Em 19/04/2011 | Freddie Mercury – Selim Rauer

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Freddie Mercury – Selim Rauer


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Nenhum outro ícone do rock é mais enigmático do que FREDDIE MERCURY. O cantor, que deixou a improvável Zanzibar (Tanzânia) ainda na adolescência, conquistou fama e prestígio no mundo inteiro com a sua banda – o QUEEN – em vinte anos de carreira. No entanto, o músico de origem persa sempre foi tímido e avesso a entrevistas. Em razão dessa lacuna deixada na história da música, o escritor francês Selim Rauer buscou remontar a sua vida na obra “Freddie Mercury”. O livro, que não chega a abordar as polêmicas e os fatos desconhecidos de bastidores do seu ex-grupo, constroi uma interessante cronologia do nascimento à morte do vocalista.

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Em cerca de trezentas páginas, o filósofo e escritor (de poemas) Selim Rauer reconstruiu satisfatoriamente bem quase todos os passos de Mercury – a partir do seu nascimento em setembro de 1946 até a sua morte em novembro de 1991 – nessa biografia. O cantor, que assinava Farrokh Pluto Bulsara como nome verdadeiro, vendeu mais de duzentos milhões de discos e pode ser apontado como a primeira celebridade a morrer em decorrência da AIDS. Por outro lado, o QUEEN – a sua banda – é considerado o maior representante de rock de todos os tempos (de acordo com uma enquete promovida pelo jornal inglês The Daily Mail). Para escrever sobre a vida de FREDDIE MERCURY, Rauer recorreu a um pequeno arquivo de textos (livros) e vídeos sobre o cantor. A obra, que poderia adquirir profundidade a partir de entrevistas que sequer foram realizadas, deixa a ideia no ar de que o vocalista merece uma biografia ainda mais completa sobre a sua carreira.

De qualquer modo, a qualidade do texto se sobrepõe aos pequenos defeitos do livro (inclusive de tradução). A dificuldade em encontrar conteúdo sobre a vida de FREDDIE MERCURY – sobretudo entrevistas concedidas pelo cantor – é que determinou o direcionamento de “Freddie Mercury” a partir de uma revisão de títulos já existentes sobre o vocalista. Embora possuam uma importância fundamental para a história, as vozes de David Evans (um dos amantes de Mercury), Wendy Alison (a sua amiga mais próxima e herdeira do seu espólio) e de Peter Freestone (assistente particular do músico por mais de uma década) apenas contornam o relato de Rauer. A história inicia ainda na infância de Farrokh Bulsara, que muito cedo deixou a casa dos pais em Zanzibar, na costa da Tanzânia, para estudar em um internato de rigidez inglesa em Bombaim, na Índia. As dificuldades de relacionamento no colégio – em decorrência da distância impactante de casa e da sua homossexualidade reprimida desde cedo – marcaram em definitivo a personalidade reprimida do futuro cantor do QUEEN.

Para não sofrer diariamente com os apelidos “dente de coelho” e “mocinha”, o jovem Farrokh Bulsara encontrou na música e na arte a sua válvula de escape. Desde os sete anos isolado na St. Peter’s School, Freddie iniciou as aulas de música e de desenho ainda no primário. O apoio dos seus professores e o sucesso dos BEATLES foram fundamentais para que Mercury optasse pelas artes na Escola de Isleworth na sua adolescência, já em Londres (para onde se mudou com a família após deixar o internato em 1964). A sua personalidade instável não prejudicou em nada a sua adaptação à capital inglessa. Em 1996, FREDDIE MERCURY se matriculou no Ealing College of Art para dar continuidade aos estudos (em nível superior).

Na época da faculdade que FREDDIE MERCURY viu as oportunidades aparecerem. Em um quarto alugado em Kensington e passando por dificuldades óbvias para uma vida independente dos pais, Freddie Bulsara conheceu o estudante de física Brian May e o estudante de odontologia Roger Taylor. Os dois, que dividiam um pequeno apartamento com Tim Stafell, formavam uma banda, chamada SMILE. O cantor, por outro lado, se mudou por um curto período para Liverpool para atuar junto ao IBEX. No entanto, com a mesma rapidez que os projetos nasceram, os dois encerraram as suas atividades poucos anos depois. A óbvia união do trio – sem o guitarrista/vocalista Tim Stafell – é apenas uma decorrência dessa proximidade. Desse modo, emm junho de 1970 nascia o QUEEN (nome escolhido por Mercury) em um show marcado no Hotel de Truro, na capital inglesa.

Embora os três tenham encontrado dificuldade para efetivar um baixista na banda, no ano seguinte John Deacon – sétimo músico a ser testado para o posto – se juntou ao QUEEN, que já possuía músicas prontas, como “Stone Cold Crazy” e “Seven Seas of Rhye”. A banda, que mesmo recusada por gravadoras como a Decca e a EMI, não perdeu as esperanças. O quarteto se juntou ao produtor Ken Testi (que era do IBEX) e à dupla Norman e Barry Sheffield (do Trident Studio) para gravar as suas primeiras músicas. O horário ingrato destinado ao QUEEN – entre 3h e 7h da manhã – sensibilizou os outros músicos que gravavam no mesmoo estúdio, como PAUL MCCARTNEY e DAVID BOWIE, que muitas vezes cederam seus horários prioritários ao conjunto iniciante. Em julho de 1973 saiu o primeiro álbum da banda, autointitulado, e com a impressionante marca de seis das dez composições escritas por FREDDIE MERCURY. Embora tenham demorado a conquistar certo reconhecimento no Reino Unido, músicas como “Keep Yourself Alive” ganharam rapidamente o status de sucesso na Europa e até mesmo nos Estados Unidos.

De modo rápido, Rauer remonta os primeiros anos da carreira do QUEEN. A banda, que gravava discos e realizava turnês com uma intensidade impressionante, se destacou com o seu segundo disco, intitulado “Queen II” (1974). Na época, FREDDIE MERCURY se apresentou pela primeira vez no Top of the Tops (com uma nova versão para “Seven Seas of Rhye”). No entanto, nem mesmo o sucesso na América do Norte e no Japão proporcionaram o enriquecimento do quarteto nos primeiros anos de sucesso. Com o novo empresário – Jim Beach – é que o QUEEN conquistou verdadeiramente o mundo. O álbum “Night at the Opera”, que saiu em novembro de 1975, é considerado até hoje um marco para o rock n’ roll. Do mesmo modo, “Bohemian Rhapsody” é apontada como uma das principais músicas do gênero.

Por mais que se concentre na história oficial do QUEEN, a biografia de Rauer abre muitas páginas para dar destaque à vida pessoal de Mercury. A música “Love of My Life” foi composta para Mary Austin, a amiga mais próxima e que por muitos tempos foi amante (quase esposa) do cantor. A bissexualidade de FREDDIE MERCURY – encarada como uma espécie de independência pelo músico – nunca chegou a comprometer o seu rendimento ao vivo. Nem mesmo o seu apetite sexual insaciável e inconsequente, aliado ao abuso de álcool e de cocaína, prejudicaram a ascensão da sua banda até o início dos anos oitenta. Os discos – a partir de “A Day at the Races” (1976) – atingiram repercussões incríveis, sobretudo em suas turnês. Em 1976, o QUEEN se apresentou para mais de 170 mil pessoas em um evento no Hyde Park, em Londres. A banda – assim como FREDDIE MERCURY – conquistou o mundo e escreveu o seu nome na história do rock n’ roll de forma extremamente sólida.

Por questões fiscais o QUEEN se mudou para a Suíça mais ou menos nesse período. A vida profissional de Mercury, que se dividia entre cantar e compor, era intensa no seu dia a dia. Nenhum dos relacionamentos foi verdadeiramente sério para o cantor. As desilusões apenas contribuíram para que Freddie se fechasse cada vez mais. Entretanto, a sua banda se dispunha entre Munique e Montreux no período em que gravou “The Game”. Como curiosidade da época, “Crazzy Little Thing Called Love” foi composta por Mercury em uma banheira do hotel Hilton na Alemanha.

Nos anos oitenta o status do QUEEN era outro. O cantor da banda completou trinta e cinco anos e comprou uma mansão em Nova York como presente. O relacionamento rápido que o músico teve com Bill Reid apenas contribuiu para que Mercury se afundasse ainda mais no álcool e nas drogas. As noitadas eram extremamente frequentes, inclusive durante o período em que a sua banda visitou pela primeira vez a América do Sul, no primeiro semestre de 1981. O show realizado no Morumbi, diante de 130 mil fãs, é até hoje um dos mais marcantes da carreira do QUEEN. A banda inclusive precisou desembolsar cerca de um milhão de libras para concretizar a viagem, que ainda passou por Buenos Aires e Rosario, na Argentina.

De volta aos ares suíços, o QUEEN registrou “Hot Space” (1982), entre maio de 1981 e fevereiro do ano seguinte. O fracasso do disco, que não conquistou prestígio nos Estados Unidos, pode ser relacionado ao consumo excessivo de cocaína por parte de FREDDIE MERCURY durante as sessões em estúdio. Na época, os interesses do cantor indicavam que um disco solo seria eminente. No entanto, “Mr. Bad Guy” (1985) representou mais uma decepção para Mercury, que não encontrava a felicidade tão idealizada longe do QUEEN. Com “The Works” (1984), a sua banda retomou a Europa com os sucessos “Radio Ga Ga” e “I Want to Break Free”, mas definitivamente abandonou as turnês pelo continente norte-americano, que não assimilou a nova fase new wave do grupo. Nessa mesma época, a descoberta do vírus AIDS assustou muitas pessoas, sobretudo os artistas que viviam de modo inconsequente e irresponsável. O frontman do QUEEN recusava-se a admitir que pudesse ser soropositivo. O amigo Paul Gamaccini sempre soube o porquê.

A promiscuidade e os relacionamentos fracassados do músico são extremamente bem abordados por Selim Rauer em “Freddie Mercury”. Os mais próximos a Freddie sempre notaram que a fama com o QUEEN trouxe muito dinheiro e conforto ao cantor, mas nunca a felicidade que ele sempre buscou. O seu apetite sexual, considerado insaciável por muitos, colocava um novo homem na cama de Mercury noite após noite. Na sua segunda passagem pelo Brasil, durante o Rock in Rio (1985), um grupo masculino visitou a sua suíte no Copabana Palace para uma festinha particular. Nem mesmo o relacionamento, supostamente sério com a atriz alemã Barbara Valentin, afastou FREDDIE MERCURY dos tabloides ingleses. A sua vida particular – e a sua homossexualidade sempre colocada em cheque – aliaram-se as polêmicas consequentes da AIDS, que já fazia as suas primeiras vítimas mundo afora. De volta a Londres, Mercury soube que a sua vida iria para uma encruzilhada definitiva. Os seus amantes do passado viravam notícia na imprensa. Eles estavam morrendo por causa do vírus HIV.

De qualquer modo, o QUEEN nunca abandonou a sua carreira nos anos mais difíceis de exílio de Mercury. Com a banda, o cantor sempre soube dar a volta por cima. Não é a toa que o grupo ainda realizava megaturnês e shows emblemáticos, como em Johanesburgo (em meio ao regime do apartheid) e durante o Live Aid, evento beneficente de proporção mundial. Entre poucas certezas e muitas incertezas, Mercury conquistava o posto de maior intérprete ao vivo de seu tempo. Porém, ninguém imaginava que a banda realizaria em 1986 a sua última turnê. O desgaste da sequência de shows – assim como o temperamento explosivo e megalomaníaco do cantor na estrada – prejudicava por demais as questões relacionadas à sua saúde. O show gravado em Wembley – com dezessete câmeras e em filme de 35 mm – é o que resta e simboliza a morte dos projetos de FREDDIE MERCURY.

De volta a sua mansão em Garden Lodge (Londres), Freddie aproveitou o tempo que restava para fazer o que mais gostava. Com ninguém menos do que Montserrat Caballé o cantor gravou “Barcelona”, o disco (e o hino) para as Olimpíadas de 1992. Em uma sessão de estúdio que se estendeu do jantar às seis da manhã, a dupla criou o álbum que mais trouxe paz e prazer para o vocalista de origem persa.

No entanto, o músico nunca mais encontrou o sossego após as sessões de “Barcelona”. Embora nunca tenha falado sobre a doença – até mesmo com os integrantes do QUEEN – Mercury viu o seu nome estampado na imprensa inglesa após um ex-assistente vender fotos do cantor com drogas e com os seus amantes para o The Sun. As mortes de Tony Bastine e Josh Murphy (que namoraram FREDDIE MERCURY), em decorrência da AIDS, mais uma vez colocou em cheque a saúde do músico na imprensa. Cada vez mais frágil e alheio ao mundo da música, o vocalista ainda encontrou forças para subir ao palco com Montserrat Caballé na Espanha. Nos dias seguintes, emm entrevista ao jornal The Daily Mail negou que possuísse o vírus. No entanto, o relacionamento estável com Jim Hutton e o álbum “The Miracle” (1989) deram certo ânimo ao músico. Embora não tenha realizado nenhuma apresentação ao vivo, o disco mostrou um FREDDIE MERCURY com barba – para esconder um câncer de pele – no videoclipe de “The Invisible Man”.

De volta à Suíça, FREDDIE MERCURY se fechou na sua casa em Montreux. Os esforços despendidos para criar o álbum “Innuendo” (1991) provavelmente encurtaram em meses a vida do cantor, extremamente debilitado em decorrência da sua doença. Como despedida, o vocalista ainda encontrou um fiozinho de ânimo para deixar prontas as músicas que fariam parte do álbum “Made in Heaven” (1995). O cantor, que sequer conseguia ficar de pé e estava com a visão seriamente comprometida, gravou o clipe para “These Are the Days of Our Lives” em junho de 1991, a sua última atuação ao lado dos músicos do QUEEN. O guitarrista Brian May se emociona até hoje ao recordar o esforço de FREDDIE MERCURY na época.

Cada vez mais fraco, Mercury optou por interromper o ineficiente tratamento a base de medicamentos. Em casa, o cantor não deixava a cama e sequer conseguia ingerir alimentos sólidos. No dia 23 de novembro de 1991 o anúncio oficial: FREDDIE MERCURY admitia que havia contraído o vírus HIV em alguma data desconhecida no passado. Embora a notícia tenha chocado muitos, a informação era mais do que esperada, sobretudo para os fãs que sentiam como certa negatividade a ausência do QUEEN dos palcos. Por outro lado, ninguém imaginava que o fim do cantor estava tão próximo. No dia seguinte, por volta das 18h45, FREDDIE MERCURY parou de respirar. O cantor morria em razão de uma broncopneumonia agravada pela AIDS.

De certa forma, a biografia de FREDDIE MERCURY remonta o seu derradeiro fim de maneira impressionante, sobretudo pela escassez de depoimentos e de relatos de pessoas que conviveram com o músico durante os seus últimos dias. Nem mesmo ELTON JOHN – provavelmente a única amizade que Mercury conquistou na música – é capaz de compreender com detalhes. As poucas entrevistas não prejudicaram o livro – que ainda é complementado pela discografia (com track-lists) do QUEEN. A obra é uma oportunidade interessante para quem qujer conhecer um pouco mais – mesmo em explorar as particularidades e as peculiaridades – da mítica figura de FREDDIE MERCURY. Embora não possua um caráter definitivo, algumas questões inacabadas sobre a vida e a morte do cantor ficam no ar. Em que lugar estariam repousados os restos mortais do cantor?

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Sobre Paulo Finatto Jr.

Reside em Porto Alegre (RS). Nascido em 1985. Depois de três anos cursando Engenharia Química, seguiu a sua verdadeira vocação, e atualmente é aluno do curso de Jornalismo. Colorado de coração, curte heavy metal desde seus onze anos e colabora com o Whiplash! desde 2000, quando tinha apenas quinze anos. Fanático por bandas como Iron Maiden, Helloween e Nightwish, hoje tem uma visão mais eclética do mundo do rock. Foi o responsável pelo extinto site de metal brasileiro, o Brazil Metal Law, e já colaborou algumas vezes com a revista Rock Brigade.

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