A volta do Salário Mínimo

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A volta do Salário Mínimo

Por Patricia Oliveira e Camila Rodrigues

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Ano de 1979. Quatro jovens se juntam e formam uma banda de Heavy Metal que, guiados pela crise financeira e pela tensão do período pré-Diretas-já , é batizada de Salário Mínimo. A banda, de grande importância na história do rock nacional, foi se desenvolvendo e aprimorando o estilo, que no início era inspirada por Iron Maiden e Judas Priest.

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Depois de inúmeras saídas e entradas de integrantes, o grupo perdura até 1991, quando um guitarrista, segundo o vocalista China,”era a essência do som do Salário” decide sair. A banda se desestruturou e cada membro seguiu seu rumo.

O vocalista China Lee, após passar pelo Extravaganza em 94, conhece, dez anos mais tarde, três rapazes e arrisca um novo projeto musical. Alan Flávio, na guitarra, também é o compositor da banda, que nessa nova fase investe em letras sobre o cotidiano. Emerson Tanaka fica no baixo, mas também é o técnico de som. E Xan Costa é o baterista que dá o ritmo do som pesado do Salário.

No aconchego da casa de Alan, a banda recebe as repórteres e conta sobre as dificuldades em retornar ao mercado, os projetos futuros, e o novo CD, “Simplemente Rock”, que estréiou dia 07 de julho no Blackmore Rock Bar .

Patricia: Como surgiu a idéia de formar uma banda de metal praticamente no final do regime militar (1979)?

China: A repressão era muito grande e todo mundo era meio revoltado naquela época. Inclusive o nome tem a ver com a situação financeira difícil: Salário Mínimo. A banda sempre foi muito ligada à política; a gente gosta de conversar com alguns fãs, dá um toque nos shows. Só que na época era bem mais complicado. Fechavam algumas casas (de shows), cancelavam nossas apresentações e de outros grupos também. Isso foi no início dos anos 80, quando começaram a surgir bandas de Heavy Metal no Brasil. O ritmo já estava estourado no mundo todo, e aqui cada banda nasceu como cópia de uma banda de lá de fora. O Salário era bem parecido com Iron Maden, Judas Priest. Na época havia uma união de 30, 40 bandas só de SP. Quando o movimento começou a crescer, surgiram vários problemas, principalmente com a Polícia Federal. O dono da nossa gravadora, o Luiz da Baratos Afins (selo musical de Luiz Calanca, que existe até hoje) foi preso. Prenderam também o empresário dos Secos e Molhados (Moracy do Val), na época em que administrava todas as bandas. Era mesmo para dar um basta no movimento.

Patricia: Como a primeira formação se conheceu?

China: Eu fui o último a entrar. Já tocavam juntos o Magu - baixista, o BA - baterista, e o Junior Muzzili, que era o guitarrista. Eu era de uma banda chamada Anjos do Inferno. Eles foram num show e me convidaram para tocar junto.

Camila: Quantos eram na primeira formação?

China: Até 87, havia quatro integrantes. Depois, a gente colocou mais um guitarrista. Mas mudava muito, porque é muito difícil encarar uma estrada dessa. Agora deu uma firmada legal. O Salário ficou 12 anos praticamente sem aparecer. A gente voltou, essa formação já está aqui junta há quatro anos. Agora que a gente está acabando o CD novo, está ficando bonito para caramba, com outra mentalidade, mais moderno.

Camila: Como começou a nova formação?

China: Com um projeto bem diferente do Salário. Já estavam o Alan, o Emerson. No começo seria China Lee Extravaganza, depois a gente mudou; queríamos algo totalmente desvinculado. Mas a gente começou a encontrar muitas dificuldades. Até que um empresário, que queria levar a banda para a Sony Music, fez uma pesquisa em quase 600 rádios e sugeriu: ‘Vocês precisam voltar com esse nome. Salário Mínimo é muito forte’. E para voltar a ser Salário Mínimo, a gente era obrigado a tocar todo o material antigo. Todos nós gostamos, mas a gente queria tocar o novo trabalho. Ficamos com essa idéia na cabeça quando fomos convidados para um show na Led Slay, em que estavam outras bandas da década de oitenta. A gente subiu no palco e tinha aproximadamente mil pessoas cantando as nossas músicas. Nesse momento, a gente decidiu: vamos trabalhar e voltar. Mostrar o antigo e começar a colocar o novo em prática, que é o que a gente mais quer.

Camila: Quais são as principais mudanças do antigo pro novo?

Alan: Mudou praticamente tudo. A gente teve uma mudança radical no som. Porque o som que o Salário fez na época tem a força do rock, que sempre foi a força do Salário. Só que a gente trouxe elementos novos, começou uma outra visão musical, com influências de sons mais modernos, misturamos um pouco de eletrônico. É bem suave; nada que desvincule do rock que a gente sempre teve, mas buscando uma nova cara. A gente cansou do mercado, que estagnou, e resolvemos cada um trazer um pouco de si, fazer o que gosta e sabe fazer, que é o rock. Sem rótulos...

China: Nem moda.

Alan: Nem moda, entendeu. A gente está com um trabalho ao vivo, todo mundo está gostando muito. Fizemos um último show no Blackmore (Rockbar em Moema, São Paulo), e tinham algumas pessoas que vieram conversar com a gente depois. Adoraram as músicas, se identificaram com o som, com as letras. Hoje, as letras do Salário mudaram um pouco, falam mais do cotidiano, da realidade das pessoas. Além das misturas que a gente está fazendo.

Emerson: E o melhor é que, apesar de todas as mudanças, o som continua o rock pesado que o Salário sempre teve, que é o mais importante para a gente. Quem ouvir vai ver um pouco do Salário, mas também vai notar coisas diferentes.

China: Exatamente. Nessa volta, a gente ficou um pouco perdido porque os quatro têm influências de Heavy Metal, de rock pesado. A gente gosta de ouvir tudo, até techno, mas somos bem metaleiros. Ouvimos mais o que a gente viveu, que é Judas, Scorpios. Também gostamos de Bom Jovi...

Alan: De U2. São várias influências.

China: Mas nos perdemos um pouco porque empresários e gravadoras sempre pensam na moda. Houve um que pediu para gente ser meio “Jota Quest”. Tentamos, mas, graças a Deus, não deu certo. Ficou falso e o grupo, insatisfeito. Agora, com esse material novo, todos estão contentes.

Patricia: O que inspirou esse o CD “Simplesmente rock”?

China: O cotidiano. O que a gente vive no dia-a-dia, vê acontecer no país. Somos muito ligados à política.

Camila: Algum de vocês é filiado a algum partido?

Todos: Não.

Alan: Então... A inspiração para escrever é a mistura. Eu que componho para a banda, então, além de ouvir rock, escuto disco, funk... Tudo o que eu acho que a banda vai gostar e que vai satisfazer os outros músicos. Acredito que o importante é ter uma mensagem e todas as músicas novas têm. Não pode ser babaca, ou um “pop” sem expressão. Quem ouve tem que se identificar. “Puxa! Já passei isso na minha vida!”. Por isso misturamos. Começou a dar certo e, depois que vimos que esse era o caminho. Na época em que começou, veio como uma novidade, junto com outras bandas do movimento (Heavy Metal). A diferença do Salário nos anos 80 era visual.

China: O Salário era produção. A gente chegou a ser contratado por uma gravadora grande. Vendemos quase 100 mil cópias, entramos na televisão, coisa que outras bandas não faziam. Por que? Havia um diferencial. E agora, a gente acredita que a gente achou outro diferencial para recomeçar. Lá fora já tem quem faça isso, mas aqui no Brasil ainda é novidade.

Emerson: O interessante sobre esse processo de composição é que o Alan traz a música e ela vai se desenvolvendo com as idéias dos outros componentes. Chegamos até a palpitar, no bom sentido, sobre os outros instrumentos. Para ter harmonia e ficar com a nossa cara.

Alan: Porque, geralmente, você escuta uma banda e pensa: essa parece Scorpions, aquela parece Maden, a outra parece Barão Vermelho, entendeu. O nosso som, não. Você escuta e lembra do Salário Mínimo. Nesse disco novo, por exemplo, a gente fez duas parcerias: uma com o Rapper Jamal, que é um tipo de rap com som pesado e que todo mundo está adorando. A outra foi com a Caru Freire (cantora de rock) que fez a música 2000 anos. Ficou diferente, porque a melodia nacional costuma ser mais pausada. O nosso som não; está muito up.

Emerson: E pesado. Muito pesado! Não deixa a vovó ouvir! (risos)

China: Respondendo à pergunta sobre sermos filiados a algum partido: a gente não gosta de se filiar a ninguém. Todo mundo aqui até tem algumas divergências políticas, mas são poucas. Temos sempre a mesma opinião, e por isso estamos juntos há quase quatro anos. Nessa última eleição, veio deputado, vereador, todos pedindo nosso apoio, mesmo com o nosso nome sem tanta expressão. A gente até faz show, de graça. Fizemos para um deputado do PSDB que luta pelos músicos e é contra a OMB (Ordem dos Músicos do Brasil). Mas é difícil manter um compromisso com determinado político. Por exemplo, se a gente tivesse apoiado o Lula, não ia poder criticar ele agora. Mas, com certeza, eu vou “meter o pau” (sic) nele nos shows, porque acho que decepcionou muita gente. Por isso, não somos filiados a ninguém.

Patrícia: Então política está entre os temas deste CD?

China: Não chega a ter política diretamente. E nem precisa. O Van Halen, por exemplo, é uma das bandas mais politizadas que existem nos EUA e não tem nenhuma composição que fale de política. Mas entre uma música e outra, o “verbo” deles é muito forte. Chegaram até a prejudicar o presidente nos EUA, entendeu? Aqui no Brasil, o sertanejo e o pagodeiro não conseguem expressar isso em suas músicas; o rock permite mais. Mas acho que entre uma música e outra eles podiam ser um pouco mais politizados, porque parece que eles não vivem no mesmo país que a gente.

Emerson: Ao falar em cotidiano, indiretamente você está falando sobre política.

Patricia:Vocês incluíram baladas também?

Alan: Tem uma balada, que não entrou nesse CD. A gente mexe também com essa parte de sentimento, claro. Mas não de maneira melosa, aquela coisa decaída. Não é esse o intuito da banda.

Camila: Vocês falaram que apareceram na TV, nos anos 80. Hoje em dia, como vocês reagiriam se, por exemplo, o Faustão chamasse vocês. Seria ruim ou bom?

China: Seria bom! Hoje a gente teria que aceitar praticamente tudo. É complicado estar na televisão. Antigamente era mais fácil, porque existia um movimento por trás e a gente tinha uma gravadora grande. Ainda na época do Perdidos na Noite, eu gravei com o Faustão, na Bandeirantes ainda, quando ele era um cara muito mais fácil de lidar. Mas hoje a gente iria a quase todos os programas de te

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