
O desbunde, longe de ser uma simples alienação nos anos de chumbo do regime militar, foi uma atitude intempestiva e marginal que transgredia as normas sociais e políticas então vigentes. Na procura de uma nova forma de pensar o mundo, o desbunde tornava-se uma perspectiva capaz de romper com a razão instrumental e o militarismo característicos tanto das direitas quanto das esquerdas.
RAUL SEIXAS, avesso a qualquer tipo de autoridade, valorizou o individualismo, a heterogeneidade e a pluralidade. A ética universal impositiva foi substituída pelo pluralismo normativo, com o decorrente enaltecimento da metamorfose ambulante, isto é, do indivíduo fragmentado, descentrado, disposto a afirmar sua singularidade contra o rigor de todas as opressões.
Na discografia de RAUL SEIXAS os irracionalismos, as antíteses e os antagonismos extremados ocupam o centro da cena. A sua música é um mosaico exemplar da contracultura. Ele mistura, em sua obra, diferentes ritmos e estilos musicais, poesia e música, filosofia e astrologia, ocultismo e religião, crítica social e desbunde, tudo regado ao uso de drogas lícitas e ilícitas. Com essas características, suas músicas muitas vezes são recusadas por intelectuais e ativistas engajados, enquanto nem sempre são compreensíveis para as massas incultas.
Atento às tensões políticas e socioculturais de seu tempo, um esperançoso compositor oferecia ao público a promessa de superação do sofrimento imposto pela sociedade autoritária. Diante das dificuldades de mudar os pressupostos sociais e políticos que geram a barbárie, sua arte assumiu como principal meta a formação de indivíduos autônomos, autocríticos e com vínculos sociais, eliminando, no que têm de fundamental, as condições que geram a alienação e a violência. Todavia, uma proposta política concreta estava ausente.
Não podemos esquecer que RAUL SEIXAS, autodeclarado “mosca na sopa” e “carpinteiro do universo”, primava pelo desbunde, proposta estética e política que apresenta a arte como divertimento, gozo, celebração, paixão, sempre à margem dos valores dominantes: caretas, opressores, racionalistas e bélicos. Sua limitada resistência política se dava por essa via.
Para nos salvarmos da opressão, mantendo a fidelidade às utopias não realizadas, o raulseixismo nos ensina que não devemos esperar o messias ou um líder revolucionário, mas sim reparar as injustiças e buscar erguer uma Sociedade Alternativa a partir da união coletiva de vontades individuais.
RAUL SEIXAS exortava insistentemente ao individualismo, instigando seus interlocutores a abraçarem sozinhos os próprios caminhos. Se assim procedia é porque sabia que, enquanto o venerassem, negariam a própria autonomia. Lúcido, ele não se identificava com um sábio, santo, profeta ou redentor do mundo. Ao mesmo tempo, convidava os fãs a questionarem-se a respeito de si mesmos e de suas vidas.
65 anos após o seu nascimento e duas décadas depois de sua morte, a obra de RAUL SEIXAS permanece importante por sua força imaginativa, utópica, por sua expressão e percepção das (im)possibilidades que permeiam a vida contemporânea. A sua vida nos revela a necessidade de assumirmos a existência como tarefa, uma tarefa da liberdade, que consiste na entrega à descoberta de nossas próprias possibilidades de existência. Pelo fato de ser uma construção permanente, um caminho de realização (nascimento e criação) e desrealização (morte e destruição), essa tarefa só é concluída com a morte.
Em 21 de agosto de 1989, dois dias após o lançamento do LP "A Panela do Diabo" e cinco dias depois do maior eclipse lunar do século XX, RAUL SEIXAS faleceu de parada cardiorrespiratória provocada por pancreatite crônica e hipoglicemia. A governanta Dalva Borges foi a primeira a encontrá-lo em seu apartamento na Rua Frei Caneca, em São Paulo. O corpo do compositor foi velado no Palácio das Convenções do Anhembi, na capital paulista, para onde uma multidão convergiu a fim de lhe prestar as últimas homenagens. Os fãs tornaram-se órfãos de utopia.
Hoje, o grande desafio de todos aqueles que, seguindo as idéias de RAUL SEIXAS, sonham e lutam por ideais utópicos que se mostraram inalcançáveis, será a dedicação a novos ideais, à descoberta de novos caminhos, pois sonho que se sonha junto é realidade, já dizia o compositor na canção “Prelúdio”, do LP “Gita”, de 1974.
Esta é uma matéria antiga do site Whiplash.Net. Quer saber por que destacamos matérias antigas?
Todas as matérias da seção Matérias e Biografias
Todas as matérias sobre Raul Seixas
Os comentários são postados usando scripts do FACEBOOK e logins do FACEBOOK, HOTMAIL, AOL ou YAHOO, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que fizeram uso deste sistema (citados na assinatura de cada comentário). Caso você considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato. Os responsáveis pelo site podem excluir comentários que julguem inadequados e fornecer informações sobre os comentários a reclamantes se solicitados.
Pense antes de escrever. Ao comentar sobre alguém, lembre-se que este alguém é uma pessoa e merece respeito. Tenha cuidado especial ao comentar sobre colaboradores do Whiplash.Net; eles trabalham de graça para gerar o conteúdo que você está lendo. Mais chato do que uma matéria com erro, ou uma opinião com que você não concorda, são os chatos que apenas reclamam. Se acha que pode fazer melhor, clique no link ENVIAR MATERIAL no topo do site. Se achar um erro de digitação ou similar, envie pelo link de ENVIO DE CORREÇÕES; lembre-se que é falta de educação corrigir outras pessoas em público. E lembre-se de também elogiar quando encontrar bom conteúdo; isso é um bom incentivo aos colaboradores. :-)
Chatos, trolls e usuários que faltam com respeito a outras pessoas poderão ser banidos sem aviso prévio.
Autor sem foto e/ou descrição cadastrados.
Caso seja o autor, entre em contato enviando sua descrição e link de uma foto.
Link que não funciona para email (ignore)
QUEM SOMOS | RSS | FACEBOOK | TWITTER | APPS | ANUNCIAR | ENVIAR MATERIAL | FALE CONOSCO
Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria. Os textos não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será retirado do site.
Em abril de 2012 Whiplash.Net teve 1.211.297 visitantes, 3.149.841 visitas e 10.113.719 pageviews. Ver stats.