Saxon: A primeira vez a gente nunca esquece
Resenha - Saxon (Bar Opinião, Porto Alegre, 13/03/2019)
Por Henrique Caveira
Postado em 17 de março de 2019
Descobri o Saxon na minha adolescência, em algum ponto entre 1996 e 1998, provavelmente assistindo o clipe de "Princess of the Night" no antigo programa "Fúria" na MTV. Algum tempo dois, tive acesso ao maravilhoso CD "Greatest Hits Live" (1990). Não tinha mais volta: já havia virado um fã da banda para todo o sempre.
Desde aquela época, vinte anos atrás, cultivava o sonho de um dia ter o privilégio de ver o Saxon ao vivo. Lembro que os caras andaram aqui pelo país pelos idos de 1997/1998, mas não vieram até Porto Alegre. Fiquei na mão, sonhando com uma próxima vez. Por que não? Afinal, a banda estava atravessando o milênio com muita disposição. Era razoável esperar uma visita da banda ao sul do Brasil em algum ponto do começo dos anos 2000. Mas admito que, há alguns anos, quando me dei conta de que já estávamos na metade dos anos 2010, uma voz de realismo fatalista sentenciou dentro de mim: "rapaz, se você não viu o Saxon até agora, pode esquecer. Não vai mais rolar. Os caras estão muito velhos. Não vai ser agora, quando os sujeitos estão na metade da casa dos sessenta, que vai dar a louca nele de lembrar que existe um lugar no mapa chamado Porto Alegre. Se aparecerem em Curitiba ou São Paulo já é lucro, e mesmo isso pode ser um excesso de otimismo a esta altura do campeonato...".
Mas eu estava errado. A hora chegou. Demorou vinte anos, mas a oportunidade de ver o lendário Saxon ao vivo finalmente apareceu. Em sua primeira apresentação na capital gaúcha, a banda deixou registrado na história um dos melhores show de heavy metal que o sul do país já testemunhou.
Por mais fã do Saxon que eu seja, é impossível não se impressionar: o vigor e a energia dos músicos é espantosa para uma banda que, em 2019, comemora nada menos do que 40 anos de lançamento do seu primeiro álbum. O vocalista Biff Byford, do alto de seus respeitáveis 68 anos de idade, entrega uma performance ao vivo que remete aos registros da banda ao vivo nas décadas de 1980 e 1990. O baterista Nigel Glockler, com 66 anos, senta o braço na percussão com uma fúria e peso que não apenas igualam - mas indiscutivelmente superam - o teor de agressividade que se ouvia no som do Saxon há trinta anos atrás.
Que o Saxon envelheceu fiel às suas origens, é coisa que já é de conhecimento público e notório por parte de todo mundo que tem acompanhado os trabalhos de estúdio do grupo na última década e meia. Mas, mais do que isso, o Saxon envelheceu sem perder energia. E, embora isso possa parecer difícil de acreditar para quem ainda não tenha visto a banda ao vivo recentemente, mais impressionante do que tudo isso é o fato de que o Saxon agora soa mais rápido e mais pesado do que em qualquer outro período em suas primeiras décadas. Só vendo para crer.
Com um setlist arrasador, que mais parecia saído de uma coletânea "best of", durante duas horas o Saxon empolgou ininterruptamente a galera que lotou o Bar Opinião em Porto Alegre. Nos "piores" momentos, o show foi contagiante e entusiasmante. Nos melhores momentos, foi simplesmente épico. Faixas como "747 (Strangers in the Night", "Motorcycle Man", "Crusader", o consagrado cover "Ride Like the Wind" (uma música que, pelo menos para o público do metal/hard rock, o Saxon já transformou em completamente sua de forma análoga o que o Metallica fez com "Whiskey in the Jar"), "Power and the Glory", "Wheels of Steel", "Strong Arm of the Law" - para não falar do final simplesmente apoteótico com o hino "Princess of the Night - levaram os fãs presentes à loucura. Homens da minha idade, rapazes mais novos, "tios" bem mais velhos, garotas, fãs de todos os gêneros e idades compartilhavam naquele momento uma felicidade fora do comum. Era possível perceber, no ar, o sentimento comum de que aquela oportunidade de testemunhar o lendário Saxon em uma apresentação ao vivo era mais do que um mero prazer, mas também uma honra e um privilégio que talvez não se repetirão.
O Saxon reservou algum espaço no setlist para algumas músicas mais novas, oriundas do material lançado pela banda de 2000 em diante. O repertório contou com duas músicas do mais recente álbum do grupo (o excelente "Thunderbolt", de 2018): "They Played Rock and Roll", escrita em homenagem ao Motörhead após a morte do icônico Lemmy Kilmister em 2015; e a faixa-título "Thunderbolt". Tivemos também "Battering Ram", "Sacrifice" e "Lionheart", faixas-títulos dos álbuns homônimos lançados pela banda respectivamente em 2015, 2013 e 2004. Mas, novamente, a ênfase do setlist estava no material "clássico" da banda, e não faltaram velhas conhecidas dos fãs de longa data do Saxon, como "To Hell and Back Again", "Denim and Leather", "Dallas 1PM" e "Never Surrender". O primeiro álbum do grupo ("Saxon", de 1979), que celebra 40 anos de seu lançamento, também foi devidamente homenageado através da execução das faixas "Frozen Rainbow" e "Backs to the Wall".
Em meio a tudo isso, o lendário vocalista Biff Byford pôde comprovar diante de todos os presentes a sua fama de ser um dos frontmen mais legais da história do heavy metal e do hard rock. Durante o show, ele soltou alguns gracejos, distribuiu sorrisos, assinou LPs trazidos pelos fãs, "headbangeou", agradeceu repetidamente a calorosa recepção do público gaúcho e, a certa altura do show, rasgou a cópia do setlist que estava no chão e fez de conta que iria engolir o papel. A mensagem era clara: "se for para agradar vocês, podemos fugir do roteiro". De fato, não há como não amar Biff Byford.
Enfim: fomos testemunhas privilegiadas de um show histórico, a ser lembrado com carinho e emoção por todos os presentes por décadas a fio. Além de ser uma lenda, o Saxon comprova que encontra-se em plenas condições de sustentar uma performance ao vivo que não deixa absolutamente nada a desejar na comparação com qualquer outro momento na brilhante trajetória de mais de 40 anos da banda.
Tristemente, esta noite especial e tão memorável foi encerrada em tom de pesar. Em torno de uma hora depois do fim do show, a página oficial do Saxon no Facebook comunicou o falecimento do pai do guitarrista Paul Quinn. A banda confirmou, no entanto, que Paul se apresentará nos próximos dois shows já marcados no Brasil. Por isso, encerro esta resenha com minhas sinceras condolências para Paul e sua família - e tenho certeza de que este é o sentimento de todos os fãs da banda espalhados por todas as partes do nosso país.
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