Asia: transmutados de descartáveis em relevantes

Resenha - Phoenix - Asia

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Por Rodrigo Werneck
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Nota: 8

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

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Quando foi anunciado o retorno da formação clássica do Asia, em 2006, todos já sabiam o que esperar. John Wetton (vocais, baixo), Steve Howe (guitarra e violão), Geoff Downes (teclados) e Carl Palmer (bateria) se reuniram com o firme propósito de reeditar os tempos de ouro da banda, fazendo shows, lançando DVDs, com a possibilidade de um novo CD com músicas inéditas no horizonte. Isso acabou por ocorrer recentemente com o lançamento de “Phoenix”, que saiu no Brasil em versão limitada graças à Hellion Records, selo que tem investido no rock clássico.
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O Asia é uma daquelas bandas que o tempo ajudou a transmutar de descartáveis em relevantes. Se foram (na época de sua criação em 1981) uma decepção para a maioria dos antigos fãs de King Crimson, ELP e Yes (de onde seus integrantes eram oriundos) em virtude de seu som “comercial”, acabaram por outro lado se tornando ícones de uma nova geração de bandas AOR, abrindo novas perspectivas de mercado para os grupos de rock progressivo, que se viram em determinado momento num beco mercadológico aparentemente sem saída. Pouco tempo depois, o Yes veio a se reinventar e lançar discos como “90125” e “Big Generator”; os demais membros do ELP formaram o Emerson Lake & Powell; e Howe se juntou a Steve Hackett (ex-Genesis) no GTR. Todas essas bandas com propostas similares à do Asia.

Após dois bons discos, “Asia” (1982) e “Alpha” (1983), Howe deixou a banda e o barco desandou. Embora os principais compositores do grupo sempre tenham sido Wetton e Downes, Howe sempre foi o responsável pelo toque de classe, o que os diferenciava da “concorrência”. Com o tempo, os demais foram aos poucos se desinteressando também, culminando com as saídas de Palmer e de Wetton. Restou Downes, que na falta de alternativa melhor, foi tocando o grupo juntamente ao vocalista/baixista John Payne, substituto de Wetton. Somente em 2006, conforme mencionado acima, a formação original voltou a se reunir, não sem algumas confusões, que acabaram por gerar um “spin off”: o “Asia featuring John Payne”. Mas isso já é outra história...

Voltando ao Asia original, após a turnê 2006/2007 (que passou pelo Brasil) e o lançamento do bom CD/DVD “Fantasia: Live In Tokyo”, chegou o momento crucial para a sobrevivência da banda, o lançamento de um disco de estúdio. Wetton e Downes mais uma vez se juntaram para compor uma série de músicas no melhor estilo do grupo original. Tudo foi impecavelmente pensado de forma a trazer de volta o espírito inicial. Não há surpresas no disco, mas isso é tudo o que os antigos fãs do Asia desejavam. Uma bela ilustração de Roger Dean na capa, arranjos e timbres que muito lembram os do disco de estréia, alguns hits potenciais para as rádios rock, e alguns momentos capazes de satisfazer os fãs de um progressivo mais light.

Talvez o que disco mais careça sejam de um pouco mais de peso. As composições são boas, e as performances idem. A voz de Wetton está em melhor forma atualmente do que vinha se portando há alguns anos atrás, em virtude de seus conhecidos problemas de alcoolismo, e soa muito parecida com a de 25 anos atrás. Howe passa da guitarra para o violão com a mesma maestria de sempre, e como mencionado acima dá o toque de classe ao grupo. Palmer é mais contido no Asia do que no ELP e na sua banda solo, mas tem lá os seus momentos de brilho. Downes sempre foi o patinho feio da banda, o músico menos conhecido e menos festejado, mas é o responsável pelos climas proporcionados pelos seus sempre numerosos teclados. Seus timbres estão muito bem escolhidos nesse disco, sem soar por demais pasteurizados, e com alguns momentos de destaque. De qualquer forma, o Asia sempre se caracterizou mais por suas canções do que por momentos virtuosísticos, sendo essa a proposta do grupo.

O nível das composições é muito bom, e na realidade não há faixas fracas. A impressão que dá é que a química permaneceu intacta, e que os anos sem tocar juntos proporcionou a oportunidade ideal para que o talento de todos pudesse afluir. Dentre os destaques, posso citar as mais rápidas: “Never Again”, “Shadow of a Doubt” e “Alibis”, sendo que esta última inclui vários solos de guitarra e teclado, e ainda um final inusitado apresentando uma mudança de andamento, com ótimo trabalho de bateria, teclado e guitarra. “Wish I’d Know All Along” e “Over And Over” soam diferentes das demais, provavelmente por serem de autoria de Howe. A primeira apresenta bons vocais de Wetton e Howe, por vezes em contraponto, outras vezes em uníssono. A segunda inclui o característico trabalho de Howe no bandolim, algo que ele explora bem no Yes, além da steel guitar e sua sonoridade característica.

As longas suítes (cada uma com mais de 8 minutos de duração) são entretanto o ponto alto do disco. Sem soarem pretensiosas, alternam diferentes climas que dão ao disco a variedade necessária. “Sleeping Giant / No Way Back / Reprise” possui “intro” e “outro” instrumentais (respectivamente “Sleeping Giant” e “Reprise”), com a contagiante canção “No Way Back” no meio. “Parallel Worlds / Vortex / Déyà” é ainda melhor, lembrando os melhores momentos do Asia em seu primeiro disco. “Vortex” é mais um dos bons momentos instrumentais do disco, com ótimo trabalho de Palmer, que chega a solar em seu auge, preparando o terreno para “Déyà”, um momento mais calmo, com o violão e a guitarra de Howe reinando, bateria marcial e a tecladeira solene de Downes.

As indefectíveis baladas de Wetton não poderiam faltar, mas a verdade é que sua voz é perfeita para tal, e as sutilezas da guitarra de Howe sempre evitam que tudo caia para a pieguice exacerbada. Em “Heroine”, por exemplo, um solo de steel guitar caiu como uma luva. Já em “I Will Remember You” o cello tocado pelo convidado Hugh McDowell dá um toque especial de requinte. “Orchard of Mines” é a única faixa do disco não composta pelos próprios integrantes, e foi uma boa escolha, por se tratar de ótima música, com um grande trabalho de Wetton no vocal principal.

Fechando o disco, a emotiva “An Extraordinary Life” em duas versões. Trata-se de uma música especial para Wetton, que a compôs após ter sofrido uma séria operação no coração, no ano passado. Segundo ele, passou a encarar a vida de forma diferente, e passa um pouco desse sentimento nesta interpretação. Uma típica composição do Asia, e boa escolha para encerrar o disco de retorno da sua formação mais consagrada. A segunda versão da música incluída, na verdade um remix acústico (onde se sobressai a percussão de Palmer), é justamente a faixa bônus (que não faz parte de todas as versões do disco, mas foi incluída na brasileira).

Há ainda uma apresentação multimídia para ser assistida num PC, com um vídeo falando sobre o retorno do grupo, trechos de entrevistas e de shows, etc. Além disso, mais uma vez a Hellion caprichou na edição nacional, incluindo slipcase e o encarte de 20 páginas contendo letras e todas informações relevantes. Bola dentro.

Tracklist:
1. Never Again
2. Nothing's Forever
3. Heroine
4. Sleeping Giant / No Way Back / Reprise
5. Alibis
6. I Will Remember You
7. Shadow of a Doubt
8. Parallel Worlds / Vortex / Déyà
9. Wish I'd Known All Along
10. Orchard of Mines
11. Over And Over
12. An Extraordinary Life
13. An Extraordinary Life (bonus track, acoustic remix)

Website: http://www.originalasia.com

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Sobre Rodrigo Werneck

Carioca nascido em 1969, engenheiro por formação e empresário do ramo musical por opção, sendo sócio da D’Alegria Custom Made (www.dalegria.com). Foi co-editor da extinta revista Musical Box e atualmente é co-editor do site Just About Music (JAM), além de colaborar eventualmente com as revistas Rock Brigade e Poeira Zine (Brasil), Times! (Alemanha) e InRock (Rússia), além dos sites Whiplash! e Rock Progressivo Brasil (RPB). Webmaster dos sites oficiais do Uriah Heep e Ken Hensley, o que lhe garante um bocado de trabalho sem remuneração, mais a possibilidade de receber alguns CDs por mês e a certeza de receber toneladas de e-mails por dia.

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