto de 2012
O folclórico ano 2000, cuja chegada intimidava uma população mundial enraizada pelo misticismo decorrente de um inédito e acelerado contexto de crescimento e transformação tecnológica, não trouxe consigo, nem as previsões apocalipticas daqueles profetas que assombravam as nossas televisões, nem mesmo o inevitável e fatal "bug do milênio", que nos faria, de alguma forma, retroceder à era da pedra lascada. Ao contrário das crenças cegas que circundavam a cabalística virada do milênio, as horas simplesmente passaram e, acompanhando o calendário gregoriano que nos é familiar desde 1582, o ano de número 2000 chega, acompanhado das mesmas revoluções tecnológicas que tanto desorientavam o cotidiano da sociedade. Um marco daquele ano foi o início da interação da sociedade com a internet. Esta, que, à época, vinha sendo desbravada, modificou, por completo, a lógica do mundo, sob vários aspectos, desde o mercado de ações até as relações interpessoais. Estas últimas começaram a ser moldadas a partir do mundo digital que, como se vê atualmente, possibilita todo e qualquer tipo de atividade, tal como na realidade, a ser exercida dentro de casa: compras, conversas, trocas de arquivos, sexo, trabalho e acesso a filmes, músicas ou qualquer outra programação da televisão. Pode-se dizer, nestes moldes, que a internet nos aproxima do mundo mas nos afasta da vida.
É certo que muitas atividades que outrora nos proporcionavam horas de prazer, hoje estão praticamente extintas: qual foi a última vez que você parou para ouvir música? Isto é, qual foi a última vez que você se utilizou de uma mídia física – um CD ou um "bolachão" –, se direcionou até seu aparelho reprodutor (CD Player ou vitrola), pôs o álbum para tocar, deitou na cama ou sentou no sofá, e simplesmente apreciou o que se ouvia?
Bom, em primeiro lugar, os aparelhos de som já são utensílios que não mais ocupam aquele lugar de destaque da casa como antigamente: hoje, em sua maioria, estão entulhados em algum armário ou depósito. O micro system, mini system (lembram do carrossel?) e a antiga vitrola, deram lugar às caixinhas de som de computadores, de cerca de 0,5 a 2 watts de potência, aos aparelhos dos automóveis e aos tocadores digitais portáteis. Todos esses três últimos possuem uma coisa em comum: deixam a música numa posição de atividade acessória, ou seja, se escuta música enquanto se faz outra coisa. Neste mesmo ano 2000, dois anos após a última grande gravadora brasileira anunciar o encerramento das produções de discos de vinil, surgiu, no mercado norte-americano, pela primeira vez, CD Players com funcionalidade e suporte para reprodução mídia no formato MP3, tecnologia que veio a por em cheque o uso das mídias físicas, pelos inúmeras vantagens que já conhecemos.
Como já demonstrado, a tecnologia parece caminhar para um futuro cada vez menos físico e cada vez mais digital: no tocante à música a coisa não é diferente. Naquele mesmo ano 2000, segundo dados Associação Brasileira de Produtores de Disco – ABPD, foram vendidos, no Brasil, cerca de 93 milhões de CDs. Dez anos depois, já no ano retrasado, o número caiu para 18 milhões, se estabilizando por volta deste número nos últimos dois anos e indicando, para os CDs, um futuro que o equipare aos discos de vinil: redução à um mercado seleto. Os vinis, diga-se de passagem, voltaram a ser utilizados por alguns artistas atuais para a reprodução de seus álbuns, para delírio dos fãs da saudosistas e dos apreciadores mais eruditos, que defendem à duras penas a superioridade do som analógico. No Brasil, inclusive, houve a volta da Polysom, que resgatou, no ano de 2009, seu antigo título de única fábrica de vinis da América Latina – ocasião em que, nos Estados Unidos, maior mercado fonográfico do mundo, se verificou uma incrível alta no mercado dos bolachões: 2,5 milhões de unidades vendidas naquele ano. O mercado dos vinis, dado como morto há anos, não pára de subir: no ano passado, no Reino Unido, o crescimento das vendas foi de 55%, sendo o campeão de vendas o álbum Wake Up Nation, do Modfather, pai da subcultura britânica setentista do mod revival, Paul Weller, ex-líder das bandas The Jam e The Style Council, dos anos 70 e 80, respectivamente.
A volta dos vinis não indicam que as mídias físicas vão voltar ao gosto popular, este, por conta dos inúmeros motivos já conhecidos, continuará a aproveitar as vantagens de se reproduzir música digitalmente. O fato dos vinis terem retornado, mas, desta vez, direcionado para o seleto grupo dos colecionadores – o mesmo que ainda compra CDs –, indica que o festejado universo digital não consegue suprir por completo o que fornece as mídias físicas. Por mais cômodo e vantajoso que haja em só se ouvir música pelo computador – e deste, passar para o carro ou para o Ipod –, ainda sim tal hábito reduz a atividade de apreciar uma canção para um ramo secundário, ou seja, se ouve música enquanto se faz outra coisa. Uma coisa é certa: para os amantes da música, o mundo digital nunca conseguirá fornecer os prazeres que só a mídia física fornece; prazeres tais como possuir, em mãos, o seu álbum favorito – lhe dando um contato verdadeiro e concreto com o ídolo –, apreciando a arte do encarte e acompanhando as letras contidas neste conforme a música toca. E só isso.
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