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PRB

Movimento Progressivo Mineiro II

Por Claudio Fonzi
Em 21/08/01

No início da década de 80, houve uma grande decadência do gênero Progressivo, notadamente na Inglaterra, Itália e Alemanha, os três países fundamentais na criação e difusão do estilo. Paradoxalmente, em alguns países de menor expressão começaram a surgir bandas e músicos de altíssimo nível, tais como EAST e SOLARIS na Hungria, GANDALF na Áustria, AGAMEMNON e ELOITERON na Suiça e KANZEON, OUTER LIMITS, MUGEN, GERARD e muitos outros representantes da incrível geração japonesa.

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No Brasil, tal fenômeno igualmente ocorreu, pois surgiram nesse período, nada mais nada menos que três dos maiores representantes Progressivos do continente sul-americano.

Um deles, o carioca BACAMARTE, gravou apenas um álbum, intitulado "Depois do Fim", e não pôde deixar sua marca na história da forma que merecia, mas os outros dois certamente deverão ser lembrados em qualquer antologia ou estudo que se faça:

São os mineiros MARCO ANTÔNIO ARAÚJO e SAGRADO CORAÇÃO DA TERRA, cuja simples existência já justificaria plenamente a criação de um artigo detalhado sobre o MOVIMENTO PROGRESSIVO MINEIRO.

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Como já vimos na 1ª parte, o estado de Minas Gerais foi (e é) o mais importante no cenário Progressivo nacional, não somente pelas suas bandas, mas também pelos seus músicos, e os dois elementos citados acima surgiram para comprovar definitivamente essa afirmativa.

1 - Iniciando a década

Em 1980, o violonista, guitarrista e violoncelista MARCO ANTÔNIO ARAÚJO (ver parte 1), depois de uma década de paixão musical, finalmente pôde lançar um trabalho seu, o que fêz com absoluto brilhantismo.

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Trata-se do magistral album "Influências", composto por seis belíssimas faixas totalmente instrumentais (como toda sua obra restante) e de caráter ricamente sinfônico.

Utilizando seus conhecimentos de Rock e de música erudita (era violoncelista da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais) e auxiliado pelos seus brilhantes companheiros do GRUPO MANTRA (Alexandre Araújo, Antônio Viola, Eduardo Delgado, Ivan Correa e Mario Castelo), lançou mais três obras de incontestável beleza: os álbuns "Quando a Sorte te Solta um Cisne na Noite" (de 82, que contou, entre outros, com o belíssimo piano de Max Magalhães), "Entre Um Silêncio e Outro" (de 83, este é na verdade, um disco puramente barroco, e que não contou com seus companheiros do MANTRA) e "Lucas", lançado em 1985 e com Jacques Morelembaum no lugar de Antônio Viola e Lincoln Cheib no de Mário Castelo.

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Apesar de trabalhar com um estilo de difícil aceitação, ainda mais em um período musicalmente tão estéril, as obras de MAA sempre obtiveram fortes elogios da crítica especializada, e justamente quando iria obter o tão merecido reconhecimento (receberia o prêmio de "Instrumentista do Ano", eleito em concurso nacional da revista "Veja"), veio a falecer durante o sono em 06/01/86, às vésperas da entrega do prêmio.

Assim sendo, partia para outra dimensão física, o maior nome da Música Progressiva Instrumental Sul-americana e, porque não dizer, um dos mais criativos e talentosos do gênero a ter habitado esse planeta.

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2 - O Sagrado grava seu 1º album e desponta para o mundo

Após alguns anos na estrada, o ano de 1984 marcou o surgimento fonográfico da mais importante e famosa banda Progressiva de nosso país, o SAGRADO CORAÇÃO DA TERRA.

Sempre liderado pelo violinista, tecladista e vocalista MARCUS VIANA, iniciaram sua trajetória com o album homônimo, belíssimo em todos os aspectos, desde o musical e poético (músicas e letras compostas por Marcus) até o gráfico, concebido por Marcus e magistralmente realizado por Alexandre Lima e Júlio Távora.

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Muitos integrantes passaram pelas suas fileiras, mas, nada foi mais marcante na história da banda que a angelical presença da cantora Vanessa Falabella, cuja voz encantava a todos os presentes nos shows desse período.

O ano de 1985 foi de vital importância para o SAGRADO, devido a extremamente bem sucedida temporada na Sala Funarte no Rio de janeiro. Inicialmente com pouco público, devido a banda ser ainda totalmente desconhecida, a temporada teve seus últimos dias com lotação absolutamente esgotada e com dezenas de pessoas desoladas no lado de fora do teatro.

Após esse sucesso, o Rio de Janeiro tornou-se o maior consumidor de seus discos, não somente pelo público em si, como pela grande quantidade de exportadores de discos progressivos ali residentes. Assim sendo, em pouquíssimo tempo, este 1º album podia ser encontrado nas principais lojas especializadas do planeta, demanda que aumentou enormemente a partir de 1987, quando do lançamento do álbum "Flecha".

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Concebido e fabricado com o mesmo esmero do antecessor, "Flecha" possuía um acento mais "pop", mas, mesmo assim, mantinha o caráter belamente sinfônico e melódico do anterior.

O grupo obteve então, um sucesso quase que inimaginável naquela época, pois tal disco conseguiu a façanha de ter a faixa-título inserida em uma trilha sonora de novela da poderosa Rede Globo, além de terem sido contratados pela multinacional CBS (atualmente SONY), que relançou este disco.

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Outra inigualável façanha foi terem sido lançados no Japão pela King Records, que editou por lá não somente estes 2 discos, como também o seguintes, "Farol da Liberdade" de 1991 e "Grande Espírito", de 1993.

Quando "Farol..." surgiu, Marcus Viana já era um nome respeitadissimo na televisão brasileira, pois havia sido o responsável pela grande transformação na concepção de trilhas sonoras de novelas e mini-séries.

Inicialmente na Rede Manchete, seu sucesso surgiu quando criou a trilha da novela "Pantanal" e prosseguiu com várias outras ("Ana Raio e Zé Trovão", "Canto das Sereias" etc), passou pela Bandeirantes ("Idade da Loba") até se estabilizar na Globo ("Xica da Silva", "Chiquinha Gonzaga", etc, etc.).

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Diversos Cds dessas trilhas já foram lançados, sendo que Marcus editou ainda vários Cds dedicados a meditação e que receberam o nome de "Música das Esferas".

Em relação ao SAGRADO, a banda continua de vento em popa, tendo editado mais 2 CDs, sendo que o último, lançado este ano, é totalmente cantado em inglês, visando fundamentalmente o mercado externo.

3 - Outros representantes da década de 80

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Em 1981, é editado "UAKTI- Oficina Instrumental", disco altamente criativo e inovador que marcou o início da trajetória de uma das mais singulares bandas brasileiras - o UAKTI.

Liderado pelo genial músico Marco Antônio Guimarães, o UAKTI possui uma sólida carreira fonográfica, com diversos títulos lançados e um nome extremamente respeitado no cenário da música instrumental, inclusive no exterior. Seu estilo musical passa muito distante da linguagem convencional do Progressivo, mas seu nível de experimentação é superior à grande maioria dos representantes do estilo.

A principal peculiaridade de sua música são os instrumentos absolutamente exóticos, a maior parte criada por ele mesmo, o mestre Marco Antônio Guimarães. Marco Antônio, por sua vez, além de compor c/ Marco A. Araújo e Marcus Viana, a "Santíssima Trindade dos Marcos Mineiros", é o principal compositor e instrumentista da banda.

Além dos belamente convencionais violoncelos, pianos, violões e flautas, destacam-se entre os inusitados instrumentos, as seguintes peças:

- Percussão: Trilobita, Itafone, Aurecular, Tambor-D’água, Grande Pan, Pan Inclinado, Pan Curvo, Caldeirão, Marimba D’Angelim, etc, etc.

- Cordas: Iarragunga, Torre, Planetário, Peixe, etc, etc.

Em 1982 lançam seu 2º album, intitulado "Uakti II", e em 84 passam a utilizar mais dois instrumentos exóticos - o Aqualung, que utiliza o som da água como matéria sonora e a Marimba de Vidro, que terá um papel extremamente importante nas composições e arranjos gravados a partir de então.

Assim sendo, prosseguem lançando discos e fazendo shows. No início deste ano participaram do Rock In Rio III, onde se apresentaram na Tenda Raízes.


Os anos 80 trouxeram ainda outras verdadeiras preciosidades, como o belíssimo "Himalaia", do violonista e guitarrista FERNANDO PACHECO (ex-integrante do RECORDANDO O VALE DAS MAÇÃS, que também possuía ramificações mineiras e lançou o lendário "As Crianças da Nova Floresta" em 1978), o album "Belorizonte", de 1983 e pertencente ao grupo AUM e o maravilhoso album "Nascente", editado em 82 pelo grande músico e cantor FLAVIO VENTURINI (ver parte 1) e com magnífica participação de Marcus Viana ao violino.

Vários outros grupos ainda existiram, mas a quase totalidade destes grupos, infelizmente, não chegou a gravar, tais como "CIA.ILIMITADA", MERCADO COMUM, VERA CRUZ, GRUPO NOVO e ÍCARO.

No próximo capítulo escreveremos sobre a maravilhosa Geracão 90 e as excelentes bandas CÁLIX, CARTOON, MANTRA (não é o grupo que acompanhava o Marco A. Araújo), MODUS VIVENDI, DOGMA, ARION, TISARIS, NILTON GAPPO, CELSO MOGGA, AUGUSTO RENNÓ, LIZARDS, etc, etc...


Este artigo foi elaborado em homenagem a um dos maiores nomes da Música Progressiva, MARCO ANTÔNIO ARAÚJO - que completaria 52 anos de vida em 28 de agosto próximo.

Seu corpo físico se foi, mas sua alma estará eternamente vinculada aos corações de todos aqueles que ouviram, ao menos um vez, alguma de suas músicas.


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Sobre Claudio Fonzi

Nasceu em Petrópolis (RJ), em 22 de março de 1964. É Produtor Fonográfico (Som Interior Produções Artísticas) desde 1988, Programador Musical (produziu por 4 anos o programa Tribuna Progressiva, além de ter exercido por 18 meses a função de Programador Geral da emissora Tribuna FM), Produtor de shows e eventos nacionais e internacionais (entre eles, em 1997, a 1ª turnê brasileira da "Voz do Renaissance" - a cantora inglesa Annie Haslam) e comerciante de discos (proprietário da Renaissance Discos desde 1993). Além disso, publica artigos e resenhas desde 1997, em veículos variados, tais como o jornal Metamúsica (Campos - RJ), o jornal Culturarte (Petrópolis - RJ), a revista Poeira Zine (São Paulo - SP) e diversos websites e foruns de discussão.

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