A história do Khallice é curiosa: mesmo com 10 anos de estrada, grandes músicos na formação e muita experiência nacional, o debut veio somente em 2003. “The Journey” os levou a um ótimo reconhecimento, vários shows pelo país e, mais recentemente, à assinatura de um contrato com a famosa gravadora Magna Carta. Mudanças de formação, o primeiro DVD e o segundo álbum em andamento fazem parte do pacote. É sobre tudo isto que conversamos com seu guitarrista e fundador, Marcelo Barbosa.
Whiplash! – Os reviews de “The Journey” foram comumente exaltados, elevando a banda a grande nome do prog metal em termos mundiais. Como a banda recebeu estas críticas positivas e de que forma isto afetou a carreira do Khallice?
Marcelo Barbosa - Em minha opinião o reconhecimento é mais importante do que a fama propriamente dita. A fama vem e vai, o reconhecimento é mais estável. É sempre bom ter um trabalho reconhecido e isso nos impulsionou a continuar trabalhando, tocando em outras cidades e compondo. Acho que num primeiro momento foi uma confirmação de que estávamos no caminho certo.

Whiplash! – Alguns desdenham, outros acompanham atentamente. Afinal de contas, como os músicos vêem as críticas de seus trabalhos? O que você diria que tem maior importância: uma crítica favorável ou um bom show?
Marcelo - As críticas, sejam elas positivas ou não, sempre são importantes. Principalmente quando as mesmas vêm de pessoas conceituadas e que realmente entendem do assunto. “Critiqueiros” de internet e barzinho sempre existiram e sempre existirão, mas a opinião destes não nos interessa. A pessoa que dedica o seu tempo a falar mal e destruir o que outros constroem com suor não merece a atenção de ninguém. Ninguém é obrigado a gostar de nada, gosto é que nem nariz e isso é muito bom, pois o que seria do azul se não fosse o vermelho. Só acho que música não é seita nem religião. Quem acha que é, não é nem nunca será mesmo o público de uma banda de prog, que usa elementos de diversos tipos de música em seu som.
Marcelo - Acho que a crítica favorável tem a sua importância, mas o bom show é o que realmente importa. Falar bem ou mal qualquer um pode fazer. Mesmo aquele que vai a um show já preparado pra não gostar, e infelizmente isso acontece, se envolve quando o show é bom. Produzir um CD bem tocado e bem mixado hoje em dia não é tão difícil. Ao vivo a gente vê quem é quem.
Whiplash! – Alguns críticos, aliás, os acusam de serem meros clones do Dream Theater, fazendo exatamente o mesmo tipo de som. Além de sublinharem que a música do Khallice é deselegantemente virtuosa, clichê e chata. O que você responderia a eles?
Marcelo - Como eu disse antes, cada um tem a sua opinião e respeitamos isso. Graças a deus, os caras da mais importante gravadora de prog do mundo não pensam assim. Enquanto o nosso som for clichê e chato e estivermos tocando nos principais festivais do estilo, viajando, gravando e crescendo como músicos e artistas está tudo bem.
Marcelo - Quanto a comparação com o DT, acho um elogio, pois consideramos a banda excelente. Com certeza o próximo CD terá uma cara muito mais nossa, (vide “Stuck”, música do próximo trabalho já disponível no site oficial) do que o outro no qual compus a maioria das músicas com 19 anos de idade. E mesmo assim sei que tem gente que vai adorar e gente que vai odiar. A vida é assim, o importante é que temos bons amigos, parceiros e fãs que realmente curtem o som e nos dão força e energia pra continuar o trabalho.
Whiplash! – Desde o lançamento do álbum, Bruno Wambier (teclado), César Zolhoff e Maurício Barbosa (bateristas) já saíram da banda. A que se devem estas alterações?
Marcelo - Graças a Deus o Khallice sempre contou com músicos de ponta em seu cast. Isso trás várias vantagens, mas também algumas desvantagens. Como a banda não gera dinheiro suficiente pra se viver dela, os músicos precisam trabalhar em outros projetos para poderem viver e nem sempre conseguimos conciliar o Khallice com esses outros projetos O Bruno Wambier é excelente tecladista e produtor, além de tocar com a banda Natiruts, de reggae, aqui de Brasília. Essa semana, por exemplo, ele está em turnê com a banda na África. Ouseja, enquanto nós estamos ralando com a gravação do novo CD, ele está no outro lado do planeta. Não tinha como ele continuar, muitos choques de datas e essas coisas. Mas o Bruno ainda é um grande amigo e um grande parceiro também. O Maurício é dono de uma escola de bateria aqui em Brasília e toca em outras bandas. A coisa apertou de tempo e optamos por colocar alguém que tivesse 100% do seu tempo livre dedicado ao Khallice. O Cesinha é um grande batera, saiu por vontade própria, e está tocando os projetos dele.
Whiplash! – Como o novo baterista, Pedro Assunção, se encaixa na proposta e na sonoridade do Khallice? O nível dos bateristas anteriores era excelente, você crê que ele supre o posto com competência?
Marcelo - Tenho certeza. O Pedro é um cara novo, dedicado e cheio de energia. Conhece bastante do estilo e com a experiência que já temos, tenho certeza que ele é a melhor opção no momento. Não colocaríamos na banda ninguém que não segurasse a onda à altura. Estamos agora acertando os detalhes com ele e tenho certeza que o resultado será muito legal.
Whiplash! – A banda teve oportunidade de fazer shows gigantescos, como no Brasília Music Festival (mais de 50 mil pagantes), e no Porão do Rock, festivais que agregam vários estilos e que não tem seu público composto majoritariamente por fãs de metal. Como é tocar para um público tão heterogêneo e que não está acostumado com o som de vocês?
Marcelo - Temos boas experiências nesse sentido. É engraçado, apesar do som do Khallice ser pesado e bastante trabalhado, conseguimos agradar a diferentes tribos. É comum que no final de shows venham pessoas mais velhas, ou até pessoas que não curtem metal, cumprimentarem a gente. Na primeira vez que tocamos no Porão do Rock, tocamos depois do Paralamas do Sucesso e o show foi demais. Considerado por muitos o melhor show do festival, rendendo uma vaga no palco principal do ano seguinte. Espero que ainda pintem várias oportunidades como essas em nossa carreira.
Whiplash! – Como foi a estadia do Khallice no cast da Hellion Records? A que se deveu a ruptura com a gravadora?
Marcelo - Na realidade não ouve uma ruptura propriamente dita. Quando eles re-lançaram o “The Journey”, ficou previamente acordado que eles teriam prioridade no lançamento de um segundo álbum. Durante o tempo em que estivemos com a Hellion, havia pouquíssimo contato com eles e não sentimos um real interesse de continuar o trabalho de parceria. Como o nosso contrato com a Magna Carta exclui o Brasil (por interesse da banda), preferimos lançar esse produto ou independente ou com algum outro selo, que possa oferecer uma divulgação e um marketing mais efetivos.
Whiplash! – E a assinatura com a Magna Carta? O selo é considerado o maior e mais profissional do mundo no que se refere à música progressiva. Como conseguiram um contrato dessa magnitude?
Marcelo - Em fevereiro deste ano fui para a NAMM, uma das maiores feiras de música do mundo que acontece em uma cidade perto de Los Angeles-EUA. Nessa ocasião, encontrei pela terceira vez um grande ídolo que acabou se tornando um amigo também, o Greg Howe. Quando o mesmo ouviu duas músicas do novo CD adorou e disse que me indicaria a um parceiro que tinha uma gravadora. Esse parceiro repassou as músicas para a Magna Carta que entrou em contato na mesma semana, querendo re-lançar o “The Journey” e lançar os próximos dois em todo o mundo. Daqui pra frente é trabalhar duro e fazer com que tudo dê certo.
Whiplash! – Parece-me que o primeiro DVD da banda está a caminho. O que ele conterá?
Marcelo - Esse DVD contém um show de 45 minutos, vários fragmentos de outros shows nossos, como Porão do Rock, BMU e um acústico na Fnac e alguns depoimentos de parceiros e músicos da banda. É um item pra quem realmente curte a banda e quer ter um material em vídeo.
Whiplash! – Além de tudo isto, vocês encontram-se no meio da produção do novo trabalho. Conte-nos sobre as gravações, as mudanças em relação ao cd anterior, a escolha do produtor, etc. Haverá alguma surpresa? Como ele está ficando?
Marcelo - Estamos terminando agora a gravação da pré-produção e devemos começar a gravação propriamente dita em uns 10 dias. Neste CD fizemos questão de gravar as músicas antes da gravação definitiva pra termos uma idéia real de como tudo vai soar. O som da banda ta bem diferente, mas mantém, obviamente, o espírito original, acho que quem curtiu o primeiro cd vai pirar com o segundo. A produção será uma parceria do Daniel Felix, um excelente produtor e amigo de infância, com a banda. Estaremos envolvidos em cada etapa e tenho certeza que os resultados serão os melhores possíveis. Estamos confirmando algumas participações especiais, nacionais e internacionais, que estaremos divulgando em breve.

Marcelo - Acho que ter um modelo signature lançado é o sonho de muitos guitarristas. Em minha vida tenho realizado vários de meus sonhos, graças a muito trabalho, seriedade e ajuda dos parceiros. O convite da Tagima para o lançamento de um modelo com meu nome foi conseqüência de quase cinco anos de trabalho juntos. Sempre com respeito e sempre crescendo. Participei intensamente do desenvolvimento deste modelo e posso afirmar que essa é uma das melhores guitarras em que já toquei. Quem quiser ter mais informações sobre a guitarra pode acessar o meu site: www.marcelobarbosa.com.br
Whiplash! – Marcelo, agradecemos pela entrevista, o espaço está aberto para suas considerações finais.
Marcelo - Nós é que agradecemos o espaço. Aproveito para convidar os leitores a visitarem nosso site, e para ressaltar que em breve estaremos com material novo disponível. Obrigado pela força galera!
Site Oficial: www.khallice.com.br
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Maurício G. Angelo odeia definições. Acha que não entende nada de música, mas o suficiente. Pseudo-jornalista, pseudo-crítico e pseudo-escritor. Não gosta de explicar ironia. Escreve no Whiplash! desde 2003. Colaborou para uma série de veículos, como a revista Roadie Crew e os sites Rock Press, Duplipensar e Simplicíssimo. Ouve tudo aquilo que lhe interesse: do blues ao metal extremo, passando pelo pop, progressivo, clássico, jazz, eletrônico e MPB. Peca pelo tesão, nunca pela inércia. Alfabetizado, chato, detalhista e exigente: está continuamente tentando aprender a ler, e tem orgulho disso. Passou bons momentos ao lado de Rubem Braga, George Orwell, Pink Floyd e tantos outros. É apaixonado por palavras, pelo som e pelo silêncio. Erra muito. Muda mais ainda. E se permite ser hiperbólico, às vezes.
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