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Lula Côrtes: guru psicodélico e o rock pernambucano dos 70s

Por Tuca Araújo |

VIVA LULA CÔRTES!

Recentemente me chegou às mãos um vídeo que muito me emocionou, eram imagens do último show de LULA CÔRTES ao lado de ALCEU VALENÇA, PAULO RAFAEL e ZÉ DA FLAUTA numa reedição do histórico disco/show intitulado “vivo” lançado nos, hoje longínquos anos 70 e que fez a cabeça de toda uma geração.

O reencontro desses velhos companheiros, longe de ser pura nostalgia embora o clima estivesse imbuído dela foi antes de tudo uma reafirmação da assombrosa contribuição da música pernambucana para o Brasil e desses hoje senhores de meia idade para a contra cultura da época de hoje e sempre. Mais emblemático ainda foi o fato de LULA ter falecido uma semana depois deixando no ar uma sensação de despedida e do fechamento de uma história cheia de lendas, verdades, poesia, violas, guitarras, JACKSONS e STONES.

A história da moderna música pernambucana não começou com as alfaias do manguebit, nem mesmo com a pseudo erudição do movimento armorial, ela brotou das entranhas mais profundas da alma de jovens vivendo um tempo de desesperança social, com uma inflação galopante e o “Brasil grande” dando com os burros n’água, afundado na psicodelia tardia onde as “viagens” antes coloridas transformara-se no abismo escuro da loucura e solidão e acima de tudo amordaçados por uma ditadura brutal que em nome da segurança nacional prendia e arrebentava quem bem entendesse.

Foi nesse cenário claustrofóbico que uma turma de universitários, hippies e artistas resolveram dar seu grito de independência, ALCEU VALENÇA, ZÉ DA FLAUTA, ROBERTINHO DE RECIFE, JOMARD MUNIZ DE BRITO, GERALDINHO AZEVEDO, ZÉ RAMALHO DA PARAÍBA e bandas como PHETUS, FLAVIOLA E BANDA DO SOL, MARCONI NOTARO, QUINTETO VIOLADO E O AVE SANGRIA misturavam cada qual a sua maneira a música nordestina da melhor safra com a atitude do rock and roll transformando tudo num amálgama sonoro difícil de rotular e olha que tentaram mas sem sucesso.

O QG de toda essa turma era a casa de LULA CÔRTES e KÁTIA MESEL que eram casados na época, aliás, o próprio ZÉ DA FLAUTA relata que a casa de Lula era o maior centro de aprendizado cultural /político/musical da época, lá se discutia desde a famigerada ditadura passando por drogas, meditação transcendental e música, muita música.

Por aquela época ALCEU havia entrado no festival abertura da TV Globo defendendo a música “vou danado pra catende” para lhe acompanhar na apresentação resolveu recrutar só a nata que formava a contra cultura musical e poética pernambucana então de uma tacada só arregimentou parte da banda AVE SANGRIA, ZÉ DA FLAUTA, ZÉ RAMALHO NA VIOLA e LULA CÔRTES no seu tricórdio, a apresentação na televisão é algo simplesmente visceral um Alceu com os olhos esbugalhados grita a plenos pulmões os versos da música ladeado por um ZÉ RAMALHO não menos doidão e LULA CÔRTES que parecia estar literalmente no espaço sideral, enquanto isso o AVE SANGRIA e ZÉ DA FLAUTA empurravam a banda para o abismo sonoro, criando uma tensão que somados a violência poética da letra e à aparência de cangaceiros hippies deles tornava a música impar e inclassificável o que aliás foi mesmo, pois o júri completamente atordoado com o ineditismo do som deu o Prêmio Melhor Trabalho de Pesquisa para o grupo.

Conheci LULA CÔRTES por intermédio de ZÉ DA FLAUTA que produziu o CD “ALCEU ao nosso jeito” (ainda inédito) onde o HANAGORIK faz uma releitura de alguns clássicos de ALCEU VALENÇA, na época pensamos que seria muito legal convidar LULA e PAULO RAFAEL para tocar em vou danado pra catende, os dois aceitaram sem pestanejar, na primeira oportunidade PAULO RAFAEL veio e “estraçalhou” no solo, pra mim particularmente foi um deleite ver um dos meus ídolos ali a poucos metros colocando uma guitarra em cima de um arranjo meu e ainda me perguntando no final da gravação se havia ficado bom, pensei que era uma piada.

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Então veio LULA, gravamos no estúdio de ZÉ DA FLAUTA em casa forte, ele chegou lá com seu inseparável tricórdio e logo distribuiu abraços e uma luz que raramente se vê numa pessoa. Ao ouvir a música com o nosso arranjo se emocionou bastante e ria, gesticulava como uma criança. Na hora da gravação fiquei ao seu lado para lhe dar as “deixas”, mas no primeiro take vi que minha presença ali era totalmente dispensável, pois aquele mestre de cabelos brancos, magro e de aparência frágil sentado a minha frente entrara em transe quase espiritual e fazia brotar de seu tricordio acordes perfeitos e nuances que só os grandes iogues dominam.

A mim coube apenas ficar observando através do vidro do estúdio com a certeza de estar vivendo um momento único e que iria lembrar para o resto de minha vida.

VIVA LULA CÔRTES

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