Em 09/12/2011 | Heavy Metal: e se falta originalidade na cena brasileira?

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Heavy Metal: e se falta originalidade na cena brasileira?


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Nos últimos tempos, figurões da cena heavy metal brasileira pegaram seus “microfones” para protestar contra a desatenção e o descaso de seus conterrâneos em relação à prata da casa. “Por que só o que vem de fora presta e o nosso é uma merda?”, disse Thiago Bianchi, vocalista do Shaman, em 2010. Eduardo Falaschi, do Angra – e Almah – disse, neste ano, que o brasileiro dá muito mais valor para o que é estrangeiro. Depois, ele apareceu dizendo – pedindo desculpas “a quem se sentiu ofendido” – que a declaração foi um desabafo.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

Esses são alguns exemplos pontuais a respeito da polêmica em relação à predileção do fã de rock brasileiro ao que é estrangeiro. No entanto, muitos músicos, jornalistas e fãs aparecem apontando o fato, mas vários, esquecem de contextualizar e de, principalmente, se perguntar por que o brasileiro presta mais atenção em artistas internacionais que nos nacionais.

Em primeiro lugar, ter predileção por alguma coisa – prefiro o branco ao preto, ou a Kaiser a Skoll – é uma questão de subjetividade. A velha e famosa questão de gosto – a qual alguns artistas, inclusive, apelam pra justificar um trabalho ruim. Então, aparecer na Internet simplesmente dizendo que o brasileiro não dá atenção ao que é brasileiro porque é implicante, preconceituoso e prefere o internacional, é, no mínimo, muito simplista e rasteiro. Claro que podem existir casos em que os olhos e ouvidos são fechados à prata da casa por uma questão cultural. Aquela coisa incutida na mente de que o bom, mesmo, é o rock americano ou o inglês. Mas, certamente, há casos espontâneos: prefiro Death ao Krisium por uma pura e simples questão de gosto. O primeiro me agrada mais. Ponto final. E aí?

Em segundo lugar, é notório que muitas bandas brasileiras são as primeiras a se desvalorizar, a deixar de lado a sua cultura e sua raiz para empreender um modelo americano ou europeu, considerado paradigma. Eu me recordo da virada do século. Nos anos de 1999 e 2000, especialmente, o mundo foi bombardeado por bandas de heavy metal melódico. Era realmente uma praga bíblica. Se você era um garoto e queria ter uma banda, o heavy metal melódico era praticamente um cabresto. Se você não gostava do estilo, e queria ter sua própria banda, então você iria sair por aí procurando músicos e iria se frustrar, porque 90% deles iriam querer fazer metal melódico. O estilo estava na moda. Os dragões, e cavaleiros, e “open my eyes”, e fadas e mundos medievais nunca estiveram tão em alta quanto naquela época. Importamos, de fora, o modelo que estava em voga e aceitamos que aquela direção – a ditada pelos gringos – era a certa a tomar. E quantas bandas brasileiras não disseram “Ok, vamos nessa”, e ficaram famosas fazendo o que Kai Hansen inventou?

As bandas brasileiras que, à época, conseguiram sair da garagem e gravar um álbum investiam em metal melódico. As que ficaram pra trás, as que desistiram ou se desgastaram, estavam investindo em metal melódico. Então, não se via nada na cena além de heavy metal melódico e ponto final.

E o curioso é que artistas oriundos da cena do metal melódico, agora, aparecem criticando o público que os sustenta, e dizendo que o brasileiro não valoriza sua cultura. Aí, é no mínimo ironia. Artistas que cantam em inglês reivindicam do seu público, falante de português, que o que é brasileiro seja valorizado.

Então, além do fato de muitas bandas brasileiras serem uma mera cópia do que vem lá de fora, existe a questão da qualidade. Então, eu tenho de ir aos shows e comprar o material de uma banda somente porque ela é oriunda do meu país? Não. E se eu simplesmente achar ruim o que está sendo feito no meu país, não por uma questão de birra ou preconceito, mas por orientação de gosto, mesmo? Se o Angra atual e o Scorpions estiverem tocando no mesmo dia e na mesma hora a uma distância de um quilômetro de minha casa, podem ter certeza de que eu vou ao Scorpions. E não porque o Angra é brasileiro e o Scorpions é alemão. É porque não gosto do que a banda vem fazendo no momento. Simples demais.

Mas, se o Dr. Sin estiver disputando minha atenção com um Bullet For My Valentine da vida. É certo de que irei prestigiar o Dr. Sin, simplesmente porque gosto do som deles – não porque eles são brasileiros – e não consigo escutar mais que um minuto de qualquer coisa que o Bullet For My Valentine faz.

Já que falei do Angra, quero frisar algo: Eu estou longe de ser um fã de heavy metal melódico. Por questão de gosto, mesmo. No entanto, tiro o chapéu e aplaudo de pé tudo que a banda fez até “Fireworks”. A banda fez seu nome no Brasil e no exterior porque se destacava. Além da qualidade de todos os músicos que estavam no time na época, o som era diferente do que a concorrência estrangeira fazia. Era um trabalho cativante, genuíno, recheado de identidade brasileira. O som transmitia, ao ouvinte, o Sol do Brasil e o clima de verão de nosso país. Infelizmente, também por questão de gosto, deixei de acompanhar o que a banda passou a fazer após “Rebirth” (outro grande disco). Acho que, depois, o Angra virou apenas mais um na multidão, sem nada mais a acrescentar.

“Vocês acham que é isso que nós merecemos?”, reivindicou Thiago Bianchi, em relação às atenções do público e da cena brasileira, em geral. Eu acho que não é questão de merecimento. É questão de gosto, mesmo. Reclama-se de produtores e da mídia, que se focam, também, no que é internacional. No entanto, gostem os senhores ou não, produtores e mídia ainda vivem de dinheiro. Então, não existe nenhum louco da área de produção cultural ou da própria mídia que vai queimar suas fichas em algo que pode não dar lucro. Se uma rede de TV qualquer for transmitir um filme brasileiro chato pra caramba, algo feito lá em 1980, e a concorrente estiver transmitindo, no mesmo horário, o último lançamento do cinema americano, o fiasco de Ibope vai ser épico. É a lógica da oferta e procura.

É simplesmente porque, como disse sabiamente Fernando Quesada, baixista do Shaman, em nota que foi publicada no Whiplash.net: “Somos um país e um povo que tem por cultura a admiração pela cultura estrangeira, desde bandas, marcas, roupas, alimentos, séries de televisão, filmes etc... Sempre fomos assim, é só andar na rua e ver uns escritos em inglês por todas as placas, ou ouvir um som e ver que é cantado em inglês! Isso é uma coisa normal! É normal irmos a um show gringo de alguém que está longe de nosso alcance e prestigiar essa diversidade cultural.”

Então, a melhor coisa que devem fazer aqueles que protestam em relação às atenções do público brasileiro, bem como sobre sua predileção ao que vem de fora, é desenvolver o seu trabalho com competência, originalidade, ousadia e autenticidade. O público está cheio de vocês ou sequer sabe de sua existência? Então, dêem ao público algo fantástico! Apresentem ao público brasileiro algo genuíno, que nem gringo tem peito pra fazer. Destaquem-se, não só no Brasil, mas no mundo, e vocês vão ganhar a multidão. Sejam vocês os primeiros a esquecer dos gringos. É! Deixem eles de lado, sigam suas vidas, sigam sua música, seu talento, e façam o melhor do mundo. Assim, as orelhas e coração do público serão seus! O que certamente não vai acontecer se vocês continuarem reclamando com velhas.

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Sobre Igor Z. Martins

Jornalista do interior do Paraná, Igor entrou no mundo do rock pesado em 1998, com "The X Factor", do Iron Maiden. Posteriormente, cairam em seus ouvidos Metallica, Guns N'Roses, Dream Theater, Megadeth, etc. Eclético, consegue escutar Oasis, Death, Pantera e Pink Floyd em sequência! Gasta mais da metade do que ganha com CDs, sendo, assim, chamado de "burro" por aqueles que acreditam que "é só baixar da Internet". Quer lhe dar um presente, fazê-lo feliz? Dê-lhe um CD! Comportar-se como criança diante de um CD novo e sentir o cheiro de encartes são marcas de sua paixão louca pela música!

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