Lucifer - uma noite intimista e de alta qualidade em Porto Alegre
Resenha - Lucifer (Espaço Marin, Porto Alegre, 20/04/2026)
Por Guilherme Dias
Postado em 04 de maio de 2026
Lucifer fez a sua estreia em Porto Alegre. A banda liderada por Johanna Sadonis realiza uma turnê pela América do Sul, incluindo o festival Bangers Open Air, em São Paulo. Trata-se da terceira passagem do grupo pelo país, após apresentações em 2022 e 2024. O Espaço Marin, localizado na zona norte da capital gaúcha, foi palco de uma noite intimista e de alta qualidade.
Fotos por: Sophia Velho (@sophiavelhophoto)

Nascido em 2014, em Berlim, o Lucifer foi fundado pela cantora alemã Johanna Sadonis com proposta sonora voltada para o hard rock com influência do heavy metal. Com diversas formações ao longo dos anos, o grupo já lançou cinco álbuns de estúdio, de "Lucifer I" a "Lucifer V". Além de Johanna nos vocais, dividem o palco com ela Coralie Baier e Max Eriksson (guitarras), Claudia González Díaz (baixo) e Kevin Kuhn (bateria), que substitui Nicke Andersson nas baquetas, ex-marido de Johanna e figura fundamental para a identidade musical da banda nos últimos anos, com forte atuação na produção, gravação e composição das músicas.

O repertório só não contou com músicas do disco "Lucifer I"; os demais álbuns foram representados por pelo menos uma faixa. A primeira do set foi a sombria, pesada e melancólica "Anubis", primeiro single do Lucifer, lançado em 2015. Diretamente de "Lucifer III", foram apresentadas "Ghosts" e "Lucifer", ambas com refrões poderosos, cantados em coro pelo público. Pouco antes, a melódica "Crucifix (I Burn For You)" também teve seu refrão ecoando por todo o Espaço Marin.

O repertório esteve bastante centrado no último lançamento da banda, com destaque para "At the Mortuary" e "Slow Dance in a Crypt", apresentada pela vocalista como uma balada romântica e também como seu momento favorito do show. "The Dead Don't Speak", a setentista "California Son" (única representante de "Lucifer II" no setlist) e "Bring Me His Head", de refrão grudento, encerraram a parte principal da noite.

Próximo ao fim, Johanna disse que nenhum dos músicos deveria sair do palco, já que, sempre que isso acontece, o público pede mais músicas. Desta vez, ela perguntou diretamente à plateia se gostariam de ouvir mais canções e, como esperado, a resposta foi positiva. Atento ao que vinha ocorrendo em apresentações anteriores, um fã pediu uma música do Kiss e foi atendido, já que o inusitado cover de "Goin' Blind" passou a integrar os shows mais recentes e, em Porto Alegre, contou com grande participação do público. Ao lado do Black Sabbath, o Kiss é uma das bandas favoritas da vocalista, o que torna sua presença no repertório bastante coerente.

O suspiro final veio com a pesada "Fallen Angel", que deixou os fãs satisfeitos, porém ainda com vontade de mais. As 13 músicas completaram o show em apenas 1 hora e 10 minutos, pouco para o público de heavy metal, acostumado a shows de pelo menos 1 hora e meia. Apesar do set curto, todos deixaram o local muito realizados, já que foi uma performance impecável do início ao fim. Ficou a sensação de que as melhores músicas foram escolhidas, embora diversos fãs tenham pedido "Dreamer" em diferentes momentos da noite e, infelizmente, não tenham sido atendidos.

Johanna Sadonis mostrou que, mesmo sem a parceria de anos com Nicke Andersson, pode voar ainda mais alto, evidenciando sua qualidade vocal, com linhas agudas naturais, sem soar forçada ou exagerada, além de uma presença de palco leve, marcada pelo hábito de olhar nos olhos do público e trocar energia com quem canta junto na pista. Com falas pontuais, a vocalista manteve uma comunicação sutil e direta com a plateia.

Os demais músicos também foram um espetáculo à parte. A virtuosa Claudia González Díaz fez de seu baixo praticamente uma extensão do corpo, demonstrando amplo domínio, inclusive em passagens mais complexas. Coralie Baier e Max Eriksson foram precisos, com timbres muito próximos aos de estúdio. Ficou evidente a familiaridade de Max com o repertório, mesmo sendo o membro mais recente do Lucifer, substituindo Rosalie Cunningham, que não pôde participar da turnê sul-americana. Kevin Kuhn, com um estilo peculiar e também canhoto como Nicke, desempenhou sua função com elegância, demonstrando total domínio rítmico e de palco.

Vale ressaltar a atmosfera criada pelo Lucifer, desde a iluminação baixa até os timbres que não buscam soar modernos, mas sim remeter aos anos 1970 e transportar a plateia no tempo, mesmo com composições atuais.

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