Viper: a volta de Andre Matos e o que isso significa

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Viper: a volta de Andre Matos e o que isso significa

Postado por Carlos Eduardo Corrales | Fonte: Delfos

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O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

Matéria originalmente publicada no Delfos
http://www.delfos.jor.br

Semana passada, o mundo do heavy metal nacional teve uma notícia tão inesperada quanto bem-vinda: a volta do Andre Matos ao Viper. Mas por que isso aconteceu? E por que agora?

Em 2009, eu escrevi um texto falando sobre o declínio do heavy metal, onde eu analisava a aparente diminuição de popularidade do estilo e elaborava sobre os motivos que levaram a isso (sobretudo o envelhecimento do público e a não renovação dele).

Os motivos que me inspiraram a escrever aquele texto estão explicados ali, mas como sempre acontece quando falamos de heavy metal, um monte de gente ficou brava com minha insinuação de que seu estilo preferido estava perdendo público.

Hoje, quase três anos depois, a tendência que apontei quando ainda estava em seu início, se confirmou. Hoje não acho que alguém negaria que o metal está menos popular do que foi entre cinco e dez anos atrás. Ora, no início dos anos 2000, bandas como o Vision Divine (que nunca teve a popularidade de um Helloween, por exemplo), tocavam no Via Funchal ou no Credicard Hall.

Hoje, bandas desse porte dificilmente fazem shows no nosso país. Brasileiros hoje em dia estão restritos a ver apenas os medalhões, com uma ou outra exceção que felizmente sempre surpreende os fãs. E você pode culpar os produtores? Ora, o Accept, uma das maiores e mais importantes bandas do gênero, vem ao Brasil pela primeira vez e toca no pequeno Carioca Club. Se essa volta da banda, ainda que sem o Udo, tivesse rolado em 2005, alguém tem dúvidas que o show seria no Credicard Hall? Talvez até dois dias?

Até mesmo o Helloween, que é presença garantida por aqui em praticamente todas suas turnês, está sofrendo com isso. Eles costumavam tocar duas noites no Via Funchal ou em um Credicard Hall transbordando de gente. Hoje, para ter um público satisfatório, eles precisam trazer a tiracolo outros medalhões do gênero, como o Gamma Ray ou o Stratovarius. E por mais que seja legal ver duas bandas desse porte pelo preço de uma, não muda o fato de que cada uma delas lotava uma casa de show sozinha poucos anos atrás. Assim, a diminuição de popularidade é inegável. O que nos leva à carreira do Andre Matos.

COMO ASSIM O ANDRE MATOS FOI DO VIPER?

Pela minha idade, eu conheci o popular Dedé Matos na época do Angra. A banda estava entre o Angels Cry e o Holy Land quando comecei a me interessar por metal (lembro de ter comprado o Holy Land na semana de lançamento por R$ 16,00). Só um bom tempo depois fiquei sabendo que ele tinha sido o vocalista do Viper, e me surpreendi pra caramba, porque pra mim o Viper era isso:

No início da minha adolescência e começando a desenvolver o interesse por metal, eu achava esse clipe assustador. A letra fala coisas como Fuck them all e tal. Hoje, claro, não vejo nada de malvado nesse clipe. O Pit Passarel está até usando uma camiseta do Taz, pô! =]

Mas para alguém que ainda conhecia pouco além de Angra, Helloween e Iron Maiden, a música Coma Rage era “as brutal as it gets”. E era curioso alguém como o Dedé estar envolvido em uma banda que eu só conseguia classificar como algo na linha de Brutal Death Hail Satan Black Anal Fucking In Your Face Metal. Claro, hoje eu vejo que Coma Rage nem é tão pesada assim, mas vai falar isso para minha versão pré-adolescente.

Fiquei curioso, claro, e na primeira oportunidade comprei o Theatre of Fate. E pelo sono de Odin, foi paixão à primeira vista. Tudo que me atraiu de início ao Metal Melódico estava representado no álbum. Os flertes com música clássica, o vocal agudo, as letras positivas. Até hoje eu colocaria o Theatre of Fate ao lado dos Keeper of The Seven Keys do Helloween como o melhor disco de Metal Melódico. Sim, ele é bom assim! Se liga:

Esse solo é lindo! E veja essa:

Essas são apenas duas músicas de um disco em que todas são excelentes, até a introdução. Então se você curte o gênero e não conhece, vá atrás, pois vale a pena.

Eu gostei tanto do Theatre of Fate, que fiquei doido para conseguir o Soldiers of Sunrise, mas ele estava fora de catálogo e não conseguia encontrá-lo. Uns anos depois, ele foi relançado juntando no mesmo CD o Theatre e o Soldier, e foi minha chance de adquiri-lo.

Porém, a paixão à primeira vista que rolou com o Theatre of Fate não se repetiu com o Soldiers. Para falar a verdade, eu não gostei nem um pouco do disco e nunca mais me deu vontade de ouvi-lo. Até a última quinta-feira, quando a banda liberou a notícia da reunião e da turnê tocando os dois álbuns na íntegra. Coloquei os fones de ouvido e resolvi dar mais uma chance para o Soldiers.

Dessa vez eu gostei. Trata-se de um bom disco, embora esteja bem longe da qualidade do Theatre. É claramente um álbum feito por moleques, e aí está justamente seu charme. Quando eu vivia e respirava heavy metal, tinha banda e convivia basicamente com outros músicos, era comum ouvir demos de camaradas e elas normalmente soavam bastante semelhantes ao Soldiers. A gravação é fraca e a composição não é tão complexa, mas tem garra, e isso dá o charme para o disco.

As letras positivas e realistas falando sobre amadurecimento, uma das coisas que mais me agradaram no Theatre, são completamente diferentes em Soldiers. Aqui temos basicamente historinhas envolvendo guerreiros, cruzadas e coisas básicas do metal.

Além disso, tem um monte de erros de inglês nas letras, que chega a deixar engraçado. Lembra do filme O Balconista, e da música de metal russo, em que o cara fala “Would you like making fuck?”. É por aí.

É incrível o amadurecimento do Viper do primeiro para o segundo disco, tanto em termos líricos quanto de composição. Se o Andre Matos não tivesse saído e a banda não tivesse optado por mudar de direcionamento, é possível que eles realmente tivessem se tornado uma banda enorme, até mesmo internacionalmente. Mas Dedé saiu. E se deu muito bem no Angra.

ANDRE MATOS

A partir daí a história é mais conhecida. Na época do Angra, eu realmente gostava muito do vocal do Andre Matos. Quem viveu a época sabe que todo mundo tirava sarro do seu jeito um tanto feminino de cantar, mas para mim era justamente isso que o tornava especial. Se eu queria ouvir vocais agressivos, tinha um monte de outras bandas fazendo isso, e também gosto de vocais assim, mas qual outra banda de Metal, fora o Angra, tinha aquele vocal totalmente doce? O contraste da voz doce com a guitarra distorcida soava muito bem na banda. Era isso que tornava a voz do cara única. Nem o rouxinol Michael Kiske e seu belíssimo timbre era tão suave quanto o Dedé.

Infelizmente, Andre modificou totalmente sua forma de cantar para o terceiro disco do Angra, o Fireworks. A partir de então, ele começou a cantar “como homem”, e sei de muita gente que gostou mais assim. Eu, pelo contrário, não gostava desse novo timbre de sua voz, não por ser agressivo, mas o timbre dele dessa forma simplesmente não me agradava. E a partir daí ficava cada vez mais raro ele cantar como antes.

O Andre saiu do Angra, formou o Shaman com os outros saídos do Angra e eu ainda acompanhava a carreira dele com afinco. Daí veio o segundo disco da banda, que fez com que eu percebesse de uma vez por todas que o Andre Matos não cantava mais da forma que eu gostava. E foi aí também que parei de acompanhar sua carreira.

Logo, ele saiu do Shaman também, fez uma banda solo com os músicos que também saíram do Shaman e seguiu em frente. Mas parecia que cada vez ele tinha menos público.

Ainda outro dia, estava conversando com a patroa sobre quanto tempo fazia desde que nós vimos um show com o Andre Matos pela última vez. Uns anos atrás, nós assistíamos o cara ao vivo várias vezes por ano. Agora a última vez que o vi ao vivo foi no Live N’ Louder 2006. Faz seis anos, cara!

Admito que nem sabia que fim levou a carreira solo dele ou se a banda ainda existia até eles serem anunciados no MOA (e posteriormente cancelado o show), mas sei que ele chegou a formar o Symfonia com uma penca de músicos famosos, todos chutados de bandas grandes como Stratovarius, Helloween e Sonata Arctica. Aliás, todas elas bandas que tocavam em grandes casas de shows em São Paulo.

Essa banda veio para o Brasil no ano passado. Onde eles tocaram? Credicard Hall? Via Funchal? Não, delfonauta. Foi no Blackmore. Músicos que tocavam com suas bandas em grandes casas de show estavam tocando em um tradicional bar de São Paulo. E o preço estava muito barato para os padrões de shows internacionais.

Ainda assim, com preço baixo e em uma casa para poucas centenas de pessoas, aparentemente o show foi um fracasso e estava vazio. E quem diz isso não sou eu, mas o Edu Falaschi, naquela sua polêmica declaração. E, embora tanto Andre Matos como seu parceiro de Symfonia Timo Tolkki tenham tomado más decisões em suas carreiras, o problema não era especificamente com eles. O problema era a falta de interesse em metal por parte do público antigo (natural, pois o apelo do Heavy Metal é muito mais forte na adolescência e início da idade adulta) e a não conversão de headbangers mais jovens. Aquela mesma tendência que eu apontei em 2009, quando o problema estava dando seus primeiros sinais de existência.

A VOLTA DO VIPER

Quando o Shaman estava começando, eles fizeram um show em São Paulo com abertura do Viper, inclusive com direito a uma jam no final. Foi maior legal. Naquela época, se dizia entre jornalistas que empresários fizeram uma proposta de muito dinheiro para que o Viper voltasse com o Andre Matos, mas que o cantor não aceitou.

Faz sentido, não? O Shaman já tinha capa da Roadie Crew antes mesmo de ter um disco lançado. Aliás, antes mesmo de ter um disco, a banda já tocava no Via Funchal. Dedé não precisava disso na época. Hoje, meses depois do aparente fiasco comercial do Symfonia, e semanas depois de uma polêmica declaração de Timo Tolkki que diz que Andre Matos se interessa apenas por dinheiro, o Viper anuncia esse retorno. Hum...

Essa falta de público é péssima para os músicos, mas pode ser bom para o público. Bruce Dickinson não teria voltado para o Iron Maiden em 1999 se a carreira de ambos não estivesse passando por dolorosos perrengues na época. Da mesma forma, em poucas semanas poderemos ver o Kai Hansen tocando com o Michael Kiske no show do Unisonic o que, para mim, fã de ambos e de Helloween, é um grande sonho realizado. Isso também não aconteceria se ambos estivessem lotando estádios pelo mundo.

Isso não se limita a música. No cinema, nos anos 80, todo mundo sonhava em ver Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone no mesmo filme, e eles nunca toparam. Mas daqui a alguns meses veremos ambos juntos em Os Mercenários 2. O mesmo valeu para Freddy vs. Jason, que nem é tão legal, mas não teria sido lançado no auge da “carreira” dos personagens. Quando as pessoas estão com menos oportunidades do que estão acostumadas, elas ficam mais dispostas a fazer coisas que normalmente não fariam.

Quando Andre Matos supostamente se recusou a voltar ao Viper, a banda colocou Ricardo Bocci no lugar, deu alguns shows e até lançou um disco (All My Life, em 2007), que aparentemente não rendeu muitos resultados financeiros, pois a banda logo entrou em um hiato. Assim, o Viper também não estava em bons lençóis. Uma pena para os músicos, mas novamente, bom para nós, o público, pois possibilitou a notícia da semana passada.

Admito, eu não me empolgava tanto com uma notícia de música desde que Bruce voltou ao Maiden. A banda anunciou apenas uma turnê de um mês, ninguém falou nada até o momento sobre novos discos ou outras turnês, mas ainda assim é um show que eu vou curtir pra caramba. Se o Symfonia não me animou, apesar de ser ou ter sido fã de todos os músicos envolvidos, a volta do Viper me fez correr em círculos. E eu nem faço questão de músicas novas, o que quero mesmo é ouvir o Theatre of Fate ao vivo.

Espero que os músicos e o gênero como um todo, encontrem seus caminhos e se recuperem. Músicos precisam de dinheiro, como qualquer um de nós, motivo pelo qual acho injusto falar coisas como “Andre Matos só se importa com o dinheiro”, como fez o Timo Tolkki. Que o Viper voltou por dinheiro, é claro como água. Ora, é só ver que o guitarrista Yves Passarell, hoje no Capital Inicial, não topou voltar, e participará de apenas alguns shows. Afinal, pop/rock rende mais dinheiro do que metal. No lugar dele, eu faria a mesma coisa, você não?

Sinceramente, nem sei quanto dinheiro essa reunião pode render. Quantas pessoas com menos de 25 anos realmente conhecem o material antigo do Viper? E as que são mais velhas que isso e curtem a banda, vão querer ir ao show? Eu estou bem animado, mas será que realmente terá mais público que o Symfonia? Espero que sim, mas seja como for, eu vou contribuir dando meu dinheiro para eles de muito bom grado. Eu tive várias oportunidades de ver o Angra com Andre Matos, mas o Viper vi apenas naquelas jams que rolaram em shows do Shaman. Por isso, dia primeiro de julho estarei no tal do Via Marquês, com um sorrisão na cara e disposto a cantar junto até ficar sem voz. E você?

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Sobre Carlos Eduardo Corrales

Carlos Eduardo Corrales é jornalista e fotógrafo há oito anos. É editor-chefe do Delfos - www.delfos.jor.br - o maior site nerd de jornalismo parcial reflexivo humorístico do mundo. Sua principal característica é não levar nada a sério, até mesmo quando fala sério. A única exceção, claro, são os ensinamentos do Deus Metal. Com esse ele não brinca, pois não quer que o Vento Preto venha tirar satisfação.

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