A história do thrash metal contada pelos próprios músicos

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Por Ricardo Seelig, Fonte: Collector´s Room, Tradução
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Por Jon Hotten
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Tradução por Ricardo Seelig
(matéria publicada na Classic Rock 166, de dezembro de 2011)

Estamos em 1985, quase 1986. O disco mais falado em todo o mundo é Born in the USA, de Bruce Springsteen. As paradas americanas estão dominadas por artistas que participaram do Live Aid alguns meses antes. A MTV tem apenas quatro anos de vida, e ainda faltam 15 meses para que o primeiro programa focado exclusivamente em um gênero musical faça a sua estreia na emissora – no caso, o Headbanger's Ball. As bandas de rock que tocam no canal incluem nomes como Ratt, Ozzy Osbourne, Def Leppard e Judas Priest. O maior nome de Los Angeles é o Mötley Crüe, líder de uma nova onda glam que levou ídolos veteranos como Ozzy e Scorpions a usar cabelos armados e delineador nos olhos.

Fora de tudo isso, algo estava acontecendo. Filho indisciplinado do heavy metal e do punk, o thrash metal passou os três anos anteriores nas mãos de um punhado de músicos da Bay Area de San Francisco, com pequenas cenas também em Los Angeles e Nova York. As bandas chaves da cena – o Metallica de San Francisco, Slayer e Megadeth de Los Angeles e o Anthrax de Nova York – haviam lançado álbuns que foram recebidos com entusiasmo por aqueles que as conheciam.

A cena era baseada em alguns selos independentes: Metal Blade e Magaforce na Califórnia e Music for Nations no Reino Unido. Por três anos, eles se mantiveram sem qualquer interferência das grandes gravadoras.

Mas tudo estava prestes a mudar. O Metallica, a mais celebrada e elogiada banda do movimento, assinou com a Elektra em 1985, e os outros grupos viam o progresso do quarteto com um mixto de admiração e inveja. No final do ano, as comportas se abriram e o thrash metal chegou com tudo ao mainstream.

Brian Slagel (fundador da Metal Blade) – A cena thrash era muito pequena. Nos Estados Unidos, todas as bandas conheciam umas às outras. Eu acho que, naquela época, todos estavam nessa apenas pelo amor à música, com uma mentalidade bem “nós-contra-o-mundo”.

Lars Ulrich (Metallica) – Você enviava cinco fitas demo para as pessoas, e uma semana depois milhares de garotos tinham uma cópia. Era como fogo se espalhando!

Brian Slagel – Acho que, hoje em dia, é fácil dizer que aquelas bandas se tornariam o Big Four, mas, na época, se você perguntasse para qualquer um qual seria o grupo que iria estourar, todos respoderiam Armoured Saint. Mas, no final, as coisas não aconteceram da maneira que imaginávamos.

Lars Ulrich – Você poderia facilmente argumentar que eu e James, naquela época, éramos meio conservadores por andar sempre com camisetas do Motörhead e do Iron Maiden, batendo cabeça e balançando nossos longos cabelos.

Harald Oimoen (fotógrafo) – Dave Mustaine, é claro, estava extremamente chateado por ter sido demitido do Metallica e se afogava em álcool e drogas. Eu estava mais do que satisfeito em saciá-lo. Lars e Dave ainda saíam regularmente e isso passou despercebido pela mídia, mas Mustaine acabou com qualquer possibilidade de voltar ao Metallica ao aproveitar qualquer oportunidade que tinha para falar mal da banda.

Eric Peterson (Testament) – Paul Baloff era o ídolo da Bay Area por causa da sua personalidade. Ele tinha um lobo de verdade! Ele ia para os clubes com o seu lobo, levava o animal junto para todos os lugares. Ele tinha patas peludas como uma barba. Baloff dava algumas ordens e o bicho rosnava pra você!

Gary Holt (Exodus) – O lobo se chamava By-Tor. Paul tinha um magnetismo sobre o público semelhante ao do pastor Jim Jones. Se ele mandasse as pessoas beberem um xarope colorido, elas bebiam! Ele tinha uma espécie de liderança distorcida.

Brian Slagel – O Slayer era uma banda interessante porque eles não eram necessariamente bons amigos. Quando estavam juntos era magia pura, mas eles não saíam muito um com o outro.

Tom Araya (Slayer) – A cena era muito maior na Europa. Tocamos no festival Heavy Sounds, na Bélgica, para um público de 15 mil pessoas. Quando voltamos, continuávamos tocando para 300 a 400 pessoas nos clubes americanos.

Gem Howard (Music for Nations) – O Metallica conquistou a Europa antes de conquistar a América. Quando a Q-Prime assumiu (a Q-Prime é a empresa que gerencia a carreira do grupo), a banda era um sucesso no Velho Mundo, mas ainda não havia vingado nos Estados Unidos.

Em 27 de dezembro de 1985, em uma Copenhagen coberta de neve, o Metallica dava os toques finais em seu terceiro álbum, Master of Puppets. Eles estavam na Dinamarca há quatro meses, passando o tempo entre Sweet Silence Studio, onde haviam gravado o disco anterior, Ride the Lightning, e dividindo quartos no Scandinavia Hotel. As fitas masters foram enviadas para Los Angeles para serem mixadas por Michael Wagener, que havia trabalhado anteriormente com o Mötley Crüe e o Poison. Eles não sabiam, mas nos próximos 12 meses tudo mudaria não só para o Metallica, mas para o próprio estilo que eles ajudaram a criar.

James Hetfield (Metallica) – As faixas de Master of Puppets me lembram um Metallica inocente. Não estúpido, mas ainda não marcado e arruinado pela fama. A honestidade e a inocência estavam presentes no estúdio, ainda tínhamos aquele fogo. Só havia o Metallica em nossas mentes. Na minha opinião, Master of Puppets era tudo o que nós queríamos ser.

Kirk Hammett (Metallica) – Eu poderia dizer que percebemos que o que estava nascendo iria fazer história. Cada música que surgia era realmente incrível. Tudo o que nós escrevíamos, nós gostávamos. Era meio “Meu Deus, isso é ótimo!”, saca?

Lars Ulrich – Nos apoiamos uns nos outros quando a comunidade thrash nos acusou de vendidos por causa das partes acústicas e tudo mais. Mas nós fizemos aquilo porque era verdadeiro, era a nossa verdade.

Gem Howard – Nós tivemos todas as quatro bandas do Big Four ao mesmo tempo na Music for Nations. Licenciamos o Slayer para o Reino Unido, tínhamos os dois primeiros discos do Anthrax, os três primeiros do Metallica e o debut do Megadeth. O Metallica era a mais forte de todas, sem dúvida.

Charlie Benante (Anthrax) – Master of Puppets colocou tudo em um nível mais alto, isso é certo.

Brian Slagel – O disco era incrível. Honestamente, eu não era um grande fã de Kill 'Em All, mas Ride the Lightning era excelente e, quando lançaram Master of Puppets, eles fizeram melhor ainda!

Eric Peterson – O disco tinha uma produção muito melhor, tudo soava de forma limpa e clara. Qualquer um ficaria orgulhoso de compor algo como “(Welcome Home) Sanitarium”. Era uma faixa espetacular, que todo mundo adorava! O Metallica se transformou em nossa grande esperança. Era algo como “saca só essa produção, eles soam tão bem quanto qualquer disco do Rainbow”. Master of Puppets é um grande clássico, e foi muito inspirador para nós.

Gary Holt – Na primeira vez que ouvi “Battery”, foi algo como “isso é incrível”!

James Hetfield – Há uma inocência nisso tudo, meio que “fodam-se, a atitude ainda está aqui, não fomos influenciados por toda a grandeza do Metallica!”. As canções têm uma energia, uma chama. Mas nós ainda éramos jovens, estávamos crescendo, e aquelas músicas foram ficando cada vez maiores como o passar do tempo.

31 de janeiro de 1986. O Spastik Children, grupo formado por Cliff Burton e James Hetfield (na bateria) mais o vocalista Fred Cotton e o guitarrista James McDaniel, toca em um show no Ruthie's Inn, em San Francisco, local que se transformaria em um ícone da cena thrash da Bay Area.

Eric Peterson – O Ruthie's ficava em uma região muito perigosa da San Pablo Avenue. O camarim era um quarto pequeno atrás do palco. Basicamente você ficava no meio da multidão ou ia para o lado direito quando entrava e tentava atravessar o público. Era tudo muito sujo, na linha dos clubes de blues de antigamente. Tinha que ser meio kamikaze para encarar a bebida que os caras tinham lá.

Gary Holt – Eu e Paul Baloff começamos a moldar o Exodus a partir da nossa própria visão das coisas, que era basicamente ser o mais brutal e violento possível. O público também respondia dessa maneira, e quando o Ruthie's Inn abriu, tudo ficou realmente muito insano!

Eric Peterson – Baloff dizia: “Se tem algum poser lá fora, eu quero ver o seu sangue aqui no palco”. Era como um ritual de sacrifício Maia!

Robb Flynn (Vio-lence, futuro Machine Head) – Em um show do Exodus no Ruthie's Inn, um cara tinha um osso de uma perna de uma vaca, e andava com aquilo para todo o lado, encarando as pessoas …

Lars Ulrich – Eu sei que os nossos colegas ingleses bebiam mais do que nós, mas de certa forma era como se nós bebêssemos ainda mais! Em qualquer lugar dos Estados Unidos você encontra essas garrafas de vodka baratas, e todo mundo andava com uma embaixo do braço.

Eric Peterson – O Metallica sempre vinha assistir os nossos shows. Eu sempre via James e Kirk na plateia. Lembro de James sentado no Ruthie's com seu boné virado para trás. Ele ficava batendo nas mesas com os punhos e gritando “The Haunting”, “The Haunting”!

Gary Holt – O nascimento do thrash violento foi no Ruthie's. Havia figuras como o enorme Toby Haines, que pisava nas cabeças das pessoas. Ele tinha 1,96 metros e era bem pesado. A música “Bonded by Blood” é sobre os shows do Exodus no Ruthie's, onde sempre havia vidros quebrados por todo o palco e as pessoas se cortavam com eles. Os caras pegavam hepatite C e coisas do tipo!

Robb Flynn – Há uma espécie de mito a respeito do thrash, de que tudo era uma diversão saudável e intensa, mas não era bem assim. Havia muito perigo real envolvido, muita violência, não era nada seguro.

Eric Peterson – Ninguém tinha armas, mas havia muitos canivetes. Todo mundo tinha um canivete!

Bob Nalbandian (fundador da revista Headbanger) – Todo mundo acha que o speed metal, ou thrash metal como ficou conhecido depois, se originou em San Francisco, mas é preciso lembrar que três das bandas do Big Four começaram em Los Angeles.

Foi para Los Angeles que Dave Mustaine voltou após ter sido colocado para fora do Metallica devido aos seus excessos com drogas e álcool. Ele canalizou toda a sua fúria no Megadeth, a banda que criou com o baixista Dave Ellefson. A dupla era o Toxic Twins do thrash metal (nos anos setenta, Steven Tyler e Joe Perry, do Aerosmith, ganharam esse apelido devido à quantidade industrial de drogas que utilizavam, em uma alusão ao Glimmer Twins, como eram conhecidos Mick Jagger e Keith Richards, dos Rolling Stones) – junkies que faziam de tudo para conciliar a carreira musical com o vício em heroína (a dupla gastou metade do adiantamento de 8 mil dólares recebido em 1985 para a gravação do seu disco de estreia, Killing is My Business … and Business is Good, em drogas, bebidas e, em dose menor, algum alimento). Apesar disso, havia muita expectativa pelo disco seguinte do grupo, Peace Sells … But Who's Buying?.

Dave Mustaine (Megadeth) – Eu achava o que nós havíamos feito no Metallica muito bom e revigorante. Eu vivia sozinho desde os meus 15 anos. Todo dia eu acordava, tocava guitarra e vendia maconha para sobreviver. A minha vida era assim. Eu estava apto para ter um emprego verdadeiro na indústria da música, convenhamos … Mas como parecia que isso não iria acontecer, eu entrei em um modo de preservação. Foi assim que o Megadeth surgiu, porque eu desenvolvi habilidades de sobrevivência desde que os meus pais haviam se separado.

Dave Ellefson (Megadeth) – Morávamos em Los Angeles, mas nos sentíamos como peixes fora d'água. Havia um submundo ao nosso redor. Nós éramos basicamente sem-teto e ficávamos com qualquer garota que se interessasse por um músico. Vivíamos em minha van ou em nosso local de ensaio. Nosso vício em drogas era um grande problema, e também causava dificuldades financeiras. Nós literalmente descemos para o inferno!

Dave Mustaine – A cidade em que a gente morava, Los Angeles, era muito perigosa. Mas nós também éramos. Muitas dessas brigas entre as bandas glam e de thrash que contam por aí eram realmente perigosas, principalmente por causa da heroína. Os caras do Mötley Crüe desfilavam em carrões enquanto pessoas morriam embaixo de suas rodas. Era uma época bem perigosa …

Dave Ellefson – Dave e eu não tínhamos um plano B, empregos fixos e estudo. Éramos dois sem-teto que viviam juntos. Coisas assim são o DNA de uma grande bandas. É isso que o Megadeth tem.

Dave Mustaine – Havia gente drogada por todos os lados, uns deitados no chão e outros mijando ao redor. Era glamoroso? Nunca! A maneira como gravamos discos hoje em dia é muito mais agradável para mim. Naquela época fomos para o The Music Grinder Studios, que era um lugar bem legal e ficava em um local da moda com um monte de peruas ao redor e um hot dog muito bom por perto. Com um pouco de dinheiro para a comida e para a heroína, tínhamos um bom dia.

Bob Nalbandian – Eu entrevistei Dave Mustaine logo depois que ele saiu, ou foi demitido, do Metallica. Ele era muito convencido e um pouco arrogante, mas de uma maneira positiva. Se você ler essas entrevistas hoje em dia, você verá que ela tinha uma atitude de não se importar com nada e uma determinação total para alcançar o sucesso e ser o melhor no que fazia.

Dave Mustaine – Eu lembro de me apaixonar por Belinda Carlisle, da banda The Go-Go's. Ela veio ao estúdio me ver um dia, e eu tinha acabado de cheirar heroína quando ela bateu na porta. Ela era contra as drogas, e eu estava totalmente perdido. Eu realmente não sei o que aconteceu para eu ter ficado sóbrio. Talvez a gente pudesse ter casado e tido um monte de filhos, eu não sei, mas esse dia foi um dos piores na gravação daquele disco, com uma grande oportunidade balançando na minha frente e eu deixando-a passar.

Lars Ulrich – Quando você ouvia Peace Sells pela primeira vez em 1986, ou se você vai ouvi-lo pela primeira vez hoje em dia, ele continua sendo um grande disco de heavy metal. Nem mais, nem menos. Ele passou pelo teste do tempo.

Dave Mustaine – Deixa eu dizer uma coisa para você: Peace Sells não é apenas um disco, é um estilo de vida. É isso que ele é, tanto para os nossos amigos como para os nossos inimigos.

Em 3 de março de 1986, Master of Puppets desembarcou nas lojas com um adesivo falso de aviso aos pais grudado na capa, em que se lia: “A única faixa que você não vai querer tocar é 'Damage, Inc.', por causa do uso infame da palavra que começa com 'F'. Fora isso, não há quaisquer 'shits', 'fucks', 'pisses', 'cunts', 'motherfuckers' ou 'cocksuckers' em qualquer outra música deste disco”. Três semanas antes, no Kansas Coliseum em Wichita, o Metallica começou uma turnê de cinco meses abrindo para Ozzy Osbourne. Isso impulsionou Master of Puppets para a posição número 29 da Billboard, uma façanha totalmente inconcebível 12 meses antes.

Mick Wall (jornalista) – O Mötley Crüe saiu com Ozzy, e os caras voltaram como estrelas. O Def Leppard saiu com Ozzy, e eles voltaram como estrelas. O Metallica saiu com Ozzy, e eles voltaram como estrelas. Era assim que as coisas funcionavam.

Brian Slagel – Os shows com Ozzy foram a primeira vez em que as bandas de thrash metal romperam as barreiras da cena que vieram.

Ozzy Osbourne – Eu estava caminhando perto do ônibus deles antes do show, ouvi alguém tocando algumas canções antigas do Black Sabbath e pensei que estavam tirando uma comigo. Eles não falavam comigo e sempre mantinham uma certa distância. Eu achava aquilo realmente estranho. Fui até o tour manager e perguntei: “Isso é uma piada ou algo do tipo?”. E ele respondeu: “Não, eles pensam que você é um deus!”.

Lars Ulrich – Essa foi a primeira vez que nós saímos de nossa região. Foi a primeira vez em que aparecemos no radar do mainstream.

Gary Holt – Os caras do Metallica eram todos meus amigos, então eu estava muito feliz com tudo o que estava acontecendo com eles. Desde que eles gravaram Ride the Lightning nós sabíamos que algo iria acontecer com a banda. E quando eles fizeram Master of Puppets ficou claro que eles eram melhores que qualquer um de nós.

Lars Ulrich – Lembro da última data com Ozzy, em Hampton, na Virginia. Nosso manager, Cliff Burnstein, veio de Nova York para assistir o último show. Ele se sentou no ônibus e disse: “Vocês estão vendendo discos suficientes para comprar muitas casas”. Nós ficamos cinco meses em turnê com Ozzy. Todos no mesmo ônibus, banda e equipe, bebendo 12 horas por dia, vivendo todas as fantasias mais malucas que tínhamos envolvendo garotas e heavy metal. Lembro de Cliff sentado e falando: “Fuuuuuuuuuuuuuuuckkkkk, eu posso comprar uma casa!”. O resto de nós não queria comprar uma casa, só queríamos continuar em turnê.

Kirk Hammett – Eu nunca imaginei que faríamos sucesso. Comparando o Metallica com os outros artistas nas paradas, éramos uma laranja podre no meio de um monte de belas maçãs.

Mick Wall – A grande diferença entre o Metallica e o resto era isto: eles tinham um grande disco, mas também tinham Lars Ulrich e Peter Mensch e Cliff Burstein, da Q Prime. Eles sabiam que não iriam tocar na MTV, então foram hábeis ao declarar “nós não vamos gravar nenhum clipe”. Ao mesmo tempo, Lars estava negocionando com Michael Alago, o chefão do selo A&R da Elektra, além de promotores e todo tipo de gente assim. Eles eram a base e a corporação ao mesmo tempo. Lars era um cara que poderia fazer carreira na indústria da música como executivo. Essa era a diferença.

Charlie Benante – Naquele tempo, o Headbanger's Ball estava começando na MTV. Eles mijavam em você durante uma hora e, se você tivesse sorte, via um vídeo do Bon Jovi ou do Poison. Era assim que funcionava, mas as coisas estavam mundando.

Graças a Master of Puppets, o thrash metal havia chegado ao mainstream. Outras bandas foram contratadas por grandes gravadoras depois do Metallica. Uma delas foi o Slayer, que trabalhava em seu terceiro álbum, Reign in Blood, enquanto o Metallica estava na estrada com Ozzy.

Brian Slagel – Havia uma competição entre as bandas para ver quem tocava mais rápido. Era por isso que elas eram classificadas de speed metal antes do surgir o termo thrash metal. O Slayer queria ser a banda mais rápida e pesada de todas.

Tom Araya – Nós tínhamos algo de black metal vindo do Venom, e isso nos colocou em outro nível. A ideia por trás de Reign in Blood era não fazer outro álbum lento como Hell Awaits, mas sim um disco rápido com canções curtas. Esse era o nosso objetivo.

Kerry King (Slayer) – O que eu lembro de quando compus essas canções? Não faço a menor ideia, cara …

Brian Slagel – Alguém me falou que Rick Rubin estava interessado no Slayer, e eu pensei: “Ok, isso é interessante. Def Jam, um selo de rap ...” Fui encontrá-lo, e Rubin era, definitivamente, muito mais headbanger do que eu imaginava. Ele realmente desejava o Slayer, e foi mais agressivo que qualquer outro que queria ter o grupo.

Tom Araya – O que Rick Rubin trouxe para o processo? O seu ouvido musical. O que aconteceu com Reign in Blood é que, embora ele fosse rápido, você podia ouvir tudo. Esse foi o toque de Midas de Rubin.

Brian Slagel – As demos de Reign in Blood tinham cerca de 34 minutos, mas quando finalizamos o disco ele tinha aproximadamente seis minutos a menos.

Tom Araya – Nós fizemos as mixagens, e eu pensei: “28 minutos?”. Falei para Andy Wallace, que era o engenheiro: “Isso é tudo?”. Ele: “Bem, é isso”. Perguntamos se isso seria um problema para Rick, e ele respondeu: “Bem, um álbum se constitui de 10 faixas, e nós temos 10 faixas”.

Jeff Hanneman (Slayer) – Quando nós finalizamos o disco e vimos a capa, uma pintura do artista Larry Carroll com Satã sendo carregado por homens com ereções, eu soltei um “yeah”! Eu tive a pintura original em minha casa durante anos.

Kerry King – Eu acho a capa legal e demoníaca. Ela não me incomoda em nenhum sentido. E, na boa, eu realmente não me importo com isso.

Tom Araya – Foi preocupante quando a Columbia se recusou a lançar o disco. Isso aconteceu por causa daquela faixa, “Angel of Death”, sobre o médico nazista Joseph Mengele.

Jeff Hanneman – Assisti um documentário que falava como os assuntos que você utiliza para escrever sobre o demônio, e a pesquisa que você faz para isso, faz você perceber o quão doentio o ser humano pode ser.

Kerry King – É assim que as coisas funcionam. Nós não tentamos mostrar quem é bom ou quem é ruim.

Lars Ulrich – Eu acho que o Slayer é a banda mais interessante daquela cena porque eles são os mais extremos. Eles não dão a mínima para ninguém, e por isso são tão legais.


Em 10 de setembro de 1986, no St Davis Hall em Cardiff, no País de Gales, o Metallica iniciou uma tour pela Europa como atração principal, tendo o Anthrax como banda de abertura. No dia 27 de setembro, depois de um show em Estocolmo, eles voltaram para o ônibus da turnê para uma viagem noturna até Copenhagen. Nas primeiras horas da manhã, próximo à cidade de Ljunby, o ônibus derrapou no gelo e capotou para fora da estrada. Cliff Burton foi jogado de seu beliche e atravessou a janela. O ônibus caiu em cima do baixista, tirando sua vida. Pouco antes, Cliff tinha jogado uma moeda com James para decidir quem ficaria com o beliche. Acontecia o primeiro choque de realidade do thrash metal.

Charlie Benante – Nós estávamos viajando na frente. Nos despedimos, e quando chegamos ao local encontramos crianças nos perguntando: “Vocês viram o que aconteceu com o Metallica?”. Eu já havia perdido pessoas na minha família, mas aquilo foi muito estranho.

James Hetfield – Eu vi o ônibus deitado em cima dele. Vi suas pernas esticadas para fora, e surtei! O motorista estava tentando puxar o cobertor que estava com Cliff para dar para outra pessoa. Olhei para ele e gritei: “Não faça isso!”. Eu queria matar aquele cara. Nosso tour manager falou: “Vamos manter a banda unida e voltar para o hotel”. Eu pensei: “A banda? Não existe mais banda, somos apenas três caras”.

Gem Howard – Tinha uma jornalista japonesa chamada Terri Mashizuke. Ela era como uma garotinha de escola, bem pequena. Ela entrou no escritório da Music for Nations em prantos, e a maioria de nós começou a chorar.

Eric Peterson – Nós tínhamos um show com Jonny e Marsha Z, da Megaforce Records. Jonny era muito próximo do Metallica naquela época. Estávamos ensaiando, e Jonny olhava fixamente para o bumbo. Ele estava perdido, e falou: “Cliff morreu na noite passada”. E começou a chorar. Todos nós derramamos algumas lágrimas.

Kirk Hammett – Nos últimos quatro ou cinco meses de sua vida, Cliff começou a tocar bastante guitarra. Ele fazia uns acordes enquanto ouvia música e pedia umas dicas para mim. Lembro que ele amava a maneira como Ed King, do Lynyrd Skynyrd, tocava.

Dave Mustaine – Eu sempre pensei em Cliff como um grande músico. Nós não tivemos a chance de ter qualquer tipo de relacionamento.

Lars Ulrich – Nós ficamos obviamente de luto, mas depois que a raiva começou a passar percebemos que ele não morreu da maneira como as pessoas que estão envolvidas com o rock morrem, geralmente em consequência do uso abusivo de álcool e drogas. Cliff nunca fez isso.

Brian Slagel – Umas quatro semanas depois da morte de Cliff, Lars me ligou e perguntou se eu não tinha um baixista para indicar para a banda. Minha primeira sugestão foi Joey Vera, do Armoured Saint, mas ele não quis sair do grupo. Então eu falei: “Olha, tem uma banda chamada Flotsam and Jetsam, e o baixista é um grande fã do Metallica. Acho que é o cara certo”. O Flotsam era a banda de Jason Newsted, ele compunha tudo lá. Chamei Jason para conversar e disse: “Você está indo de uma banda onde compõe todo o material para uma onde não poderá falar nada. O Metallica é a banda de Lars e James, você será apenas o baixista. Tudo bem para você?”. Depois de um mês, Jason estava no Metallica.

Quando o Metallica retornou aos palcos após a morte de Cliff Burton, o thrash metal havia alcançado o grande público. No topo, junto com eles, estavam o Slayer e o Megadeth, cujos álbuns Reign in Blood e Peace Sells … But Who's Buying? foram lançados com uma distância de apenas três semanas entre um e outro, entre outubro e novembro, pela Def Jam e pela Capitol. Ambos chegaram ao top 100 norte-americano. Os críticos da cena não gostaram nada disso, mas o thrash metal era agora uma realidade. Vinte e cinco anos depois, 1986 parece e soa como um ano lendário. As coisas nunca mais foram as mesmas para qualquer uma das bandas envolvidas.

Brian Slagel – Estão todos maduros e cresceram como músicos, têm mais dinheiro e tempo para fazer as coisas e estão trabalhando com pessoas melhores. Houve uma demanda e uma grande novidade quando essas bandas surgiram, tudo culminando naquele ano.

Gem Howard – Você tem esses períodos no rock. Em 1967-1957 foi o pico do rock and roll. Em 1966-1967 houve o movimento hippie. Em 1976-1977, o punk. E em 1986-1987, tivemos o thrash metal. Este ciclo de dez anos parece ter acabado aqui.

Charlie Benante – Nós fomos da Megaforce para a Island, que era a casa de todo mundo, de U2 a Bob Marley a Anthrax.

Bob Nalbandian – A mentalidade das grandes gravadoras era: “O dinheiro é o que interessa, então vamos sugar todas as bandas que conseguirmos”. E essa foi a razão pela qual, alguns anos mais tarde, elas começaram a assinar com qualquer banda 'thrash', saturando a cena com um monte de merda, que, inevitavelmente, levou ao declínio do thrash metal no final dos anos 80 e durante toda a década de 90.

Dave Ellefson – Estar em uma grande gravadora era manter a porta aberta para os nossos fãs. 1986 foi um grande ponto de virada. A ordem era ser grande, ser diferente. E nós sabíamos que éramos diferentes.

Gary Holt – Metallica, Megadeth, Slayer e Anthrax de longe foram as bandas que mais venderam discos. Às vezes leio coisas do tipo “Exodus, Testament, estas bandas eram seguidoras, por isso não estão no Big Four”. O Exodus fez tudo antes que o Metallica, mas a verdade é que tudo se resume às vendas. Eu não tenho problema com isso. Todos nessas bandas são grandes amigos meus.

Jeff Hanneman – Eu deixei a minha marca no mundo, fiz algo e posso morrer feliz.

James Hetfield – Tem momentos em que eu romantizo tudo o que aconteceu. A vida era muito mais simples naquela época.

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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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